Agência Fapesp publica resenha sobre o livro “África, margens e oceanos”

Resenha sobre o livro África, margens e oceanos, organizado por Lucilene Reginaldo e Roquinaldo Ferreira, foi publicada no site da Agência Fapesp. Clique aqui para ler o texto ou role a página até o fim.

Estruturado em quatro partes e com 16 capítulos, o livro apresenta reflexões de autores nacionais e internacionais, com discussão de perspectivas originais e muito bem anotados. Trata-se, portanto, de uma antologia planejada, com textos que discutem entre si ou se desdobram em problemáticas afins. Cabe, inicialmente, sublinhar o prefácio de Robert Slenes e a introdução dos organizadores. Ambos oferecem um rico panorama dos estudos africanistas e seus desafios no Brasil, ressaltando especialmente o papel dos oceanos Atlântico e Índico. Como notam esses autores, essas vias de contato se tornaram tão profundamente integradoras que poderiam muito bem ser descritas como rios, como sugeriu Alberto Costa e Silva.

A primeira parte do livro coloca os rios-oceanos em relevo, apresentando o panorama geral de integração dos povos banhados pelo Índico, que precedeu em muito a economia do Atlântico, sugerindo a existência de uma economia mundo não eurocentrada. Lição importante, pois recoloca a economia atlântica em uma escala historicamente mais realista. Os dois capítulos seguintes detalham circuitos de trocas comerciais e movimentação de gente, plantas e saberes no mundo do Índico. Já o último se volta para a análise das conexões intracontinentais na África Central, explicitadas pelas demandas escravistas de ambos os oceanos.

A segunda parte do livro estabelece seu foco no Atlântico, discutindo a emergência de identidades, práticas culturais e comerciais nas duas margens desse “rio”. Os capítulos se debruçam sobre a expansão do islã na porção atlântica de Senegal e Serra Leoa, o comércio do ouro estabelecido entre europeus e africanos no Reino do Daomé, as expedições britânicas prospectivas ao longo do rio Níger e, finalmente, sobre a complexidade da formação do candomblé da autodenominada nação Ketu na Bahia em suas conexões com a costa ocidental africana. O fio condutor é a demanda de escravizados em suas múltiplas consequências.

A terceira parte encontra sua inspiração na história social para colocar em relevo a atuação de africanos em diferentes contextos. Os dois primeiros capítulos, ao tratarem de concepções das signares e seus trabalhadores em Saint-Louis e Gorée e do papel das mulheres de elite na apropriação de terras na transição do trabalho escravo em Angola, estabelecem a questão do gênero. O papel das chefias africanas no domínio colonial português dos séculos XVII e XVII é tema do capítulo seguinte. A seção se fecha com as práticas musicais e dançantes no contexto do século XX em Moçambique.

A quarta e última seção oferece um balanço do impacto das novas concepções e abordagens a respeito da história da África tanto no ambiente acadêmico quanto nas práticas didáticas. Os textos discutem novas possibilidades interpretativas para o desenvolvimento da pesquisa acadêmica, mas, sobretudo, avançam para uma discussão sobre produção e ensino de história da África e das políticas públicas de combate ao racismo.

Maria Helena P. T. Machado é professora titular do Departamento de História da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo (FFLCH-USP)

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s