Semântica e discurso: os efeitos ideológicos e sociais da prática discursiva, segundo Pêcheux

Por Gustavo Gonçalves

Como a estrutura escolhida das palavras, das sílabas e do enunciado afeta o significado do que dizemos? É a isso que a semântica – como área da linguística que estuda os significados, nos mais diferentes níveis, dos discursos – busca responder. Frequentemente aproximada da semiótica e da semiologia, que dizem respeito a conjuntos de signos – sejam eles linguísticos ou extralinguísticos (sons, imagens etc.) –, a semântica ocupa-se do sentido e deriva da linguística e da lógica, designando tanto os estudos antigos de gramáticos e filósofos quanto as pesquisas linguísticas contemporâneas.

Com o propósito de questionar as evidências fundadoras da semântica  – como o fato de ela ignorar os contextos histórico e social do discurso – e de elaborar as bases de uma teoria materialista para ela, a obra Semântica e discurso: uma crítica à afirmação do óbvio,  de Michel Pêcheux, desenvolve uma reflexão sobre a produção de conhecimentos científicos e a questão da prática política do discurso na Europa, em especial na União Soviética e na França.

O filósofo Michel Pêcheux foi um grande nome entre os intelectuais fundadores da análise de discurso (AD), sendo precursor da escola francesa que trata da materialidade do discurso. Ex-diretor de pesquisas do Département de Psychologie du Centre National de Recherche Scientifique (CNRS), o autor propôs o discurso como forma de materialidade, diretamente ligado à ideologia, criando, assim, novas bases para a semântica, pois, para Pêcheux, ela é o ponto-chave da ligação entre a linguística, as ciências sociais e a filosofia. O autor por diversas vezes explora as fronteiras discursivas de diferentes áreas, como na obra – que foi um marco acadêmico – Materialidades discursivas, em que Pêcheux e outros pesquisadores dissertam sobre as bases teóricas da análise do discurso como resultado de uma combinação heterogênea entre a história, a linguística e a psicanálise. 

A tradução dessa edição ficou a cargo de quatro pesquisadores brasileiros: Eni de Lourdes Puccinelli Orlandi, responsável pela nota prévia da obra, pioneira na área da análise de discurso no Brasil (com base nos trabalhos de Pêcheux), pesquisadora do Laboratório de Estudos Urbanos da Unicamp (Labeurb) e professora colaboradora do Instituto de Estudos da Linguagem da Universidade Estadual de Campinas (IEL-Unicamp);  Lourenço Chacon Jurado Filho, professor efetivo da Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho (Unesp); Manoel Luiz Gonçalves Corrêa, professor efetivo do Departamento de Letras Clássicas e Vernáculas da Universidade de São Paulo (FFLCH-USP) e líder do grupo de pesquisa CNPq Práticas de Leitura e Escrita em Português Língua Materna, e, por fim, Silvana Mabel Serrani, professora titular colaboradora do Instituto de Estudos da Linguagem da Unicamp (IEL-Unicamp).

Dividida em quatro partes, a obra é a segunda das três que constituem as principais contribuições de Pêcheux à análise de discurso francesa. Lançado originalmente em 1975, o livro apresenta um amadurecimento teórico do seu antecessor (Por uma análise automática do discurso, de 1969), articulando novos conceitos para apresentar a linha de formação da AD, como ideias propostas por Marx, Engels, Foucault e Bakhtin, e abandonado outros, como a existência de uma máquina estrutural discursiva. Com isso, Pêcheux apresenta sua tese de que a linguística tem seus limites e não pode ser usada isoladamente para explicar o funcionamento do discurso, pois deixa de lado os seguintes fatores: a ideologia, o contexto social e o contexto histórico do indivíduo.

O estudo da semântica na União Soviética teve início após o período stalinista, que terminou em 1953. Os pesquisadores marxistas lançaram-se em regiões teóricas cujo estudo teria, até então, sido restrito pelo ex-secretário-geral do Partido Comunista da URSS, Andrei Jdanov. Nessa nova fase, o filósofo marxista polonês Adam Schaff conseguiu aproximar novamente a teoria da semântica ao marxismo, a primeira sendo usada não somente em pesquisas que envolvem a linguística, como também nas que envolvem a lógica. No livro, Pêcheux examina o estudo de Schaff sobre a semântica com o intuito de pontuar críticas sobre a retomada dessas pesquisas, mas sem ressuscitar os fantasmas de Jdanov ou Marr. Então, de acordo com o autor:

Estamos, pois, reivindicando a liberdade de questionar o oportunismo filosófico de que se autoriza a atual coexistência “marxista” do pavlovismo, da cibernética, da Semiótica, das aplicações da Lógica Formal à teoria da Linguagem e à Semântica, e também a liberdade de lutar contra uma concepção stalinista voluntarista da ciência em que “o’marxismo” ditaria, previamente, a uma ciência seus princípios e seus resultados, em nome do Materialismo Dialético ou das Leis da História.

Assim, como previamente citado, para Pêcheux, quando o sujeito produz o discurso, ele já está enlaçado pela ideologia e pela conjuntura social. Dessa forma, as condições de produção de uma sociedade são o que condiciona o indivíduo como sujeito. Esses elementos da sociedade que impactam o que falamos ou escrevemos são: a religião, o regime político, os costumes, as produções culturais, as instituições, as relações de trabalho e a família. Aquilo que se escreve ou fala são reflexos da própria época, do lugar em que se vive, de onde se veio e de onde se está. Assim, são criados dois contextos para a AD: o imediato, da conjuntura social de quando o discurso é falado e publicado; e o amplo, que são todos os elementos fundacionais da sociedade e suas instituições, derivados de amplos processos históricos.

Colocando a linguística e a filosofia na AD, mostrando como essas disciplinas afetam uma à outra e como as análises derivadas delas são fundamentais para entender a prática política revolucionária do proletariado, a obra Semântica e discurso: uma crítica à afirmação do óbvio é o início consolidado de toda a Teoria do Discurso proposta por Pêcheux, cujo legado é uma das principais ferramentas analíticas desse campo do conhecimento. O livro é indispensável para linguistas, filósofos, comunicadores e cientistas sociais.

Semântica e discurso: uma crítica à afirmação do óbvio

Autor: Michel Pêcheux

ISBN: 978-85-268-1053-2

Edição: 5a

Ano: 2016

Páginas: 288 

Dimensões: 21 x 14 x 1,5 cm.

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