Estudos fundamentais sobre a análise do discurso

Por Sophie Galeotti

O texto traz, em si, o mundo. Porém, o retrato que a linguagem constrói da realidade está sempre inserido em uma determinada moldura, que varia de acordo com inúmeros fatores, como as circunstâncias históricas de sua produção e os veículos de transmissão da mensagem. O que essa moldura escolhe enquadrar ou deixar fora do enquadro também constitui sua forma e é de fundamental importância para a compreensão da operação ideológica de um texto ou de um produto da linguagem no geral. Tal concepção foi essencial para o avanço das discussões em Análise do Discurso, especialmente desde os anos 1970. Por meio de uma colaboração entre linguística e historiografia, Discurso e arquivo: experimentações em Análise do Discurso é um livro que traz estudos que expandiram as possibilidades da análise semiótica.

Fruto da colaboração entre uma linguista e dois historiadores, Denise Maldidier, Régine Robin e Jacques Guilhaumou, a obra reúne uma série de estudos realizados de 1976 a 1990 na França, que contribuem para o campo interdisciplinar da Análise do Discurso. A tradução para o português foi feita por Carolina Fedatto e Paula Chiaretti. 

O livro intersecciona linguística e história, focando o acontecimento (retratado pela linguagem) e deslocando o trabalho com o corpus por levar em conta o papel do arquivo. Os autores buscam demonstrar, por meio da análise de diferentes materiais, como os aspectos social e político articulam-se na linguagem. Nesse processo, questionam as formas de análise linguística, priorizando seus efeitos ideológicos e, desta maneira, situando a Análise do Discurso nas disciplinas interpretativas.

A reunião de textos segue a ordem de evolução dos estudos em Análise do Discurso realizados pelos autores. Ao longo dessas pesquisas, tornou-se evidente que a própria Análise tinha uma história a ser explorada, como é destacado na Apresentação do livro. A euforia dos anos 1960 contribuiu para a elaboração de trabalhos de grandes amplitudes. Passada essa fase, “as dificuldades se amontoavam, bloqueios surgiam: o tempo de reflexão sobre a validade do dispositivo havia chegado”. 

Em resposta a essa crise no campo, Maldidier e Guilhaumou exploraram outras vias. Portanto, no início de suas pesquisas, “a complexidade das questões e sua característica implícita demandavam uma abordagem crítica das configurações então existentes em Análise do Discurso. Assim começa e, em seguida, se amplia um trajeto na historicidade dos discursos”. Nessa historicidade, então, situa-se o deslocamento de corpus para o arquivo.

O primeiro capítulo, “Do espetáculo à morte do acontecimento”, mostra as experimentações iniciais realizadas por Maldidier e Robin. Trata-se de um estudo comparativo de textos jornalísticos sobre o protesto de Charléty, em maio de 1968. O ponto de partida do capítulo já situa a sua intenção renovadora: os autores colocam os meios de comunicação sob uma lente crítica ao lembrar o Caso Dreyfus, general de origem judaica condenado por traição pelo governo da França sem provas substanciais, em virtude de intensas campanhas antissemitas veiculadas pela imprensa. A Editora tem um lançamento recente que trata a fundo desse caso.

A lente crítica lembra que os meios de comunicação funcionam ideologicamente. Assim, “longe de serem puros ‘gravadores da realidade’, os meios de comunicação […] a subvertem, a transfiguram em mitos; em síntese, funcionam ideologicamente”. Para esmiuçar as operações de ideologia, o estudo busca reconstruir a objetividade do ocorrido em Charléty colocando em confronto diferentes textos jornalísticos de diferentes periódicos: Le Figaro, L’Aurore, Combat e L’Humanité. No processo, os textos são divididos em segmentos diversos. O primeiro passo seria desvendar a temporalidade cronológica, o que permite que se torne preciso, no texto jornalístico, “o que pertence à descrição, à narração ou ao julgamento”.

O prefácio apresenta-nos a proposta inversa de Roland Barthes, que ajudou a nortear essa então nova aproximação da Análise do Discurso. A amplitude do horizonte da semiologia está, segundo ele, em dar instrumentos de análise que permitam circunscrever a ideologia nas formas – onde essa ideologia é menos procurada. Para o linguista e semiólogo, embora o alcance ideológico dos discursos fosse percebido havia muito tempo, o grande trabalho do século estava no conteúdo ideológico das formas. 

Segundo Barthes, as formas também são moldadas por aquilo que é excluído do discurso – aquilo que, por algum motivo, não “coube” no texto. Desvendar o que está oculto e o porquê disso é também importante para entender o conteúdo ideológico das formas. Tal concepção é uma das bases que fundam as correntes acadêmicas pós-estruturalistas da filosofia e sociologia.

Os capítulos seguintes, escritos em momentos posteriores, já estabelecem limites para as experimentações da Análise do Discurso, na medida em que apresentam novas perspectivas. As formas ideológicas também são analisadas em termos de idioma, mais especificamente do idioma francês do final do século XVIII, como trata o capítulo “A língua francesa na ordem do dia (1789-1794)”. A obra, além de circundar uma crítica à Análise de Discurso de até então, apresenta uma discussão sobre a própria história da Análise de Discurso na França, centrada no materialismo e na linguística. Buscam-se sua origem e seus paradigmas fundadores. 

Discurso e arquivo: experimentações em Análise do Discurso é uma obra imprescindível a linguistas e a historiadores. Os estudos presentes no livro são importantes para o campo interdisciplinar de Análise do Discurso. Além disso, as experimentações oferecidas ao longo dos capítulos instigam o leitor a pensar sobre esse campo do conhecimento e as possibilidades que ele oferece para que entendamos partes fundamentais da sociedade, como o meio pelo qual operam os meios de comunicação.  Acesse o nosso site e saiba mais sobre esta obra.

Discurso e arquivo: experimentações em Análise do Discurso

Autores: Denise Maldidier, Régine Robin e Jacques Guilhaumou

ISBN: 978-85-268-1364-9

Edição: 1

Ano: 2016

Páginas: 264

Dimensões: 21 x 14 x 1,5 cm

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