Sociedade e Estado: as raízes autoritárias do Brasil

Por Gustavo Gonçalves Ferreira

A relação histórica de nosso país com o autoritarismo parece ressurgir constantemente. Durante a traumatizante época da ditadura militar, os direitos sociais foram deliberadamente atacados. Esse período suscitou discussões sobre a política brasileira e a relação entre Estado e sociedade. Teriam sido esses anos um acidente no processo democrático ou a volta de um padrão recorrente, enraizado na sociedade e na cultura brasileiras? Escrita originalmente durante o período do AI-5, que suspendeu os direitos civis políticos, a obra Bases do autoritarismo brasileiro, de Simon Schwartzman, aprofunda-se no passado sociopolítico do Brasil e em suas mudanças para mostrar de que maneira o autoritarismo se integrou em nosso país, discutindo como esse fenômeno influencia o modo que a sociedade se articula. 

O livro tem como base o doutorado do sociólogo Simon Schwartzman, pesquisador associado do Instituto de Estudos de Política Econômica (Iepe) e ex-presidente do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Importante figura na história da sociologia brasileira, o autor tem diversas obras respeitadas em inúmeras áreas, com destaque para ciências sociais, políticas e educacionais. Hoje, a maioria de suas pesquisas são clássicos indispensáveis para a compreensão do Brasil. 

Divido em seis partes, Bases do autoritarismo brasileiro trouxe um novo olhar sobre o desenvolvimento da democracia em uma sociedade assolada por séculos de colonização e de escravidão. O sistema político brasileiro foi herdado desses sistemas e não representa os interesses de grupos e de classes sociais. Isso porque a dimensão predominante do Estado brasileiro é a neopatrimonial. Essa dimensão diz respeito à transição para a modernidade enquanto a sociedade civil fraca permanece fraca e a burocracia administrativa, pesada. O livro busca entender os padrões da relação entre Estado e sociedade, que se moldou no Brasil ao decorrer dos séculos por meio de uma burocracia estatal poderosa e lenta e de uma sociedade submissa e covarde. 

Essa dimensão predominante apoia-se em um sistema burocrático que se apropria de órgãos, funções e renda pública de setores privados, que se mantêm dependentes do poder central. Esse fenômeno deixa claro como, historicamente, a sociedade civil brasileira foi incapaz de desenvolver um sistema político que contrapusesse, de maneira efetiva, esse poder central. O livro explora esses motivos, destacando como a oposição ao autoritarismo não tem conhecimento da articulação política que o país herdou do colonialismo e, por isso, frequentemente confunde o Estado patrimonial e os setores autônomos da sociedade com ideologias liberais. Desse modo, destaca-se a dificuldade de sociedades marcadas por políticas neopatrimoniais de abandonarem seus sistemas de valores conservadores e ultrapassados para transitarem para uma estrutura moderna e ágil, sem cair no liberalismo ou em suas próprias bases arcaicas. 

O autor enfatiza como esse conjunto de características faz com que a sociologia política do Brasil seja única, não podendo ser polarizada ou comparada à de outros países capitalistas ocidentais. Bases do autoritarismo brasileiro apresenta argumentos para explicar os motivos pelos quais a história e a sociedade nacional necessitam de uma perspectiva teórica diferente para serem compreendidas.

Como já dito, o sistema político brasileiro fundou-se em modelos estrangeiros já predominantes, sem levar em conta os interesses de grupos sociais. Isso se perpetua devido à falta de constância entre as instituições do país e suas realidades econômica e social, o que torna o Estado “estranho” à sociedade e, portanto, incapaz de representá-la. As consequências disso são múltiplas, como, por exemplo, uma população que não se interessa por temas políticos nacionais e um extremo foco no imediatismo da política, o que dificulta o olhar para o futuro e a concepção de medidas políticas a longo prazo.

Desse modo, o autoritarismo brasileiro não é um traço congênito de nossa nacionalidade, mas certamente é um fator decisivo para o futuro nacional. A discussão é apresentada como algo extremamente complexa, deixando claro que o termo “autoritarismo” serve mais para uma expressão conveniente que utilizamos quando nos referimos a um período histórico de uma sociedade, marcado por diversas contradições, e com um fator que sempre predomina: um Estado ineficiente e burocrático.

Bases do autoritarismo brasileiro foi um divisor de águas na maneira pela qual se enxerga o autoritarismo que assola nosso país. A obra tornou-se um clássico, ainda hoje bastante citado e comentado. No atual cenário político, muito se discute sobre o autoritarismo no Brasil e ler Simon Schwartzman dá a possibilidade de atribuirmos uma perspectiva ampla para melhor significar o período conturbado que vivemos atualmente. O livro é indispensável para aqueles que se interessam pela sociologia e história nacionais.

Para saber mais sobre o livro e adquirir o seu exemplar, acesse o nosso site!

Bases do autoritarismo brasileiro

Autor: Simon Schwartzman

ISBN: 978-85-268-1224-6

Edição: 5

Ano: 2015

Páginas: 296

Formato: 21 x 14 x 1,5 cm

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