Jornal Estadão publica artigo sobre o livro “Guerra pela eternidade”, de Benjamin Teitelbaum

Matéria sobre o livro Guerra pela eternidade foi publicada no Jornal Estadão em 10 de abril de 2021.

islamismo idiossincrático. Depois, criaria seu próprio séquito e trilharia um caminho bem excêntrico, se
comparado ao resto dos outros grupos que compartilham dessa cosmologia.
Se olharmos os títulos das publicações de Guénon, é nítido que essa escola de pensamento lida não só
com assuntos espirituais como também medita a respeito de rituais religiosos – ou, pelo menos, a
recuperação deles em um mundo que os esqueceu por completo. Daí a classificação de
“Tradicionalismo”, de acordo com Sedgwick e Teitelbaum, já que a história dos escritos arcaicos, como
os Upanishads, a Bíblia, a Torá e o Corão, além de toda a experiência guardada nela, foi perdida com a
ascensão da modernidade laica e racionalista, resultando assim na fragmentação da alma humana, na
qual o homem fica absolutamente perdido na busca de um sentido pela vida. O rancor contra o mundo
moderno, segundo esses estudiosos, seria uma revolta a um status quo inalterável, fundamentada pela
hegemonia da igualdade, e que, por isso mesmo, só será modificada por esses deslocados se eles
promovessem uma luta política, somada a uma subversão espiritual, nas nossas instituições
democráticas.
Ocorre que classificar a empreitada de Guénon, Evola, Schuon e tantos outros como “tradicionalistas”
implica crer que há alguma novidade nela, relacionando-a somente à modernidade – o que nos leva a
um erro brutal. O ponto é que não há nada de novo sob o sol nesse grupo aparentemente marginal na
história das ideias. Apesar de Sedgwick apontar para uma raiz que nos levaria à “filosofia perene”,
atribuída ao renascentista Marsílio Ficino, o fato é que os ensinamentos de Guénon & Cia. são tão
velhos quanto a escola de Pitágoras, os avisos oraculares de Héraclito e o surgimento do Cristianismo,
como nos avisa Pierre Hadot em seu essencial O Véu de Ísis. Todos surgiram sob nomes diversos, como
“gnosticismo”, “ocultismo”, “hermetismo” e “magia”, mas guardam a mesma unidade de sentido: a da
“absurda vontade do homem enfermo de orgulho, a sede de um ‘saber’ que desminta ou, melhor,
substitua a divina sabedoria”, nas palavras do poeta Bruno Tolentino.
Por isso, é interessante observar que, nas críticas de Sedgwick e Teitelbaum a respeito do
Tradicionalismo, não há qualquer menção às observações já feitas sobre este tipo de pensamento e que,
por coincidência, vieram dos olhares aguçados de católicos como Jean Daniélou (que estudou Guénon
por anos), Hans Urs Von Balthazar (que provou o platonismo desencarnado da filosofia perene) e
Joseph Ratzinger (antes de ser Bento XVI, ele anteviu o caráter anti-histórico e, portanto, abstrato
deste simbolismo hermético). O motivo é simples – porém aterrador: assim como os tradicionalistas
infectaram o nosso século 21 por meio dos governos iliberais, como os de Donald Trump, Vladimir
Putin, Viktor Órban e Jair Bolsonaro (esta é a tese de Teitelbaum), esses intelectuais progressistas que
os estudaram também foram contaminados pelo mesmo parasita da imaginação.
Pois o Tradicionalismo é exatamente isto: um vírus que se apropria da autenticidade das verdadeiras
religiões – a cristã, a judaica e a islâmica – e a deturpa conforme os interesses da sua “sanha do arcanjo
caído”, em um desprezo pela dinâmica imprevisível da conduta humana. É neste ponto que tanto
Sedgwick como Teitelbaum convergem na suposição de um “tradicionalismo leve” que se imiscuiu na
cultura política contemporânea, disfarçando um “tradicionalismo duro” que seria viável somente aos
“poucos felizes” que o entenderiam na sua perfeição doutrinária. Seria algo semelhante ao filme Clube
da Luta (1999), de David Fincher: uma “teia hierárquica”, sem comando objetivo na aparência, mas que
atua na sociedade por causa dos inegáveis talentos persuasivos dos seus membros (os “invisíveis” que a
elite se recusa a admitir a existência) os quais manobram o imaginário dos incautos e, logo, a única
coisa que lhes resta é a submissão plena da consciência interior de cada um diante de um mestre ou de
um grupo que explique os insolúveis paradoxos do real.
Infelizmente, Sedgwick e Teitelbaum, por mais competentes que possam ser na sua técnica investigativa
e acadêmica (e são), não entenderam o verdadeiro perigo do que seria o Tradicionalismo. Seus livros
sofrem da idolatria pelo mito do progresso e da democracia que os impede ver que o liberalismo em si,
sem um vínculo transcendente e encarnado, nunca será a resposta adequada a esta moléstia espiritual.
E mais: por este mesmo motivo, não admitem em sua pesquisa que a refutação a esta escola de
pensamento já foi dada no passado, feita por ninguém menos que Santo Irineu de Lião em seu tratado contra os Hereges (174-189 d.C), o qual mostrou como “o plano divino é realizado pelas sucessivas eras
de existência física do universo em realidades concretas da natureza e história humanas”.
Contudo, se o leitor pretende algo mais secular, a ficção também poderá ajudá-lo a escapar desta
enrascada. No romance Submissão, de Michel Houellebecq, a grande surpresa da sua polêmica trama –
a de que a França laica enfim se tornou uma teocracia islâmica – é a descoberta feita pelo protagonista
de que o seu chefe, um renomado acadêmico muçulmano, conseguiu seu sucesso graças a uma tese que
unia René Guénon e Friedrich Nietzsche. Com uma piscadela irônica, o escritor francês percebeu, mais
do que Sedgwick e Teitelbaum, que o homem que lutava contra o mundo moderno encontrou o seu par
naquele sujeito que articulou a sua essência. Não à toa, os dois morreram imersos em um universo de
paranoia: o primeiro com a certeza de que era perseguido por “poderes inferiores”, disfarçados em
amigos e discípulos com quem brigou, enquanto o segundo foi possuído por uma paralisia moral que o
deixou afásico. É o que ocorre quando um parasita da imaginação domina a sua personalidade – para
depois, no caso de um país como o Brasil, transformá-lo em uma gigantesca vala funerária.
*Martim Vasques da Cunha é autor de A Tirania dos Especialistas (Civilização Brasileira, 2019) e O
Contágio da Mentira ( yiné, 2020)

SERVIÇO

Guerra pela eternidade

Autor: Benjamin Teitelbaum

ISBN: 9786586253535

Ano da Publicação: 2020

Edição: 1

Formato: 23,00 x 16,00 x 1,50 cm.

Nº Páginas: 288 pp

Peso: 450 g.

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