Em busca de novas perspectivas sobre o mundo do trabalho

Por Gabrielle da S. Teixeira

Como os movimentos dos trabalhadores ocorridos em diferentes partes do mundo podem ser semelhantes e estarem conectados? Na obra Trabalhadores do mundo: Ensaios para uma história global do trabalho, o pesquisador Marcel van der Linden apresenta argumentos e ferramentas que respondem a essas e a outras perguntas em busca de uma interpretação diferente da história do trabalho.

Pesquisador sênior no Instituto Internacional de História Social, em Amsterdã, Linden dedica-se a pesquisas direcionadas à história social e ao trabalho no mundo, sendo reconhecido nesse campo por suas diversas contribuições. Em seu livro, traduzido do inglês, o autor reúne ensaios que foram escritos seguindo seu desejo de evidenciar que a escravidão e outros tipos de exploração devem fazer parte dos estudos sobre a classe trabalhadora, visto que influenciaram na formação desse grupo.

Outra contribuição da obra é sua abordagem metodológica, que visa expor a necessidade de compreender essas análises sem a interferência do eurocentrismo e do nacionalismo metodológico, capazes de distorcer algumas visões do mundo trabalhista e da sua história. Linden afirma que, quando surgiu, a história do trabalho foi rapidamente relacionada a essas duas correntes que foram responsáveis não só por fundir sociedade com Estado, mas também por abordar os diferentes estados-nação como “mônadas leibnitizianas”. Essa abordagem afirma que os movimentos trabalhistas ocorridos na França, por exemplo, devem ser analisados como acontecimentos separados dos que ocorreram nos Estados Unidos e Grã-Bretanha. Assim como evidencia que a visão eurocêntrica era estabelecida quando os movimentos ocorridos na América Latina deveriam ser compreendidos conforme os esquemas do Atlântico Norte, por essa última região ser vista como um exemplo de futuro para países menos desenvolvidos. Dessa forma, uma nação era tida como mais avançada em comparação à outra, limitando os estudos desenvolvidos a partir de 1840, e também nas próximas gerações, por estimular um grande interesse em entender o funcionamento dos povos vistos como “altamente desenvolvidos”.

Na obra, o autor ressalta que essa visão foi sendo modificada, principalmente após a Segunda Guerra Mundial, momento em que a “monadologia eurocêntrica” passou a ser questionada por completo, resultando em uma nova compreensão da “História Global do Trabalho”. Para o autor, essa temática é uma área de interesse que pode gerar diferentes pontos de análise, não restringindo as experiências do indivíduo a espaços de tempo. Com capítulos independentes, mas conectados por um assunto em comum, o foco dos ensaios é apresentar um estudo transcontinental, realizando comparações entre diferentes países, como Estados Unidos, Brasil, África do Sul, e investigando as suas interações.

Na “Introdução”, são apresentadas as mudanças nas pesquisas sobre os trabalhadores e seus movimentos. Desde a década de 1840, os historiadores partiam de uma visão eurocêntrica, buscando compreender apenas o funcionamento de países capitalistas desenvolvidos. Assim, os objetos desse estudo eram, em primeiro lugar, o trabalhador do sexo masculino que trabalhava em ferrovias, minas, agricultura e que era visto como um indivíduo livre, no sentido marxista, para escolher seu empregador. Em segundo lugar, era observada a família desse empregado, que teria como única função o consumo e a reprodução, uma vez que nela “eram gastos os salários, e nela eram criados os filhos”. Os pesquisadores davam destaque a greves e a outras atividades realizadas como formas de protestos pelos trabalhadores.

Apesar de não ter havido grandes modificações nessa perspectiva – o descaso com as famílias e com o trabalho doméstico permanecia, bem como o foco em greves e partidos políticos –, a partir da década de 1950, começaram a surgir trabalhos com enfoques menos eurocêntricos, como os dos historiadores Charles van Onselen e Ranajit Das Gupta. Linden afirma que foi a partir de 1996 que os estudos se tornaram globais, resultando em diversas conferências e associações realizadas internacionalmente, como a rede de historiadores “Mundos do Trabalho” pertencente à Associação Nacional de História (Anpuh), no Brasil, e a fundação da Associação Indiana dos Historiadores do Trabalho, na África do Sul.

Partindo de uma visão ampla das pesquisas sobre o trabalho, a primeira parte do livro, denominada “Conceituações”, aborda o conceito de “classe trabalhadora”, o motivo de ter sido criada para diferenciar os trabalhadores “respeitáveis” de outros grupos, como os escravos, os trabalhadores não livres, os trabalhadores autônomos e o lumpemproletariado, evidenciando suas relações na formação de cada grupo. O capítulo um, “Quem são os trabalhadores?”, parte da análise de mercadoria na concepção de Karl Marx, que via “o modo de produção capitalista como resultado da mercantilização da força de trabalho, dos meios de produção e das matérias-primas e dos produtos de trabalho”. Os outros dois capítulos são orientados por questionamentos sobre o trabalho assalariado livre, que buscam compreender o motivo de esse tipo de atividade se tornar predominante, mesmo não tendo existido em outras épocas e regiões, enquanto a escravidão perdeu intensidade no decorrer dos anos, embora tenha continuado existindo na maioria dos países.

“Variações do mutualismo” é a segunda parte do livro. Nela são examinadas ações, como mutirões de trabalho, em que “os membros da coletividade se reúnem uma ou diversas vezes, para trabalhar juntos na produção de um bem do qual todos, ao final, esperam se beneficiar”. São apresentadas também questões sobre os seguros e sobre cooperativas de consumidores e de produtores.

A terceira parte, denominada “Formas de resistência”, mostra como os trabalhadores subalternos podem lutar contra seus empregadores e representantes em busca de melhorias, seja em questão salarial ou trabalhista. Como todo o livro, esse capítulo é repleto de exemplos de diferentes partes do mundo que contextualizam cada forma de resistência, sejam greves, protestos de consumidores, a formação de sindicatos ou o internacionalismo operário. Um exemplo de resistência trabalhista que o autor traz é a “operação tartaruga”, em que os mineiros chineses que trabalhavam em regime de servidão por contrato na mina de North Randfontein, Transvaal, realizaram por três dias um protesto em que cavaram menos que o esperado pelos seus empregadores. Essa operação foi realizada com o propósito de garantir emprego para mais trabalhadores e aumentar o preço por peça.

Por fim, “Contribuições de disciplinas adjacentes”, a quarta parte do livro, tem como foco apresentar outras disciplinas que enriquecem o estudo sobre a história global do trabalho. Nessa seção, o autor questiona as abordagens dos sistemas-mundo e a “Escola Bielefeld”, chegando até aos estudos etnológicos, como a experiência Iatmul, um povo da Papua-Nova Guiné, sobre o qual Linden diz que:

“os historiadores do trabalho teriam muito a lucrar se ‘descentrassem’ seu enfoque tradicional fazendo uso dos estudos etnológicos. […] A combinação de diferentes trabalhos pode lançar luz sobre os desdobramentos de longo prazo – principalmente quando o material etnológico é complementado pela história oral, por memórias escritas por funcionários do governo preocupados com a questão e pela pesquisa nos arquivos coloniais, nas organizações missionárias etc”.

Trabalhadores do mundo: Ensaios para uma história global do trabalho oferece importantes reflexões para os estudiosos do campo da Ciência Social de diferentes culturas e regiões, buscando incentivar a realização de pesquisas sobre os contextos menos estudados dos trabalhadores subalternos.

Para saber mais sobre o livro e adquirir o seu exemplar, acesse o nosso site!

Trabalhadores do mundo: Ensaios para uma história global do trabalho

Autores: Linden, M. V. D

ISBN: 9788526810365

Ano da Publicação: 2013

Edição: 1

Formato: 23,00 x 16,00 x 2,50 cm.

Nº Páginas: 520 pp

Peso: 730 g.

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