Jornal da Unicamp publica entrevista sobre o livro “Literaturas africanas comparadas”

Entrevista sobre o livro Literaturas africanas comparadas: Paradigmas críticos e representações em contraponto, escrito por Elena Brugioni, foi publicada no Jornal da Unicamp em 26 de outubro de 2020.

Editora da Unicamp: Para além do amparo teórico para a sala de aula da graduação, quais outras contribuições Literaturas africanas comparadas pode oferecer à área de crítica literária no Brasil?

Elena Brugioni: O livro é fruto de um percurso de estudo que tenho desenvolvido nos últimos anos, e a ideia principal foi reunir trabalhos e reflexões que pautam minha trajetória acadêmica no âmbito da pesquisa e da docência. As obras literárias analisadas no livro, bem como os tópicos críticos e as problematizações teóricas abordadas, pretendem estabelecer um diálogo com os debates que configuram os campos das Literaturas Africanas, da Literatura Comparada e dos Estudos Pós-coloniais em diversos contextos acadêmicos e institucionais, não apenas de língua portuguesa. Neste sentido, penso que a contribuição do livro, além de trazer para a sala de aula alguns dos mais canônicos e recentes debates críticos que pautam estes campos de estudo, é apresentar discussões e propostas que estabelecem um diálogo com problematizações teóricas matriciais que configuram as críticas literárias contemporâneas no âmbito dos estudos recentes sobre romance africano, do debate crítico comparatista sobre sistemas literário e literatura-mundial e das cartografias teóricas pós-coloniais, dentro e fora do Brasil. A literatura como sistema e alegoria nacional, ou ainda, como registro social e político, a relação da escrita literária com a modernidade e o capitalismo global, os temas da oposição e da resistência às narrativas coloniais e imperiais que pautam o romance africano contemporâneo, a relação entre escrita literária, história, memória e futuro em diversos contextos e situações pós-coloniais são algumas das questões desenvolvidas no livro. O contraponto entre línguas e tradições intelectuais, áreas de estudo, campos disciplinares e geografias críticas distintas são algumas das diretrizes teóricas e metodológicas que procurei seguir neste ensaio cujo objetivo primordial é o de pensar as literaturas africanas e suas possíveis cartografias críticas por meio de perspectivas conceituais e teóricas de matriz transacional. Por fim, pensando na contribuição que o livro pode dar ao campo da crítica literária no Brasil, não quero dizer que tentei fazer algo novo, pois não tenho grande simpatia por novidades — sobretudo quando se trata de crítica literária —, mas certamente procurei ensaiar leituras teóricas menos desgastadas e trazer alguns repertórios bibliográficos menos comuns.

Editora da Unicamp: Qual a definição de teoria pós-colonial e em que lugar ela está situada dentro da tradição da crítica literária mundial?

Elena Brugioni: Na verdade, existe há alguns anos, fora e dentro da academia, alguma ambiguidade — ou até alguma confusão — sobre o termo pós-colonial. Os chamados Estudos Pós-coloniais afirmam-se primeiramente nas academias euro-americanas a partir dos anos 1990 e, desde então, muitas discussões ocorreram em diversas geografias acadêmicas e institucionais. Trata-se, na verdade, de uma produção crítico-teórica extremamente diversificada em vários sentidos, que tem como principais protagonistas acadêmicos e pensadores — críticos literários e culturais, historiadores, filósofos, sociólogos, cientistas políticos, escritores, artistas — com trajetórias diaspóricas ou de exílio, oriundos de tradições intelectuais muito diversas e, deste modo, promotores de geografias teóricas bastante heterogêneas. Há quem diga, hoje, que o pós-colonial esteja morto, ou ainda que seu desmoronamento o estilhaçou em outros e distintos campos de estudos — estudos de gênero, estudos étnico-raciais, media studies, teoria queer, entre muitos outros. No meu entendimento, o pós-colonial hoje não constitui uma cartilha teórica pré-fabricada (ready-made), ou melhor, um campo disciplinar em sentido bourdieusiano, mas um gesto interpretativo, um olhar ou um posicionamento crítico. Uma lente. Neste sentido, o exemplo paradigmático, em minha opinião, é certamente o de Edward W. Said, professor de literatura comparada na Columbia University de Nova York, falecido em 2003, intelectual politicamente engajado e crítico literário sofisticadíssimo que nunca se valeu da definição de pós-colonial em sentido disciplinar, no entanto habitualmente considerado como fundador da chamada crítica pós-colonial. Em um de seus livros mais célebres, Cultura e Imperialismo,ele desenvolve uma leitura do cânone literário (e cultural) ocidental a partir do imperialismo, mostrando como seria impossível pensar e analisar o romance moderno, sobretudo em língua inglesa e francesa, fora da dimensão cultural, estética e política do imperialismo europeu e ocidental. Há uma passagem do ensaio de Said que escolhi como epígrafe do meu livro, que me parece sintetizar de forma magistral o gesto crítico por ele desenvolvido em sua trajetória intelectual e que, no meu entender, traduz o que é ler através de uma perspectiva pós-colonial: “O que tentei fazer foi uma espécie de exame geográfico da experiência histórica, tendo em mente a ideia de que a terra é, de fato, um único e mesmo mundo, onde praticamente não existem espaços vazios e inabitados. Assim como nenhum de nós está fora ou além da geografia, da mesma forma nenhum de nós está totalmente ausente da luta pela geografia”(Said, 1993). Para além disso, há na prática crítica de Said um aspecto central — e por vezes um pouco esquecido ou mal interpretado — que se prende com o que ele designa mundanidade (worldliness), ou seja, uma relação indiscernível entre o texto literário e o mundo, um pressuposto que me parece fundamental para se pensar e trabalhar com a literatura. Ora, numa perspectiva global, ou planetária — como hoje se prefere nomear —, os desdobramentos dos estudos pós-coloniais são variados e distintos, e a reflexão meta-crítica que ocorre no âmbito do debate pós-colonial constitui o elemento mais sintomático da sua potência teórica e, sobretudo, da sua evidente pertinência. Como afirma Robert C. Young, o fato de a teoria pós-colonial ser ainda hoje tão veementemente questionada e de incomodar tanto e tantos, é marca da sua permanência.

Editora da Unicamp: Em que momento o pós-colonialismo toma o romance histórico como objeto de análise?

Elena Brugioni: O romance histórico pode ser definido como um dos paradigmas estéticos e literários da teorização pós-colonial, sobretudo nas vertentes da crítica materialista, isto é, que encaram o texto literário como registro de relações e transformações de cariz também econômico, social, cultural e material. História e geografia, tempo e espaço, são os eixos críticos matriciais daquilo que podemos definir como estudos pós-coloniais literários. Assim, o romance torna-se o objeto de análise privilegiado desta teorização, e a própria teoria pós-colonial contribui de forma substancial para uma redefinição daquilo que habitualmente se entende como romance histórico. A colonização e o imperialismo não se realizam apenas com a invasão e a conquista física da terra; o ato de narrar é matricial, e a história neste sentido é um desdobramento primordial na perspetiva pós-colonial. Colônia, império e nações não deixam de ser também narrativas. No campo dos estudo africanos, da filosofia ou da historiografia, por exemplo, existe a noção de biblioteca colonial, uma categoria que, em síntese, aponta para um saber consolidado e acumulado que edifica, sustenta e justifica a colonização e seus desdobramentos políticos, estéticos e culturais. Ora, o romance constitui um dos territórios criativos mais produtivos para se reequacionar o significado e o conteúdo da biblioteca colonial e, por conseguinte, da História como narrativa de violência e subjugação — qual é o caso da história da colonização —, mas também da História nacionalista e das independências daquilo que o historiador e escritor moçambicano João Paulo Borges Coelho — um dos autores que analiso no livro — define como script da libertação (Borges Coelho, 2016). O romance histórico pós-colonial interpela, de forma profunda e paradigmática, uma visão positivista, teleológica e unívoca da História — e, sobretudo, de seus usos e significados no presente — e o faz por meio de estratégias estéticas próprias, desmontando uma dicotomia tão obsoleta quanto recorrente entre espaço-tempo colonial e pós-independência, romance realista, realismo mágico, irrealismo, etc. e, deste modo, proporcionando possibilidades de releitura crítica do gênero literário do romance histórico, bem como das matrizes e das modalidades narrativas que sustentam a própria ideia de História.

Editora da Unicamp: Quais as divergências entre essa abordagem crítica e os estudos na área de literatura e testemunho bastante disseminados na América Latina?

Elena Brugioni: A fortuna crítica do pós-colonial na América Latina pode ser definida como pelo menos ambígua. No Brasil, o pensamento pós-colonial chega de forma bastante incisiva e precoce já em meados/finais dos anos 1990, por exemplo, com as traduções (majoritariamente pela Editora da UFMG) de importantes ensaios de alguns dos pensadores da pós-colonialidade, como Stuart Hall, Edward W. Said, Homi K. Bhabha, Gayatri C. Spivak, Ranajit Guha, entre outros, e também com a participação de alguns destes mesmos teóricos em importantes eventos acadêmicos, tais como os congressos da Associação Brasileira de Literatura Comparada (ABRALIC), mas esse fenômeno acaba por não consolidar uma dimensão institucional e disciplinar própria. Há alguns anos, verifica-se uma afirmação crescente, não apenas na academia brasileira, dos chamados estudos decoloniais (Estudios Descoloniales), uma derivação latino-americana da teorização pós-colonial, que hoje se encontra também bastante contestada em diversos contextos sul-americanos, sobretudo hispanófonos. Ora, olhando para a utilização dos termos pós-colonial e decolonial no Brasil tenho, por vezes, a sensação que estes sejam (erroneamente) utilizados como sinônimos ou, por outro lado, que a chamada guinada decolonial que parece ocorrer na academia brasileira seja fruto de uma moda acadêmica, numa lógica que aproxima o trabalho crítico e intelectual a uma mercadoria com prazo de validade. Acerca da vertente dos estudos latino-americanos da literatura de testemunho, as trajetórias me parecem ser outras, mas não por isso incompatíveis. Existem propostas que articulam de forma muito produtiva toda a teorização em torno da literatura de testemunho e dos estudos da memória com a perspectiva pós-colonial, sobretudo no que diz respeito à vertente biopolítica e ao biopoder. Aliás, um pensador que recentemente ficou bastante conhecido no Brasil, como Achille Mbembe, tem proposto várias reflexões teóricas neste sentido, mas obviamente a partir do contexto africano. Outro exemplo é toda a reflexão sobre a literatura da guerra — colonial ou de libertação — ou ainda sobre a escrita literária que trata de violência, trauma e genocídio, em que o diálogo entre crítica pós-colonial e teoria do testemunho é bastante consolidado, mas não necessariamente restrito a pensadores e intelectuais latino-americanos.

Editora da Unicamp: É possível afirmar que uma proposta pós-colonial de crítica literária como a deste livro contribui para o fim da universalidade das abordagens europeias em direção à constituição dos microrrelatos proposta por Lyotard a pós-modernidade?

Elena Brugioni: A ideia do livro, que pretende ecoar alguns do pressupostos que marcam a teoria pós-colonial, não é a de acabar com “a universalidade das abordagens europeias”, mas de desafiar uma certa ideia de universalidade e também de Europa, não num sentido de substituição, mas sim de ressignificação, ou melhor — utilizando a definição de Dipesh Chakrabarty, um historiador que muito aprecio —, de provincializar estas universalidades, de mostrar seus limites, tornando evidentes as exclusões que elas próprias sustentam e produzem. Aliás, a utilização da teorização de Lyotard acerca do fim das grandes narrativas e da afirmação dos microrrelatos é tratada numa perspectiva que pretende evidenciar a natureza sempre situada e parcial que configura um entendimento, algo restrito e unívoco da própria ideia de universal. Alguns dos romances que trabalho no livro têm uma evidente dimensão de questionamento das chamadas grandes narrativas, mas nunca esta dimensão estética e conceitual me parece ter um intuito de substituição, as palavras-chave aqui diria que são reorientação e ressignificação. Mais do que acabar com a universalidade europeia, penso que o mais importante, como disse Immanuel Wallerstein, seja pensar “universalidades mais universais”. Em minhas aulas, costumo citar o que considero uma bela frase de um célebre jornalista e historiador africanista, Basil Davidson: “após as independências africanas, a partir dos anos 60, o mundo se tornou um lugar maior e melhor”. Acho que os estudos de literaturas africanas e a teoria pós-colonial têm esse imperativo em seu horizonte: tornar a teoria, a crítica e os estudos literários — cuja tradição é historicamente um tanto eurocentrada — um pouco maior e melhor; não com o intuito de construir guetos disciplinares ou de estabelecer cânones críticos e literários alternativos ou subtrativos, mas sim mantendo como ponto assente uma ideia de mundo, ou, como diria ainda Edward Said, um pressuposto de mundanidade pautada pela sua inevitável e fundamental pluralidade e amplitude. Um estudioso de literatura mundial de que gosto bastante, Franco Moretti, afirma que ler mais não é a solução para ampliar as noções que temos de um possível cânone literário mundial. É verdade, ler mais não é a resposta ao problema da imensidão e diversidade do mundo literário, mas ler muito é o começo de uma solução. Deste modo, as literaturas africanas me parece um campo de estudo indispensável para alargar os repertórios das experiências estéticas e teóricas, aliás, diria que são elementos fundamentais para cultivar uma ideia de mundo mais universal e também, especialmente em época de recrudescimentos nacionalistas e xenofóbicos, para desmontar o que pelas palavras de Achille Mbembe seria “o sonho louco de um mundo sem outros”.

Editora da Unicamp: De uma maneira geral, como o conceito de pós-modernidade se opõe à pós-colonialidade?

Elena Brugioni: Esta é uma pergunta que implicaria uma longa resposta. Rios de tintas foram gastos acerca da relação entre pós-colonial e pós-moderno e aqui também os debates foram muitos e ainda não se esgotaram. Minha preocupação é a de procurar pensar fora de oposições binárias, de tentar desmontar aparentes dicotomias, pois elas habitualmente não levam a nenhum tipo de avanço para o conhecimento e para o pensamento. Neste sentido, encaro a relação entre pós-colonial e pós-moderno por meio de uma lógica de contiguidade, gosto de trabalhar estas discussões numa perspetiva de lateralidade. Toda a reflexão sobre pós-modernidade é de certa forma incontornável para se pensar o pós-colonial. Voltando ainda ao Edward Said, a guinada pós-moderna é matricial para entender a relação entre discurso, poder e saber na perspectiva dos territórios colonizados e na relação entre império e literatura. Aliás, um dos esforços mais difíceis, mas também um dos mais importantes — sobretudo em sala de aula —, é o de desfazer esta visão teleológica do tempo e das genealogias críticas, desmontar uma ideia de sequencialidade que é, em primeiro lugar, fruto de visões bastante redutoras. O desafio é, então, mostrar as inúmeras simultaneidades que pautam os debates críticos como respostas a problemas diversos, mas não necessariamente opostos. Outro aspecto que julgo ser fundamental é a ideia de que há que respeitar uma filiação teórica, ou seja, uma noção de teoria e de crítica literárias feitas de mestres, discípulos e cartilhas. Em última instância, a teoria e a crítica literárias são tentativas de respostas para perguntas que ressoam no mundo e, por isso, no texto literário. Como disse uma vez Michel Foucault, “a teoria é uma caixa de ferramentas, é preciso que sirva, é preciso que funcione”. Neste sentido, o conceito de pós-moderno, pós-modernismo e pós-modernidade (em seus diversos significados) e as muitas teorizações que se inscrevem neste debate servem um propósito fundamental: responder aos desafios colocados pelas transformações culturais, econômicas, e sociais trazidas pela modernidade capitalista em escala global; entender os significados da própria noção de modernidade, suas formas e manifestações culturais e estéticas; perceber como a cultura (isto é, a literatura) muda sua linguagem e seu significado nas múltiplas desordens pós-coloniais contemporâneas. Não encaro o pós-colonial e o pós-moderno numa relação de oposição, mas como possibilidades teóricas para responder a perguntas distintas ou similares, ainda que não idênticas, para resolver problemas contíguos ou tangentes, ainda que não iguais. A centralidade do espaço-tempo colonial que os estudos pós-coloniais trazem à tona, a necessidade de interrogar o discurso colonial para se entender as próprias noções de cultura, representação e modernidade, a urgência de se encarar as grandes tradições literárias a partir da sua relação com territórios e povos colonizados e com os impérios são certamente algumas das novidades trazidas pela teoria pós-colonial, mas isso não implica a necessidade de se substituir o debate pós-moderno com a reflexão sobre pós-colonialidade. Isso, inclusive, é importante sobretudo na sala de aula: mostrar a possibilidade de existência de posições teóricas e leituras aparentemente contraditórias quando não opostas e tornar evidente a diversidade que pauta a reflexão intelectual sobre a literatura. O que me parece importar mais é o exercício crítico, as viagens que as teorias fazem, o esforço de compreensão de outras formas de pensar ou imaginar, que é, no fundo, o que torna a crítica literária um espaço de partilha intelectual, de aprendizagem e de respeito ao outro, isto é, uma prática de exercício de humanismo e, por isso, de democracia.

Para ler a entrevista na íntegra, clique aqui.

SOBRE O LIVRO

Literaturas africanas comparadas: Paradigmas críticos e representações em contraponto

Autor: Elena Brugioni

1ª Edição

Formato: 14×21 cm

Páginas: 256

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