Nos bastidores da colonização do Brasil

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Por Luisa Ghidotti Souza

Quem nunca se perguntou como foi possível que algumas centenas de portugueses dominassem milhares de comunidades indígenas organizadas que ocupavam as extensas terras do que hoje chamamos de Brasil? Afinal, os indígenas eram muitos, com culturas diversas, espalhados por todo o território, conhecedores do espaço e manipuladores dos recursos que a terra oferecia. Qual, então, a vantagem dos colonizadores que levou as comunidades ao processo civilizatório e permitiu que a cultura europeia predominasse ante a diversidade cultural dos povos que aqui viviam? É isso que o recente lançamento da Editora da Unicamp, Os papéis dos intermediários na colonização do Brasil (1500-1600), de Alida C. Metcalf, explora.

Primeiramente é necessário pensar na importância de uma pesquisa como essa para o contexto brasileiro. O livro, publicado inicialmente nos Estados Unidos, foi usado como bibliografia em cursos de história em algumas universidades daquele país. Quando descoberto pelo historiador brasileiro Pablo Lima, logo foi inserido no processo de tradução e publicação em português. Ao conhecer o título Go-betweens and the colonization of Brazil, 1500-1600, o pesquisador não teve dúvida da necessidade de levar seu conteúdo para os teóricos brasileiros: “Fiquei impressionado com a riqueza da pesquisa e a perspectiva inovadora com que a autora analisa a documentação disponível sobre a história do Brasil no século XVI”.

É realmente de impressionar. A perspectiva teórica de Alida C. Metcalf é revolucionária para esse campo de pesquisa, na medida em que a autora analisa os aspectos sociais dos momentos iniciais da colonização brasileira que levaram à conquista do território pelos portugueses a partir das relações mediadas pelos go-betweens, conceito traduzido para intermediários

Metcalf afirma que os contatos em contexto de colonização nas Américas não se deram de forma diádica, ou seja, não se consumaram por meio de uma relação direta entre europeus e ameríndios. Negociações foram possíveis, no entanto, pela intermediação de sujeitos que tinham o domínio de ambas as culturas, que habitavam “territórios fronteiriços” e influenciavam diretamente nessa aproximação intercultural, de maneira que as relações são consideradas triádicas, conceito importante para entender a abordagem teórica aqui construída. 

A autora traz figuras históricas como Pocahontas, La Malinche e Sacagawea para ilustrar o papel dos intermediários nas conquistas dos europeus. Mais especificamente no Brasil, “de modo crescente, durante o século XVI, as negociações feitas pelos intermediários garantiriam a vantagem dos portugueses em sua luta contra os povos indígenas sobre qual seria a cultura dominante”. 

A obra investiga os variados papéis desempenhados pelos intermediários, classificando-os em três tipos diferentes, de acordo com a natureza de sua interferência entre as duas culturas. Há os intermediários físicos (ou biológicos), “que criam ligações materiais entre os mundos”, ou seja, que realizam trocas entre as culturas, geradoras de mudanças na fauna e na flora do território ou na genética da população; aqui se incluem a disseminação de novas doenças, a transferência de plantas e animais, a geração de filhos mestiços etc. Há também os intermediários transacionais, “que facilitam a interação social entre os mundos”, ocupam o papel de intérpretes e tradutores, fazem mediação cultural e facilitam negociações mercantis, comerciais, trabalhistas, entre outras. E há, ainda, os intermediários representacionais, “que escrevem, desenham mapas, representam a cultura do ‘outro’ por meio de textos, palavras ou imagens”. A autora os coloca no papel de historiadores, sendo a maioria de origem europeia, o que justifica a escassez de registro histórico da colonização das Américas por uma perspectiva ameríndia.   

Expandido o conceito de “intermediários” e exemplificados os seus tipos, a autora volta sua atenção para o Brasil do século XVI. Localizar os papéis desses agentes no contexto em questão não é tarefa simples, pois, diferentemente do que acontece em países como Peru e México, são poucos os registros disponíveis do momento de chegada e instalação dos portugueses no território brasileiro. O movimento teórico de analisar a complexidade das relações interculturais nos momentos iniciais do contato entre portugueses e indígenas tem muito a acrescentar acerca das compreensões dos panoramas sociais e políticos que vêm sendo construídos no país. Segundo a autora: 

nesse século formativo, um tempo em que o futuro da colônia era indeterminado e fluido, foram estabelecidos padrões de interação que serviriam de molde ao Brasil dos séculos seguintes. Ao rever a narrativa desse período da história brasileira e ao observar os intermediários e escutar suas vozes, discute-se a formação do país. Muitos dos mais importantes temas da história brasileira estão enraizados no século XVI.

Justificados a abordagem, os recortes temporal e espacial e o objeto de análise, a autora se debruça nos materiais disponíveis do Brasil quinhentista para localizar e investigar a presença dos intermediários no processo que desencadeou a submissão e o genocídio dos povos indígenas. Assim, é possível vislumbrar que a conquista dos portugueses não se deu apenas pelo uso da força, mas também pela facilitação proporcionada por sujeitos que estabeleceram um espaço de interculturalidade. 

Nas palavras de Alida Metcalf, rigorosamente traduzidas por Pablo Lima, “buscando entender esses intermediários e o seu poder, comecei esta obra com a premissa de que, nos encontros do século XVI, centenas de mediadores estiveram presentes – alguns nomeados, mas, em sua maioria, anônimos”. 

Esse trabalhoso resgate histórico traz aos estudos da colonização europeia e da história do Brasil uma ideia bastante aproximada do que realmente acontecia nos encontros e nos choques entre as culturas, desvelando também registros historiográficos pouco visitados pelos pesquisadores, numa perspectiva que defende que “os intermediários foram centrais para a colonização do Brasil”, ampliando e complexificando os arranjos políticos, sociais e culturais que compuseram a formação do Brasil contemporâneo, os quais ainda remanescem em nossa sociedade.

Para saber mais sobre o livro Os papéis dos intermediários na colonização do Brasil (1500-1600), acesse o nosso site!

image2Os papéis dos intermediários na colonização do Brasil (1500-1600)

Autor: Alida C. Metcalf

Tradutor: Pablo Lima

ISBN: 978-85-268-1494-3

Edição: 1ª

Ano: 2019

Páginas: 424

Dimensões: 16×23

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