A controversa atuação de Pietro Maria Bardi no mercado de arte brasileiro

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Por Luisa Ghidotti Souza

Em setembro de 2011, realizou-se na Unicamp o 1o Simpósio Internacional Pietro Maria Bardi, que reuniu pesquisadores em arte e história do Brasil e da Itália para esmiuçar a vida dessa importante figura determinante para o circuito artístico de ambos os países. O sucesso e a relevância do simpósio levaram à publicação do livro Pietro Maria Bardi: Construtor de um novo paradigma cultural, organizado por Nelson Aguilar, disponível nas livrarias desde dezembro de 2019.

O livro é composto por dez capítulos que exploram diferentes níveis da vida de Bardi, suas relações com os artistas e outras figuras importantes à época, como sua esposa Lina Bo Bardi e o poeta Ezra Pound; com o governo fascista italiano e as instituições públicas no Brasil, que o levaram à materialização do Masp. As informações em torno da vida de Bardi são bastante controversas, uma vez que grande parte dos registros de sua trajetória, segundo Nelson Aguilar, são baseados no que chamamos hoje de fake news, produzidas durante a Itália de Mussolini em que Bardi viveu, havendo muita distorção de informação.

No início de sua vida, Bardi parou de frequentar a escola e passou ao autodidatismo, ainda assim estabeleceu muitas conexões políticas e econômicas nas primeiras décadas do século XX, na Itália. Sua relação com a arte estava intimamente ligada aos sentimentos e ideais patriotistas, de maneira que se engajou em organizar mostras e exposições e fundou galerias na Itália, antes de vir para o Brasil. “Bardi, como milhões de italianos, entusiasma-se pelo fascismo como possibilidade de mudar a vida e a arte”. 

O italiano chega com sua mulher ao Brasil em 1946, com planos de estender sua atuação como comerciante de arte na América Latina. Juntando-se a Assis Chateaubriand, sai da Itália pós-guerra e encontra “uma São Paulo que crescia economicamente”, onde “a cultura era ainda um privilégio de poucos”. Assim, Bardi funda, em 1947, em um prédio projetado por Jacques Pilon, o qual servia de sede para a rede de jornais de Chateaubriand, o Museu de Arte de São Paulo (Masp). Ao mesmo tempo, propunha-se a atuar como jornalista, colocando em prática o jornalismo no qual acreditava, ao desenvolver artigos que “mostram sua visão a respeito das funções de um museu como centro propulsor de ideias e, principalmente, seu afã de conquistar os menos favorecidos”.

Mais que expor e vender arte, Bardi ansiava por promover as produções artísticas e as concepções em torno de uma ideologia nacionalista. Acreditava que uma galeria deveria ser tão visitada e popularizada quanto um supermercado, e que a totalidade da população deveria ter acesso aos bens culturais sofisticados. Assim, a ideia fundadora do Masp se concentrava no conservadorismo fascista de Bardi, que encontrou na emergente São Paulo o espaço que faltou na Itália para desenvolver suas ideias.

“Os primeiros anos do Masp ofereceram painéis destinados a narrar a história da arte desde as cavernas até a atualidade, instalados em ambiente arrojado tanto no design quanto na iluminação. Não se tratava de iniciação. Recontar a história da arte depois de uma guerra com campos de extermínio e explosões nucleares sobre populações civis exigia uma nova articulação capaz de interessar a humanidade que escapara da sinistra experiência.”

O curioso papel de Pietro Maria Bardi na expansão do círculo artístico brasileiro e na intersecção entre Brasil e Itália, tanto no campo ideológico quanto artístico e comercial, está desenvolvido nesta coletânea que reúne estudiosos da história da arte italianos e brasileiros. A pergunta a ser desvendada aparece logo na Introdução: “como alguém com formação precária se alça entre os que tornaram a arte moderna de seu país e do nosso essencial à cultura universal?”.

Compreender os objetivos de Bardi é compreender o sentimento de toda uma geração que depositava na alta arte a chance de elevação intelectual e material do ser humano. Entender essa figura significa nos aproximar de uma noção de identidade que compôs o Brasil do século XX e o conduziu ao desenvolvimento artístico em consonância com os pensamentos europeus. O fascismo de Bardi, apoiador de Mussolini, não estava ancorado na Itália, representou também o sentimento de uma geração de brasileiros e foi ideia fundante de um dos mais reconhecidos museus de arte do mundo. 

Vale-nos, ao menos, agradecer pelo legado que nos recompensa até hoje. A criação do Masp não é, de maneira alguma, um projeto efêmero. 

Para saber mais sobre o livro Pietro Maria Bardi: Construtor de um novo paradigma cultural, acesse o nosso site!

Capa - Pietro Maria Bardi - 16 x 23 cm.inddPietro Maria Bardi: Construtor de um novo paradigma cultural

Organizador: Nelson Aguilar

ISBN: 978-85-268-1507-0

Edição: 1ª

Ano: 2019

Páginas: 224

Dimensões: 16 x 23 cm

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