A Alta Idade Média e a recusa à escuridão

Sem Título-1

Por Julia Helena de Oliveira

 

Professor do Departamento de História da Universidade de Oxford e membro do All Souls College, Chris Wickham é um dos mais respeitados estudiosos sobre o período medieval. Dentre as abordagens do assunto, seu livro – O Legado de Roma: iluminando a idade das trevas, 400-1000 destaca-se por desafiar a visão tradicional de “Idade das Trevas”, que associa a Idade Média a uma época de atraso para a ciência e para cultura, caracterizando-a como um estágio intermediário entre épocas de maior relevância.

Com base em novas pesquisas da década de 70 e na consulta de novos documentos e descobertas arqueológicas, o autor argumenta que esse período foi essencial e lançou as bases do que seria a identidade europeia, contribuindo para o desenvolvimento do pensamento político da região. Contudo, ele deixa claro que se afasta da ideia de “nascimento da Europa” na Idade Média.

Uma das marcas da obra é a crítica contra a criação de narrativas de “origem”. Para o autor, a partir do momento em que o nacionalismo se espalhou como uma arma para a política no século XIX, muitos historiadores mistificaram a Alta Idade Média. Dessa forma, foram criados os relatos que Chris Wickham chama de “história ruim”: uma abordagem que se aproveita da falta de evidências históricas para criar a ideia de nascimento da Europa associada a um território e uma história, buscando relatos que indiquem sua superioridade.

Segundo ele, a Europa não pode ter “nascido” no período, pois não havia nenhuma identidade, ou sequer cultura comum que justificasse a ideia do continente como a conhecemos. Embora identifique a existência de estruturas em comum entre as sociedades da época (a saber: a acumulação de riquezas, a institucionalização da política e a cultura do público), ressalta que elas não são específicas desse período e nem suficientes para justificar a ideia de unidade europeia.

Wickham enfatiza que sua obra busca evitar a todo custo uma interpretação teleológica, ou seja, abordar os acontecimentos históricos sob a perspectiva de suas supostas causas finais. Um exemplo dessa abordagem que se popularizou, já utilizada como metodologia de ensino sobre o período, é a leitura do Império Romano no século V, entendido apenas em função dos fatores que levaram à sua dissolução (o resultado é a perda de informações relevantes para o entendimento da sociedade e da política da época). Para o autor, a história nunca deve ser estudada a partir de teleologias, pois cada fase histórica tem sua legitimidade e identidade, somente podemos escapar dessa armadilha se tentarmos olhar diretamente para cada pedaço do passado a partir de sua própria realidade social”.

Dessa forma, O legado de Roma é uma reavaliação sobre as narrativas históricas tradicionais sobre o Ocidente, uma reorientação que analisa os grandes impérios, considerando os “grandes homens” em conjunto com a comunidade local. A obra se diferencia em sua abordagem ao conferir prioridade às pessoas, aos “agentes históricos reais”, expondo uma visão pluralista e sem eurocentrismos. Segundo Chris Wickham, a história medieval não é apenas a história da Europa, é no mínimo também a história do extremo-médio-próximo Oriente e da África Setentrional e Subsaariana.

O livro é dividido em quatro partes com subdivisões. A primeira parte se debruça sobre o Império Romano e sua queda no Ocidente, enquanto a segunda trata das entidades políticas pós-romanas na Gália e na Britânia e em territórios que se tornariam a Espanha, a Itália e a  Irlanda. Já a terceira parte lida com uma visão extra-ocidente e não eurocêntrica, elucidando a história de Bizâncio logo após a crise do século VII no Império Romano Ocidental, como também do Califado árabe e de seus estados sucessores no século X, incluindo a Espanha muçulmana. Por fim, a quarta parte retorna ao Ocidente latino: o Império Carolíngio, seus estados sucessores e seu principal “imitador”, a Inglaterra. Ademais, foca na variedade de entidades políticas setentrionais, da Rússia à Escócia, voltando-se para suas aristocracias e seus campesinatos.

Como obra historiográfica, O legado de Roma se propõe a ser compreensível para pessoas leigas sobre o período. Wickham, segundo seus próprios termos, busca originalidade evitando as grandes narrativas já feitas anteriormente e não confere muita importância ao que veio antes ou depois do período 400 a 1000, foco do seu trabalho. A partir da argumentação do autor e de evidências apresentadas por ele, o livro mostra as proporções de influência que Roma teve sobre toda a Idade Média, tanto em cultura quanto em política, uma dimensão que perdura até a história moderna e contemporânea.

Capa_O LEGADO DE ROMA

O legado de Roma – Iluminando a idade das trevas, 400-1000

Autor: Chris Wickham

Tradutor: Pamela Naumann Gorga, Luiz Anchieta Guerra e Patrícia Rangel do Sacramento

ISBN: 978-85-268-XXXX-X

Edição:

Ano: 2019

Páginas: 808

Dimensões: 16×23

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s