A arte da memória

por Paula Cruciol

 

Sem Título-1A memória, de acordo com as definições mais comuns dos dicionários, é basicamente a faculdade de conservar ideias e experiências, além da habilidade de acessar informações. Da forma como é colocada neles, é difícil imaginar que a memória possa ser também arte. Para Frances Yates, no entanto, ela é ainda mais: um campo de estudo.

Inspirada pela tentativa de compreender os trabalhos de Giordano Bruno sobre a memória, a pesquisadora reuniu, durante quinze anos, obras que são referência nesse assunto, a fim de aprofundar-se no tema e divulgá-lo. O resultado desse extenso trabalho é A arte da memória, uma obra de caráter interdisciplinar que passa por teoria literária, historiografia e estudos da arte, considerando a cultura como um diálogo e um embate entre diversos discursos mnemônicos e registros de linguagem.

O livro consiste na construção de um percurso histórico que resgata o nascimento da arte da memória, na Grécia, passa pela Idade Média e termina no Renascimento europeu com a invenção da imprensa. Competindo com registros escritos de fácil reprodução e circulação, as técnicas de memorização tornaram-se cada vez mais ultrapassadas, o que marca essa invenção renascentista como o principal fator que levou a mnemônica clássica ao seu esquecimento. Mas não completamente.

O Teatro de Camillo, de Giulio Camillo, o De umbris idearum, de Giordano Bruno, e o Sistema do teatro da memória, de Robert Fludd, foram estudos feitos, durante o Renascimento, sobre mnemônica inspirada pelas técnicas gregas. Foi a partir desses textos que a autora iniciou sua pesquisa, voltando no tempo e buscando as referências usadas por esses autores.

A principal fonte da tradição mnemônica é o Ad Herenium, um texto produzido na Antiguidade Clássica por um professor de retórica desconhecido. Esse documento resgata a origem dessa arte no mito de Simônides, seu inventor, e na divindade grega da memória, mãe das musas, Mnemosyne. Além disso, ele faz a relação entre retórica e memória, ligando, então, a linguagem às técnicas mnemônicas.

De acordo com esse documento e em concordância com a pesquisadora, a retórica é a fundadora dessa arte, pois a descrevia como uma técnica de aprimoração do discurso do orador, permitindo-lhe entoar longas sentenças impecavelmente sem se perder nem se confundir. Essa técnica, por sua vez, era complexa o suficiente para ganhar o título de arte e atrair estudiosos de fora da retórica.

Complementando o Ad Herenium, a autora cita os textos fundadores dessa tradição: De oratore, de Cícero, e Institutio oratoria, de Quintiliano, que, apesar de serem mais objetivos (por assumirem que o leitor já esteja familiarizado com o tema e as terminologias), oferecem diferentes perspectivas e variações da arte da memória. O que esses textos têm em comum é a comparação da mnemotécnica com a escrita gráfica, ou seja, os mecanismos de memorização clássica são impressões de lugares e imagens na memória muito semelhantes aos mecanismos de escrita de letras e palavras em tábuas de cera e, mais tarde, em papéis.

Sem Título-2

O livro de Yates é um dos únicos estudos modernos sobre a história da arte da memória e, apesar de reunir trabalhos anteriores, trata-se de um estudo completamente novo, “inteiramente reescrito e ampliado em novas direções”.  Embora trate do assunto por um viés academicista, com referências e citações que embasam a tese da pesquisadora, a linguagem do livro é simples. Assim, mesmo leigos podem entender e se apaixonar pela memória, assunto tão pontual para especialistas e, ao mesmo tempo, tão universal, interdisciplinar e acessível a qualquer indivíduo.

capa arte memoria (2D)

A arte da memória

Autor: Frances A. Yates

Tradução: Flavia Bancher

ISBN: 978-85-268-0768-6

Reimpressão: 3ª – 2016

Edição: 1ª Ano: 2007

Páginas: 504

Dimensões: 16×23

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