Crise ambiental: Romper com o sistema é assegurar o futuro da humanidade

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Por Jessica Moreira Siqueira

Imagine que estamos no mês de agosto e que todo o seu dinheiro para as despesas do restante do ano acabou. Você poderia fazer um empréstimo para sobreviver nos próximos meses. Mas como pagaria esse valor no ano seguinte recebendo o mesmo salário e gastando ainda mais do que no ano anterior? Um novo empréstimo? Uma dívida sem fim que iria para seus filhos, netos e bisnetos? É isso que está acontecendo com a Terra, que vem sofrendo um déficit ecológico nos últimos 50 anos.

Em 2018, o Dia da Sobrecarga da Terra, que marca o esgotamento dos recursos naturais disponíveis para o ano, ocorreu em 1o de agosto. Porém, essa dívida vem se acumulando há muito tempo: desde que essa contagem começou, em 1969, os recursos ecológicos estão acabando cada vez mais cedo. O cálculo para estipular esse dia é feito a partir da divisão entre a quantidade de recursos gerados pelo planeta durante o ano e a demanda da humanidade nesse mesmo período. Essa é uma das iniciativas que surgiram no começo da década de 1970, quando cresceu a preocupação com os estragos irreversíveis causados ao meio ambiente. De acordo com a declaração da Conferência das Nações Unidas sobre o Meio Ambiente Humano de 1972, conhecida como Declaração de Estocolmo:

Chegamos a um momento da história em que devemos orientar nossos atos em todo o mundo com particular atenção às consequências que podem ter para o meio ambiente. Por ignorância ou indiferença, podemos causar danos imensos e irreparáveis ao meio ambiente da terra do qual dependem nossa vida e nosso bem-estar.

Se, por um lado, as discussões sobre o meio ambiente aumentaram, por outro, são cada vez maiores os impactos ambientais negativos. De quem é a culpa? O que podemos fazer? Diminuir o tempo no banho? Apagar as luzes? Essas, com certeza são atitudes válidas e necessárias para uma consciência ambiental. No entanto, o problema é estrutural: existe uma “irreconciliável incompatibilidade entre o capitalismo de nossos dias e qualquer sociedade ambientalmente viável”. Isso é o que defende Luiz Marques, professor do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas (IFCH) da Unicamp, em seu livro Capitalismo e colapso ambiental.

“A verdade é que a curva da relação custo ambiental/benefício econômico do capitalismo entrou irreversivelmente em fase negativa porque a conta ambiental do crescimento econômico vai-se tornando impagável não já para a próxima geração, mas para a geração de crianças e jovens de nossos dias”, afirma o pesquisador.

Em todo o mundo, há numerosos exemplos do embate entre o capitalismo e a preservação do meio ambiente. No Brasil, o desmatamento é um dos problemas ambientais constantes que afeta o ecossistema e a vida das comunidades diretamente ligadas às áreas devastadas – como a dos indígenas. Contudo, não se trata de algo isolado, e seu impacto se expande para a sociedade em geral no longo prazo (que está cada vez mais curto).

Alguns problemas ecológicos podem parecer situações distantes para a população que não é diretamente afetada, mas casos de catástrofes ambientais de grande repercussão como os causados por empresas mineradoras nos municípios de Mariana e Brumadinho, trouxeram à tona os impactos que esse tipo de atividade pode causar. Diante de tragédias como essas, discutem-se mudanças na legislação, acordos e aumento da fiscalização. Mas essas medidas seriam suficientes para preservar e recuperar o meio ambiente? Para o professor Marques, tratados e acordos de redução de impactos ambientais são ilusões, pois nunca se colocam contra os projetos de crescimento das grandes empresas e dos governos. Portanto, uma verdadeira mudança apenas ocorreria com a ruptura do modelo socioeconômico atual: “O capitalismo global está extinguindo ou ameaçando existencialmente um número crescente de espécies, entre as quais, e não por último, a nossa”, escreve o autor.

Superar o capitalismo é diminuir as desigualdades, “desglobalizar a economia e colocá-la a serviço da diminuição dos impactos ambientais”. De acordo com Marques, é preciso descartar a regra do acúmulo de excedentes, efeito de outros momentos históricos de escassez e insegurança da sociedade. Para ele, na situação atual “mais excedente = menos segurança”.

A terceira edição de Capitalismo e colapso ambiental – ganhador do prêmio Jabuti 2016 na categoria Ciências da Natureza, Meio Ambiente e Matemática – acaba de ser lançada. Ela apresenta informações atualizadas e ampliadas, sendo, de acordo com o autor, praticamente uma reescrita de suas edições anteriores. Algo necessário ao se tratar desse tema que está em constante mudança. Para citar um exemplo, em 2016, data da primeira edição, a transição da floresta amazônica para uma vegetação de savana era esperada para o final do século XXI, no entanto, a previsão foi antecipada, por estudos científicos, para as próximas décadas. A exigência dessas atualizações em tão pouco tempo demonstra como a biosfera se encaminha rapidamente para a sua degradação.

Capitalismo e colapso ambiental é uma obra importante para compreender o processo econômico, histórico e social que vem conduzindo ao esgotamento dos recursos ambientais. Se não for evitado, tal processo poderá causar a destruição da própria humanidade. Um bom exemplo para a expressão “aqui se faz, aqui se paga”.

capitalismo e colapso ambiental livro

Capitalismo e colapso ambiental

Autor: Luiz Marques

ISBN: 978-85-268-1468-4

Edição: 3ª edição revista e ampliada

Ano: 2018

Páginas: 736

Dimensões: 16×23

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