Humor, política e escravidão nas crônicas de Machado de Assis

As mascaras-3D alta

por Larissa Alves Mundim

 

No dia 3 de abril de 1885, Lélio – personagem de Machado de Assis na série de crônicas “Balas de Estalo” – explicou aos leitores da Gazeta de Notícias como as ideias funcionam para ele: “Não sei se já alguma vez disse ao leitor que as ideias, para mim são como as nozes, e que até hoje não descobri melhor processo para saber o que está dentro de umas e de outras, – senão quebrá-las”. Certamente, Ana Flávia Cernic Ramos em seu livro As máscaras de Lélio se preocupou em quebrar as nozes deixadas por Machado de Assis nas crônicas “Balas de Estalo”, série coletiva publicada na Gazeta de Notícias entre 1883 e 1887. A série produzida por intelectuais como Machado de Assis, Ferreira de Araújo, Valentim Magalhães e Capistrano de Abreu, tinha por objetivo fazer comentários e pilhérias com os acontecimentos do dia a dia e com os fatos inusitados da política imperial. O livro de Ana Flávia Cernic Ramos tem por objetivo analisar as crônicas produzidas por Machado de Assis para a série. Ou melhor, por Lélio, o narrador criado pelo autor.

 

O que o leitor encontrará em As Máscaras de Lélio é uma análise original sobre as crônicas machadianas. Durante muito tempo, a crônica foi considerada um “gênero menor”, “filha do jornal”, “filha bastarda da arte literária”. Tal interpretação fez com que muitas vezes as crônicas não tivessem um tratamento cuidadoso pela crítica machadiana. Equívoco corrigido por pesquisas que procuraram quebrar as nozes, entendendo as crônicas em interlocução com o jornal e o tempo histórico no qual foram produzidas, como é o caso do livro da Ana Flávia Cernic Ramos.

 

A historiadora demonstra que durante a escrita das crônicas, Machado de Assis fez um investimento literário meticuloso, a começar pela escolha de seu narrador ficcional, Lélio. Mais do que um nome com o qual assinava os textos, Lélio se tratava de um personagem-narrador cuja existência esteve marcada pelos acontecimentos da época.

 

Ana Flávia Cernic Ramos analisa como Machado de Assis construiu seu narrador. Primeiramente, a historiadora considera o caráter coletivo da série, portanto vemos como o cronista dialogava com o “programa” previamente definido para os demais cronistas de “Balas de Estalo”. Além disso, a historiadora demonstra que a construção do narrador se relacionava com os acontecimentos imediatos daquele ano de 1883, início da publicação. Lélio é uma referência à peça de Molière, Sganarelle (1660). Meses antes de Machado de Assis integrar a série “Balas de Estalo”, uma frase da peça foi citada pelo Ministro Lafayette ao assumir o cargo de Chefe do Gabinete, tendo sido motivo de chacota na imprensa da Corte. O comediante Lélio de Machado de Assis nascia com vocação para a sátira política.

 

Em As máscaras de Lélio, a historiadora analisa também a transformação de Lélio ao longo da série “Balas de Estalo”. No início, o narrador se via como um comediante, um enamorado. Porém, o curso dos acontecimentos fez com que ele se tornasse mais melancólico, mais casmurro. O texto cronístico esteve carregado dos acontecimentos do momento. Lélio testemunhara a expectativa quanto às eleições de 1884 que poderiam influenciar diretamente nas resoluções sobre a escravidão no Império e a reação conservadora que decretou a Lei Saraiva Cotegipe, conhecida como Lei dos Sexagenários. À época, a Lei dos Sexagenários foi considerada pelos setores mais progressistas da sociedade como um retrocesso. Sentindo cada vez mais o peso da derrota política, Lélio integrou os debates na imprensa acerca do projeto de liberdade dos sexagenários que resultou na lei.

 

Ainda assim, Lélio foi testemunha do processo histórico e sua existência, ainda que ficcional, esteve imersa na indeterminação histórica do tempo. Sentimos junto com Lélio a esperança na sua tentativa de também interferir nos rumos dos acontecimentos relativos aos diferentes projetos que tencionavam o fim da escravidão. Em As máscaras de Lélio, Ana Flávia Cernic Ramos faz o leitor caminhar junto com Lélio na incerteza da história vivida. Ao fim e ao cabo, esse movimento do tempo histório é de certo modo compartilhada pelos leitores de 2018, muitos de nós marcados pela desilusão política.

 

capa AS MÁSCARAS DE LÉLIO - 2DAs máscaras de Lélio – Política e humor nas crônicas de Machado de Assis (1883-1886)

Autor: Ana Flávia Cernic Ramos

ISBN: 978-85-268-1350-2

Edição: 1ª

Ano: 2016

Páginas: 408

Dimensões: 14×21

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