Desvendando o cotidiano da classe trabalhadora do Rio de Janeiro da “belle époque”

belle èpoque
Teatro Municipal – M. Ferrez, Rio de Janeiro,

Por Mariana Ferraz

Rio de Janeiro, 18 de abril de 1907. Tempos da belle époque, quando prevalecia o crescimento de centros urbanos e da economia, além do fortalecimento político da República.

Como de costume, Antônio Domingos Guimarães, vulgo Zé Galego, desperta pela manhã e parte para seu ofício de capitão de tropa de estivadores – trabalhadores portuários responsáveis por carregar e descarregar embarcações.

Após o serviço, o capitão e os estivadores entretêm-se num jogo a dinheiro, que resulta em desentendimento entre alguns trabalhadores. Em seguida, rumam para o botequim do Cardozo, onde, com o clima ainda tenso pelo jogo, Zé Galego e o estivador Antônio Paschoal, que disputavam o amor de Júlia de Andrade, entram noutra discussão, que se intensifica. Algum tempo depois Zé Galego jaz morto a tiros no chão.

Assim inicia a obra Trabalho, lar e botequim, do renomado historiador Sidney Chalhoub. Partindo da história do crime cometido por Paschoal contra Zé Galego por causa de Júlia, bem como tomando como fontes outros processos criminais, o autor desvenda, em três capítulos, o cotidiano dos trabalhadores do Rio de Janeiro da Velha República. O caso inicial apresentado é mais complexo e carregado de versões do que pode alcançar nossa imaginação. Constam no processo criminal distintas e conflitantes interpretações dos fatos tanto por parte de jornais da época, como o Jornal do Commercio e o Correio da Manhã, quanto por parte das testemunhas e do próprio acusado.

O objetivo do estudo é investigar os mecanismos de controle social da classe trabalhadora carioca na primeira década do século XX, percorrendo a experiência de todas as esferas de vida, desde o trabalho e as relações pessoais até o lazer. Dessa forma, Chalhoub busca “ressaltar o fato de que as relações de vida dos agentes sociais expropriados são sempre relações de luta, ou seja, o tempo e o espaço da luta no processo histórico não se restringem aos movimentos reivindicatórios organizados dos dominados”, mas são preenchidos pela “relação indissolúvel entre vida e luta na experiência da classe trabalhadora”.

No primeiro capítulo, intitulado “Sobrevivendo”, o intelectual carioca examina questões relacionadas ao trabalho, trazendo aos olhos do leitor rivalidades e conflitos raciais e sociais que limitavam o movimento operário brasileiro da época, devido – não somente, mas também – à competição por postos empregatícios. Naquele momento, havia um empenho das classes dominantes em instaurar uma ideologia dignificadora do trabalho, baseada no homem trabalhador e “de bem” versus o homem “vadio”, a qual acirrava ainda mais as rivalidades. Tomando os servidores portuários como segmento, a primeira parte da obra discute também o paternalismo e a tensão na relação patrão-empregado, bem como o problema da habitação, cujos conflitos se apoiam na relação senhorio-inquilino.

“Amando” é o título do segundo capítulo, que aborda as relações pessoais e familiares dos membros da classe trabalhadora. Como se não bastasse a ideologia burguesa preencher o mundo do trabalho, ela invade o mundo privado. O homem “de bem”, além de trabalhador, deveria seguir padrões de conduta amorosa, familiar e social. Ao investigar “como efetivamente amaram os homens e mulheres da classe trabalhadora”, o autor mostra como as condições precárias de vida os levaram a uma relação pautada em maior divisão de poder entre o homem e a mulher. Ao mesmo tempo em que as mulheres precisavam assumir uma postura mais ativa e independente devido à situação de classe, muitos conflitos amorosos eram suscitados justamente porque os homens não aceitavam o fato. Embora se concentre na relação homem-mulher, Chalhoub não deixa de lado relações íntimas e familiares mais amplas – por exemplo, de compadrio. Como fonte, são analisados processos penais sobre homicídios passionais. Nesse ponto da obra, também se discutem os papéis sexuais, a construção de redes de solidariedade como estratégia de sobrevivência e a inserção da mulher pobre no mundo do trabalho.

O terceiro e último capítulo, “‘Matando o bicho’ e resistindo aos ‘meganhas’”, aborda “o mundo do lazer popular, dos botequins e das ruas, assim como a sua contrapartida inevitável: a repressão policial”. Frequentar botequins ou mesmo ocupar as ruas eram hábitos relacionados ao homem “vadio” e à sua suposta má ociosidade. Portanto, eram passíveis de controle social para garantir a ordem moral. A cultura popular estabelecida no Rio de Janeiro da belle époque é entendida pelo autor como resultado da dialética entre valores burgueses impostos à classe trabalhadora e valores criados por ela no cotidiano. Isto é, na prática, existiu a resistência de uma classe marginalizada, porém insubmissa, no bojo da expansão capitalista. Prova disso é que não deixaram de enfrentar os “meganhas” – guardas-civis – para “matar o bicho” – ou seja, para tomar cachaça.

A obra de Sidney Chalhoub, que traz em suas páginas a vida real de trabalhadores e trabalhadoras do Rio de Janeiro da belle époque, seduz por seus inúmeros detalhes e pela precisão de análise. Trabalho, lar e botequim faz parte da historiografia brasileira e é também uma obra imprescindível para o público geral.

Veja mais em: https://goo.gl/iHpgxd

trabalho lar e botequimTrabalho, lar e botequim: O cotidiano dos trabalhadores no Rio de Janeiro da belle époque

Autor: Sidney Chalhoub

ISBN: 978-85-268-0985-7

Reimpressão: 2ª (2018)

Edição: 3ª

Ano: 2012

Páginas: 368

Dimensões: 14 x 21

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