Um olhar sobre a prática intelectual e o campo das relações raciais no Brasil

o intelectual feiticeiro
Foto da Academia dos Rebeldes. Novembro de 1936. Da esquerda para a direita: (em pé) Aydano do Couto Ferraz e Alves Ribeiro; (sentados) Azevedo Marques, jornalista do Estado da Bahia, João Cordeiro, Edison Carneiro, Jorge Amado e Clóvis Amorim. Reproduzida de Vivaldo da Costa Lima & Waldir Freitas Oliveira (orgs.). Cartas de Edison Carneiro para Arthur Ramos. São Paulo, Corrupio, 1987. Acervo particular de Waldir Freitas Oliveira. Autoria: desconhecida.

Por Mariana Ferraz

Nesta edição, a Editora da Unicamp traz o livro O Intelectual Feiticeiro, do antropólogo Gustavo Rossi. A obra traz a trajetória do jornalista, folclorista, historiador e etnógrafo Edison Carneiro, nascido na Bahia, cujo trabalho intelectual se pautou em entender o universo religioso afro brasileiro. Mas por que motivo, tal qual mostra o título, ele é chamado de o intelectual feiticeiro?

Edison foi companheiro de militância no Partido Comunista e amigo de longa data de Jorge Amado, célebre escritor brasileiro. Em 1936, o escritor publica, no mensário Boletim de Ariel – importante revista literária da época –, uma nota crítica sobre a obra do intelectual Religiões Negras, a qual leva o título de “O jovem feiticeiro”. Rossi, portanto, toma emprestado o título para enfatizar a singularidade de Carneiro.

O livro O intelectual Feiticeiro – Edison Carneiro e o campo de estudos das relações raciais no Brasil, embora apresente uma trajetória particular, não é uma biografia nem uma análise da vida e da obra do jornalista baiano. A preocupação do autor está assentada em uma análise histórica das práticas intelectuais. Sendo assim, apresenta e analisa a trajetória do jornalista, pois “sua produção e seus universos de experiências expressam processos e condicionantes mais abrangentes do modelamento da atividade intelectual no Brasil”.

A trajetória de Carneiro resgatada por Rossi revela um caminho de inúmeras inquietações. Intelectual negro, certamente tendo vivido situações em que “raça tenha funcionado como um operador de exclusões, preterimentos e interdições”, tentava se afirmar em uma época de institucionalização das ciências sociais no Brasil. Sua inserção no campo dos estudos afro-brasileiros foi alvo de tensões: uma relação intelectual e amorosa com a etnóloga estadunidense Ruth Landes que se revelou atribulada, anseios malsucedidos de se especializar no exterior e tensões com Arthur Ramos e Gilberto Freyre, os quais, na época, dominavam o ramo de estudos em questão.

Em suma, o conjunto entrelaçado de desafios presente na análise da trajetória do intelectual evidencia que raça, classe e gênero são categorias indissociáveis e elucidam uma realidade social mais complexa do que se pode imaginar.

A obra, vencedora do Prêmio Capes de melhor tese em antropologia no Brasil (2011), além de acompanhar a trajetória do intelectual baiano, traz elementos que contribuem para pensar o campo de estudos das relações raciais no Brasil.

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O intelectual Feiticeiro – Edison Carneiro e o campo de estudos das relações raciais no Brasil

Autor: Gustavo Rossi

ISBN: 978-85-268-1329-8

Edição: 1ª

Ano: 2015

Páginas: 280

Dimensões: 14×21

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