Jornal da Unicamp publica entrevista sobre o livro “O Português Brasileiro como um sistema complexo”

Graduado em letras e doutor em linguística pela Universidade de São Paulo (USP), professor titular aposentado do Departamento de Linguística do Instituto de Estudos da Linguagem (IEL) da Unicamp e professor emérito da USP, Castilho coordenou diversos projetos de pesquisa voltados ao estudo da evolução da língua portuguesa, como o Projeto para a História do Português Brasileiro (PHPB).

A formulação da Abordagem Multissistêmica resulta de iniciativas coletivas como o Projeto da Norma Urbana Culta (NURC), o Projeto de Gramática do Português Falado (PGPF) e o próprio PHPB — todos com intensa participação do autor. Essas iniciativas caracterizam-se por diferentes graus de aprofundamento dos sistemas linguísticos e serviram de motivação para a elaboração da obra.

Em entrevista ao Jornal da Unicamp, o autor compartilha mais detalhes a respeito da elaboração da sua abordagem, da estrutura da obra e do cenário atual da Linguística no Brasil.

Jornal da Unicamp – O que o motivou a desenvolver a Abordagem Multissistêmica e a compreender o português brasileiro como um sistema complexo?

Ataliba T. de Castilho – Pensei em desenvolver a Abordagem Multissistêmica depois de observar os resultados de dois projetos que dirigi: o de Gramática do Português Falado e o de História do Português Brasileiro, este ainda em desenvolvimento. O Projeto de Gramática do Português Falado enfrentou pela primeira vez a tarefa de sistematizar o que vinha sendo observado pelo Projeto da Norma Urbana Culta (NURC) e por estudos levados a cabo por diversos pesquisadores brasileiros. O Projeto de História do Português Brasileiro vem apresentando perspectivas que ainda demandam muitas pesquisas. Lendo os textos ali publicados, notei que eles poderiam ser arranjados em quatro sistemas: Gramática (Fonologia, Morfologia, Sintaxe), Léxico, Semântica e Discurso. Essas iniciativas estão lidando com esses sistemas em diferentes graus de aprofundamento.

JU – Como essa abordagem pode ser aplicada de forma prática no ensino da língua, considerando o impacto de sua obra para docentes e pesquisadores?

AC – Para que essa abordagem possa ser aplicada no ensino, primeiramente os professores precisam apresentar aos alunos o quadro atual da epistemologia linguística, vinculando a ela as diferentes teorias disponíveis.

JU – Na introdução, o senhor afirma que o objeto de estudo da linguística está na mente humana. Como essa perspectiva se relaciona com os processos de aquisição e variação da língua?

AC – As línguas naturais são um produto da mente humana — certamente seu produto mais complexo. Para entender isso, temos de estudar a Epistemologia dos Sistemas Complexos, que postula a língua como Discurso, Gramática, Semântica e Léxico. Nenhum desses sistemas centraliza as línguas. Cada sistema é organizado por categorias próprias, ou seja, temos categorias do Discurso, da Gramática, da Semântica e do Léxico. Dispositivos da conversação — a mais básica das atividades linguísticas — organizam esses sistemas.

JU – Em sua obra, o conceito de discurso ganha destaque. Como essa noção influenciou os estudos da língua após o estruturalismo e de que forma permanece relevante hoje?

AC – Penso que a linguística atual desistiu de indicar um de seus sistemas como central. O funcionamento das categorias desses sistemas é simultâneo; nenhum centraliza a língua. O discurso não é o centro da língua. Seu centro está nos dispositivos de ativação, reativação e desativação das categorias de seus sistemas.

JU – De que maneira sua obra contribui para uma nova forma de compreender o funcionamento do português brasileiro?

AC – Talvez a contribuição maior seja entender a língua como um sistema complexo, ou seja, “dobrada em si mesma”, com categorias que funcionam simultaneamente, nenhuma das quais centraliza o idioma.

JU – Quais perspectivas o senhor enxerga para os estudos linguísticos no futuro?

AC – É difícil prever perspectivas para os estudos linguísticos no futuro. Muito simplesmente, penso que devemos persistir na descrição e na história do português brasileiro (e das línguas indígenas brasileiras, com suas categorias próprias), até um ponto em que teremos materiais suficientes para as generalizações.

Para ler o texto no site do Jornal da Unicamp, clique aqui.

O Português Brasileiro como um sistema complexo

Autor: Ataliba T. de Castilho

ISBN: 9788526818231

Edição: 1ª

Ano: 2025

Páginas: 232

Dimensões: 21 x 14 cm

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