A Teoria das Músicas Audiotáteis: uma solução para o estudo da música na atualidade

Maria Eduarda Peloggia Lunardelli

Qual é o fundamento comum que permite classificar e compreender, em um mesmo quadro teórico, tradições musicais tão diversas quanto o choro, o jazz, o samba, a música instrumental brasileira e as expressões da música popular contemporânea, como o pop e o rock? Essa pergunta, que está na raiz da Teoria das Músicas Audiotáteis (TMA), expõe uma das mais persistentes aporias da musicologia: de um lado, práticas cuja vitalidade reside na performance, na corporeidade do gesto e no groove; de outro, um aparato teórico forjado ao longo de séculos cujas categorias fundamentais – obra, autor, partitura – mostraram-se insuficientes para apreendê-las. (Fabiano Araújo Costa – Do Prefácio à edição brasileira)

Durante séculos, os estudos científicos, históricos e filosóficos da música foram direcionados quase exclusivamente para textos escritos e partituras. Essa abordagem acadêmica, influenciada pelo racionalismo cartesiano, criou a matriz cognitiva visual, modelo teórico responsável por analisar as diferentes manifestações artísticas e culturais que não possuem suas origens atreladas ao texto escrito, mas sim à oralidade, como o jazz, o rock, o choro e as tradições folclóricas, por exemplo. Entretanto, por ser pautado somente no textual, esse modelo ignorava não somente a história, o contexto e os meios do fazer artístico desses gêneros musicais, como também os processos criativos dos músicos, reduzindo as compreensões sobre as manifestações artísticas e limitando quaisquer análises que pudessem ser feitas sobre elas. 

Diante desse cenário, notou-se a necessidade de reformular a maneira como os estudos e as análises musicais eram feitos, de modo a considerar todos os elementos que envolvem a música nascida da tradição oral. Então, o musicólogo italiano Vincenzo Caporaletti se propôs a preencher essa lacuna no âmbito científico através de uma revisão epistemológica e da criação de uma nova abordagem teórica que fosse capaz de compreender a música em toda a sua complexidade. Como resultado desses estudos, a Teoria das Músicas Audiotáteis (TMA) foi criada e transformou os estudos estéticos e cognitivos da música. 

Professor titular de musicologia geral e musicologia transcultural na Universidade de Macerata, na Itália, Vincenzo Caporaletti construiu uma sólida carreira dedicada aos estudos musicais, em especial à categoria de música audiotátil. Além de educador e pesquisador, é também fundador da revista Ring Shout, especializada em música afro-americana, e diretor do Centre International de Recherche sur le Jazz et les Musiques Audiotactiles da Universidade Paris-Sorbonne. Suas pesquisas na área geraram diversas publicações em formato de artigos e livros como I processi improvvisativi nella musica. Un approccio globale (2005), Esperienze di analisi del jazz (2007), Swing e Groove. Sui fondamenti estetici delle musiche audiotattili (2014) e Teoria das Músicas Audiotáteis (2026), que acaba de ganhar uma edição brasileira feita pela Editora da Unicamp.  

Composta de nove capítulos, além de um prefácio exclusivo de Fabiano Araújo Costa – doutor em musicologia pela Universidade Paris-Sorbonne, professor e diretor-geral da Faculdade de Música da Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes) – escrito para a tradução brasileira e de uma apresentação, a nova edição tem como objetivo ampliar as discussões sobre a natureza e o modo de representação das músicas populares na atualidade. Para isso, a obra é dividida em duas partes: a primeira focada no desenvolvimento e no esclarecimento de questões conceituais da teoria, e a segunda voltada à aplicação prática do modelo teórico proposto em diferentes vertentes do universo musical. 

O primeiro capítulo, “Teoria das Músicas Audiotáteis – conceitos essenciais”, apresenta a necessidade da criação da TMA, tendo em vista as limitações da musicologia tradicional em realizar análises de repertórios que fogem à escrita clássica ocidental. Não somente são formalizados os conceitos centrais da obra, como também são apresentadas as ideias de autografia musical, codificação neoaurática (CNA) e diferenciação entre os processos criativos em tempo real (extemporização e improvisação). Em seguida, “Epistemologia do audiotátil” investiga as origens históricas e filosóficas que legitimam o princípio audiotátil, percorrendo os primeiros indícios desse princípio na Antiguidade grega até a sua consolidação na Modernidade. 

Iniciando a segunda parte da obra, o capítulo três, Verum et factum convertuntur – a prática audiotátil do partimento”, direciona as discussões para a tradição ocidental da escrita clássica, em especial o partimento napolitano do século XVIII, com o intuito de problematizar a dicotomia entre “oralidade pura” e “composição final”. O quarto capítulo explora de maneira mais abrangente as práticas criativas da música europeia de concerto entre os séculos XVIII e XIX e aponta como a historiografia tradicional suprimiu o componente performativo corpóreo da música. Em seguida, “Milhaud, Le Bœuf sur le toit e o paradigma audiotátil” realiza o estudo de caso da música do século XX, a partir da peça Le Bœuf sur le toit, do francês Darius Milhaud. 

O sexto capítulo propõe novas categorias sistemáticas e ontológicas para solucionar um dos impasses críticos da musicologia contemporânea, gerado com a tentativa de classificação da música de vanguarda de tradição escrita posterior a 1950 e o jazz moderno. O capítulo seguinte, “Por uma teoria do ritmo nas músicas audiotáteis”, se dedica à observação da estruturação métrica de músicas de princípio audiotátil, tendo o groove e o swing como objetos principais de análise. Por outro lado, o oitavo capítulo foca na música experimental e no jazz fusion/rock da banda britânica Soft Machine para identificar eventuais problemas nas estratégias de criação usadas nesse estilo de música. Por fim, “Herança cultural e inovação nas músicas tradicionais” discorre sobre o campo da etnomusicologia, a partir de críticas feitas à fragilidade e aos limites da categoria mercadológica do world music.

Ao longo de toda a obra, Teoria das Músicas Audiotáteis: uma introdução propõe reflexões e demonstra práticas que comprovam que corpo, gesto, registro fonográfico e performance são indispensáveis para o entendimento do fazer musical na atualidade. Dessa forma, ao expandir os debates sobre a ontologia musical, a obra se destina a professores e pesquisadores, especialistas na área, estudantes de música e àqueles já familiarizados com os estudos musicais. 

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Teoria das Músicas Audiotáteis: uma introdução

Autor: Vincenzo Caporaletti

Tradução: Ivone Benedetti

ISBN: 9788526819276

Edição: 1ª

Ano: 2026

Páginas: 360

Dimensões: 16 x 23 cm

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