Jornal da Unicamp publica entrevista sobre o livro “A (difícil) decisão de envelhecer”

Jornal da Unicamp – Como surgiu a ideia de escrever A (difícil) decisão de envelhecer? Quais são os principais objetivos da obra?

Jorge Félix – Muitas pessoas me falavam: “Você precisa escrever sobre tal assunto” ou “Você tem alguma coisa sobre o assunto x?”. E eu já havia escrito sobre aquilo que as pessoas mencionavam ou me pediam para abordar. Então, percebi que a plataforma digital é traiçoeira, porque ela armazena, mas também esconde. Para ir na contramão dessa lógica, era necessário resgatar muita coisa que as pessoas gostariam de ler, ou seja, fazer mais do que simplesmente publicar um livro sobre um assunto novo dentro dos estudos do envelhecimento. Infelizmente, muitos dos temas que abordo nos artigos e ensaios reunidos no livro continuam muito atuais – mais do que eu e a sociedade gostaríamos. Portanto, o objetivo principal é fazer essa intervenção no debate sobre a velhice, o bem-estar social e o cuidado.

Jornal da Unicamp – De que maneira a negação da passagem do tempo e do envelhecimento afeta o funcionamento e o desenvolvimento das sociedades contemporâneas?

Jorge Félix – Esse é o meu ponto principal no livro. É um chamado à reflexão e à conscientização sobre o envelhecimento. O debate público, no meu entender, está muito centrado no envelhecimento ativo, no envelhecimento saudável, na terceira idade etc. Isso é muito bom, e, em tese, uma coisa não exclui a outra. Só que, na prática, está excluindo e, de repente, a velhice é apagada. A heterogeneidade está sendo ignorada, e a consequência é que as políticas públicas passam a se dirigir quase para um não envelhecimento. Dessa forma, quem mais perde é a velhice dependente, aquela que precisa de cuidados de longa duração e que acaba ficando de fora tanto dos debates e discussões quanto da elaboração de políticas públicas.

Jornal da Unicamp – O entendimento do envelhecimento exige diálogo entre diferentes áreas do conhecimento, como medicina, psicologia, sociologia e economia. Como a obra articula essas diferentes disciplinas?

Jorge Félix – Bom, eu sou um adepto ou seguidor da complexidade de Edgar Morin, e minha formação é totalmente multi e interdisciplinar. Sou jornalista, autor de teatro, amante da literatura, fiz mestrado em Economia, doutorado em Ciências Sociais e acredito que eu passeie pelas três áreas – a antropologia, a sociologia e a ciência política –, pois fui repórter de política durante décadas. Eu tento trazer isso tudo para as minhas pesquisas sobre o envelhecimento. E o livro, acredito, mostra isso justamente porque a realidade é complexa e uma única área não é capaz de explicá-la ou de nos fazer compreendê-la minimamente. O envelhecimento populacional observado hoje é um fato social total, portanto é interdisciplinar. A arte, por exemplo, nos ajuda a refletir e até a desvendar muitos pontos incompreensíveis para a ciência.

Jornal da Unicamp – De que forma o livro contribui não somente para os estudos sobre envelhecimento, mas também para a compreensão da realidade sociopolítica e econômica do Brasil diante do envelhecimento populacional?

Jorge Félix – Como todos sabem, Marx disse que o maior desafio para combater o capitalismo é a ausência de consciência de classe. O título, então, é justamente um chamado a essa conscientização.

Se a pessoa, individualmente, nega a velhice, como pode partir para a ação de reivindicar seus direitos? A tomada de consciência de cada um, portanto, é o que influenciará a sociedade na compreensão do que está acontecendo. Como destaco no livro, a humanidade vive um momento inédito: nunca o envelhecimento populacional havia sido experimentado nessa escala. É preciso tomar a decisão sugerida pelo título para enfrentarmos esses desafios socioeconômicos.

Para ler o texto no site do Jornal da Unicamp, clique aqui.

A (difícil) decisão de envelhecer: reflexões sobre longevidade, cuidado e bem-estar social

Autor: Jorge Félix

ISBN: 978-85-268-1909-2

Edição: 1ª

Ano: 2026

Páginas: 192

Dimensões: 16 x 23 cm

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