
Marcella Fernandes Dias
Desde o surgimento da humanidade, a arte de contar histórias é uma tradição que atravessa povos, aproxima culturas e une gerações. Mas por quais motivos as pessoas decidem criar e contar narrativas? De onde surge a vontade ou a necessidade do exercício da fabulação entre os seres humanos? Essas são algumas das questões fundamentais que norteiam o trabalho de Suzi Frankl Sperber em Pulsões criativas: entre a ficção e a repetição, livro recém-publicado pela Editora da Unicamp. A partir do conceito psicanalítico de pulsão, elaborado por Sigmund Freud, a autora formula a noção de “pulsão de ficção” para investigar as origens da busca pelo conhecimento e pela expressão artística.
Suzi Frankl Sperber é graduada, mestre e doutora em Letras pela Universidade de São Paulo (USP). Atualmente, é professora sênior do Instituto de Estudos da Linguagem (IEL) da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). Durante 13 anos, coordenou o Núcleo Interdisciplinar de Pesquisas Teatrais (Lume) e integrou o conselho editorial das revistas Mafuá e Afrika Asien Brasilien (ABP). É autora de diversos livros, entre eles Caos e Cosmos – Leituras de Guimarães Rosa, Ficção e razão e O Cavalo-Marinho da Mata Norte de Pernambuco, escrito em coautoria com Alício Amaral e Juliana Pardo e publicado pela Editora da Unicamp em 2025.
Ao longo de 14 capítulos, Sperber se debruça sobre o conceito de “pulsão de ficção”, dialogando com um amplo conjunto de pensadores, como Freud, Lacan, Antonio Candido, Gadamer, Derrida, Ricoeur e Platão, entre outros. Além da discussão teórica, que percorre áreas como a psicanálise, a filosofia, a literatura e a linguística, Pulsões criativas: entre a ficção e a repetição analisa, de forma prática, diferentes manifestações artísticas, como a poesia, a pintura e o teatro, ampliando, assim, as possibilidades de investigação sobre a pulsão.
Definida como o “impulso para o conhecimento a partir de uma experiência vivida com intensidade”, a pulsão de ficção é o que dá forma e sentido às vivências humanas, sempre plurais e inseridas em universos particulares. Apesar de suas particularidades, essas experiências são constituídas pela combinação entre o individual e o coletivo, pois é justamente dessa articulação que emerge a possibilidade de compreensão do particular. A recepção da expressão se torna possível a partir do encontro entre emissores e receptores, mediado por elementos compartilhados. Nesse sentido, conceber o “universal” como algo singular significa desconsiderar seu caráter plural e limitar as possibilidades de construção do conhecimento, como observa a autora:
Não existindo universais, também não haveria uma base de entendimento sobre os conteúdos transmitidos, nem níveis diferentes ou gradação de conhecimento. Não havendo universais, não seria possível uma verdadeira transmissão de conhecimento, mas apenas o convencimento do outro ou sua enganação graças ao uso da retórica – ou de algum viés violento da mentira, ou fake. Irreversibilidade e determinismo marcariam a existência humana, fechando qualquer espaço para a recepção e mesmo para a resistência. E para a construção de conhecimento.
Segundo Sperber, outro elemento fundamental da pulsão de ficção é o imaginário. É ele o responsável por criar a expressão que reproduz uma experiência vivida, isto é, uma dimensão singular de cada indivíduo. Ao produzir conhecimento por meio da experiência, o imaginário abre caminho para possibilidades únicas, potentes e significativas, que ultrapassam a palavra e o gesto. Aproximando o indivíduo de uma dimensão diversificada de si mesmo, esse elemento estabelece uma mediação entre o sujeito e o mundo, espaço em que se realiza a fabulação, fruto da simbolização.
A pulsão de ficção é também repetição, porque “indicia a busca e faculta o encontro não da solução, mas da percepção da insuficiência”. A repetição constitui, assim, um sinal de inquietação, uma vez que a busca pelo conhecimento e pelo sentido integra um processo complexo e, ao mesmo tempo, enriquecedor. Essa duplicidade decorre do fato de que os sentidos permanecem sempre abertos a novas possibilidades de significação, já que os saberes não são verdades universais, mas construções em permanente transformação.
Pulsões criativas: entre a ficção e a repetição é, portanto, uma leitura instigante que enriquece os debates sobre arte, linguagem e psicanálise. A partir do conceito de “pulsão de ficção”, Suzi Frankl Sperber demonstra como a experiência se transforma em narrativa, símbolo e conhecimento.
Para saber mais sobre o livro, acesse o site da Editora da Unicamp!

Pulsões criativas: entre a ficção e a repetição
Autora: Suzi Frankl Sperber
ISBN: 9788526819283
Edição: 1ª
Ano: 2026
Páginas: 120
Dimensões: 14 x 21 cm