Como a passagem do tempo nos afeta? 6 livros para entender melhor o envelhecimento

Maria Eduarda Peloggia Lunardelli

Envelhecimento: um destino universal cercado de tabus

No início da década de 1900, a expectativa de vida média no Brasil era de apenas 34 anos. Cinquenta anos depois, esse número apresentou um pequeno aumento, passando para 48 anos. Já no início do século XXI, esperava-se que o brasileiro vivesse cerca de 71 anos, quase 40 anos a mais do que no século anterior. Hoje, segundo os últimos dados fornecidos pelo IBGE, o país apresenta uma expectativa de vida ao nascer de 76,6 anos, o maior número já estimado até então.

Podemos entender esse grande aumento da longevidade da população brasileira, registrado em especial nas últimas décadas, como resultado de inúmeros avanços tecnológicos e científicos. Essas conquistas proporcionaram, entre outras melhorias, o aprimoramento da medicina, a ampliação dos sistemas de saneamento básico, a redução da mortalidade infantil e o maior acesso à informação. 

No âmbito médico, as vacinas talvez tenham sido a intervenção de maior impacto no aumento da longevidade e da qualidade de vida das pessoas, sendo essenciais para que algumas das doenças que mais matavam no Brasil, como a varíola, o sarampo e a poliomielite, fossem erradicadas ou controladas. Além delas, a descoberta dos antibióticos, o desenvolvimento de técnicas cirúrgicas, da anestesia, dos cuidados intensivos e dos exames de diagnóstico por imagem, por exemplo, permitiram a identificação e o tratamento de condições que antes só seriam descobertas na autópsia. 

Na realidade, o resultado dessas conquistas foi um fenômeno inédito: o superenvelhecimento populacional, no qual a proporção de pessoas na chamada “quarta idade” – de sexagenários a centenários – cresce desproporcionalmente em relação ao restante da população. Entretanto, apesar de trazer inúmeros benefícios, o fenômeno não foi acompanhado de mudanças e melhorias progressivas em outras áreas importantes para manter uma sociedade em que todos os indivíduos, jovens ou idosos, possuam condições mínimas para viver com qualidade e independência. Por conta disso, o imaginário sobre o envelhecimento desenvolveu-se cercado de tabus, medos e preconceitos, haja vista que, hoje, no Brasil, a pessoa idosa enfrenta diversas dificuldades. Entre elas, destacam-se a financeirização da velhice, a desvinculação do salário mínimo das aposentadorias, o etarismo e a falta de políticas de cuidados, além de questões estéticas que ganham cada vez mais importância na sociedade. 

Idealização da juventude e o medo da velhice

Atualmente, a mesma ciência que por anos se dedicou a formas de prolongar a vida trabalha também com maneiras de disfarçar e até retardar os efeitos da passagem do tempo, sobretudo no aspecto físico. Aplicação de toxina botulínica, bioestimuladores, tinturas capilares, procedimentos estéticos, inibidores de queda de cabelo e suplementos antienvelhecimento são apenas algumas das ferramentas que fazem parte de um mercado global em crescimento acelerado, criadas para lidar com os efeitos da velhice no corpo. 

Em 2026, estima-se que o mercado anti-aging (antienvelhecimento, em tradução livre) movimentará mais de 90 bilhões de dólares e, segundo projeções, deve superar a marca de 130 bilhões até 2030. Situados no contexto do Brasil – país com o maior número de cirurgiões plásticos per capita e que apresenta um aumento expressivo no número de procedimentos estéticos realizados na última década, figurando entre os líderes mundiais desse segmento segundo a Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica (SBCP) –, esses dados evidenciam não somente o medo do envelhecimento precoce, mas também a hipervalorização da aparência jovem. Para essa indústria, o indivíduo que envelhece naturalmente, aquele que possui rugas aparentes, cabelos brancos e mudanças no condicionamento físico, falhou em se cuidar e em preservar a própria saúde. Essa ideia contribui para o fortalecimento da juventude como um padrão estético e social inegociável, configurando-se como um exemplo preocupante de etarismo.  

Diante disso, podemos observar o etarismo consolidado hoje sob três aspectos principais: o tabu da aparência, o tabu da dependência e o tabu da finitude. O primeiro, em alta e cada vez mais presente, é construído e reforçado principalmente por questões culturais – filmes, séries, publicidades e redes sociais –, que criam espaços midiáticos habitados quase exclusivamente por jovens; as poucas exceções costumam atrelar a imagem do corpo velho a sentimentos de compaixão, heroísmo ou sabedoria. Nesses casos, o padrão de referência reforçado é sempre a juventude. 

O segundo tabu, por sua vez, surge em meio a sociedades centradas na produtividade e na individualidade, nas quais qualquer necessidade de auxílio é lida como uma forma de diminuição do indivíduo. Assim, a pessoa idosa, cujo corpo funciona em um ritmo mais lento quando comparado ao dos jovens, passa a depender do cuidado de terceiros, muitas vezes familiares, e acaba sendo vista como um problema tanto individual quanto estrutural. 

Por fim, o tabu da finitude é uma questão antiga que segue sendo interpretada com receio. Diferente de qualquer outra fase do desenvolvimento humano, a velhice é o estágio da vida que aponta para o fim, e falar dela implica falar sobre a morte, o que, para a cultura contemporânea, é algo a ser evitado a todo custo. A soma desses ideais resulta na criação de uma sociedade contraditória, que tolera e deseja uma vida longa, mas que teme o envelhecimento. 

Revisitando o imaginário sobre os mais velhos

Nesse cenário, reinterpretar o imaginário sobre a velhice torna-se uma tarefa extremamente necessária, não somente para que a pessoa idosa esteja inserida nos meios sociais e se sinta parte deles, mas também para que a sociedade seja reestruturada para lidar com o superenvelhecimento populacional. Revisitar essa ideia significa, além de superar estereótipos e aceitar a passagem do tempo, resgatar interpretações e entendimentos do passado. Para várias culturas, a pessoa mais velha é tratada como fonte de sabedoria inquestionável e guardiã da memória coletiva daquela comunidade. Em diversas culturas indígenas brasileiras, por exemplo, encontramos a figura do pajé – indivíduo com longa experiência de vida, que detém conhecimentos de cura e de orientação espiritual –, comumente representado por anciãos. 

Entre os inúmeros aprendizados que podemos ter com os povos indígenas, que entendem o idoso como um membro fundamental para a comunidade, observamos também o valor dado à medicina tradicional e sua aplicação prática. Baseada no uso de plantas, raízes e sementes, essa vertente da medicina é comumente associada aos avós e às pessoas mais velhas. Para as gerações que viveram em épocas com recursos médicos limitados, a alternativa para tosses, resfriados ou doenças leves era quase sempre um chá específico ou o preparo de determinada planta. 

Contudo, vale ressaltar que, apesar de muitas vezes surtirem efeitos positivos, essas técnicas nem sempre possuem validação científica; logo, alguns conhecimentos podem ser mitos e outros, verdades. De toda forma, reconhecer e resgatar esses saberes é importante para manter viva a memória coletiva e reforçar o papel dos mais velhos na transmissão cultural.

Assim, o imaginário sobre a velhice pode ser explorado de forma mais positiva: seja pela aceitação de que o corpo envelhecido tem muito a agregar à sociedade, assim como o corpo jovem, seja pelo reconhecimento das vantagens que a passagem do tempo traz, como o acúmulo de saberes que serão passados de geração em geração. A velhice deve ser lida como uma conquista e, portanto, comemorada, haja vista que só envelhece quem tem saúde. 

Entendendo os aspectos científicos do envelhecimento 

As discussões sobre a passagem do tempo estão em alta. A cada dia surgem novas descobertas, remédios milagrosos e promessas para retardar o envelhecimento. Entretanto, essas novidades, por mais intrigantes que pareçam, costumam deixar em segundo plano tópicos fundamentais: como nosso corpo reage naturalmente à passagem do tempo? De que forma as questões genéticas, alimentares e o estilo de vida influenciam a maneira como envelhecemos? 

Para esclarecer essas questões, compreender aspectos da biologia humana, de nossa evolução genética e dos ritmos cíclicos aos quais nosso corpo se adequa com o passar dos anos, confira algumas obras da Editora da Unicamp que esmiúçam esses questionamentos de maneira clara e concisa: 

Publicado em 2025 pela Editora da Unicamp, Biotempo: origem e evolução do relógio biológico oferece uma sistematização sobre a evolução e a dinâmica dos ritmos internos que ditam o funcionamento de todos os seres vivos, os chamados “relógios biológicos”.

Ao reunir anos de pesquisa de Tiago Andrade – professor associado da Faculdade de Medicina da Universidade Federal de Alagoas (Ufal), especializado em Cronobiologia –, o título busca elucidar a ideia do “biotempo”. A obra apresenta como os ritmos biológicos evoluíram com o passar dos séculos e demonstra como eles impactam diretamente o cotidiano de todos, desde o funcionamento das células até as interações sociais e os estilos de vida. 

Assim, Biotempo apresenta um panorama completo sobre a natureza e a história evolutiva dos ritmos biológicos, permitindo a compreensão dos mecanismos que ditam a forma como os seres vivos agem, se alimentam e se comportam, além de instigar reflexões acerca dos impactos do tempo cíclico nos hábitos modernos, nos ecossistemas e na saúde humana. 

Escrito por cinco pesquisadores da área de desenvolvimento humano, saúde e nutrição – Valdemiro Carlos Sgarbieri, Maria Teresa Bertoldo-Pacheco, Denise Aparecida Gonçalves de Oliveira, Nádia Fátima Gibrim e Maria Elisa Caetano-Silva –, Envelhecimento, saúde e cognição humana: importância da dieta, da genética e do estilo de vida aborda como caracteres genéticos e fatores ambientais regem a vida humana. 

Publicado em 2021, o título busca elucidar aspectos do envelhecimento e seus impactos na saúde, apresentando definições, conceitos do processo de envelhecer e alterações metabólicas. O objetivo é refletir sobre como a alimentação e os compostos bioativos podem contribuir para retardar o envelhecimento precoce e prevenir algumas doenças associadas à idade. Nesse sentido, os autores recorrem a discussões sobre o perfil alimentar do brasileiro e a concepções de dietas saudáveis para propor sugestões de melhorias na alimentação da população. 

Assim, Envelhecimento, saúde e cognição humana realiza uma análise detalhada de questões alimentares, condições de vida e caracteres hereditários, demonstrando a importância crucial da nutrição para que o envelhecimento ocorra da melhor maneira possível. 

Envelhecer com saúde e qualidade de vida 

Diante da passagem inevitável do tempo e de seus impactos, cabe a nós a escolha de como envelhecer. Optar por uma vida ativa na qual a dieta equilibrada e a prática de exercícios físicos estejam presentes no dia a dia, além de reconhecer a própria velhice e encará-la sem preconceitos ou lamentações, são algumas das formas de envelhecer bem. Apesar dessas estratégias, fazer adaptações no estilo de vida acaba sendo inevitável com o passar dos anos, até porque o corpo e a mente já não respondem da mesma forma que aos 20 anos.

Confira mais alguns títulos que podem ajudar a reinterpretar o envelhecimento: 

A (difícil) decisão de envelhecer: reflexões sobre longevidade, cuidado e bem-estar social, escrito por Jorge Félix, retoma os debates sobre os desafios da longevidade nos dias de hoje, ampliando-os com abordagens inovadoras. 

O título reúne artigos e crônicas publicados originalmente em revistas e jornais para esclarecer os aspectos centrais das dificuldades relacionadas à velhice contemporânea. Além de reforçar a urgência de compreender o envelhecimento como um processo natural, Félix aprofunda as discussões lançando luz sobre problemáticas comumente negligenciadas, como o impacto do etarismo, a importância da gerontologia, a financeirização da velhice e a desvinculação do salário mínimo das aposentadorias. 

Para oferecer reflexões que abarquem toda a complexidade desse processo na atualidade, A (difícil) decisão de envelhecer trata o tema sob diferentes perspectivas e áreas do conhecimento, percorrendo questões sociológicas, antropológicas, econômicas, políticas, médicas e culturais. 

Terceiro livro de Valdemiro Carlos Sgarbieri publicado pela Editora da Unicamp, Nutrição adequada ao desenvolvimento e ao envelhecimento saudáveis (2022) oferece ao leitor reflexões sobre as diferentes necessidades nutricionais dos seres humanos ao longo do tempo. 

Organizada em duas partes, a obra inicia as discussões pelas demandas nutricionais essenciais para o desenvolvimento do embrião e do feto, nos períodos que antecedem e sucedem o nascimento. Nessa primeira parte, Sgarbieri explora a relação entre mãe e filho para destacar como a nutrição adequada da mulher adulta é essencial para que a criança se desenvolva de maneira saudável nos primeiros anos de vida. Por sua vez, a segunda parte da obra elucida como os mecanismos de defesa do organismo funcionam e de que maneira são influenciados pelos padrões alimentares. 

Portanto, Nutrição adequada ao desenvolvimento e ao envelhecimento saudáveis aborda o impacto da alimentação em diferentes etapas da vida, percorrendo desde o período gestacional até a velhice para evidenciar como o corpo apresenta demandas nutricionais distintas ao longo dos anos.

Em Juventudes e velhices: uma história de práticas saudáveis de educação física (2024), Edivaldo Góis Junior apresenta os resultados de seus estudos sobre as formas como jovens e idosos foram retratados ao longo do século XX e suas relações com a atividade física. 

O autor busca responder a questões relacionadas aos vínculos existentes entre a educação física e os hábitos considerados saudáveis para diferentes faixas etárias. A resposta é desenvolvida por meio de uma análise aprofundada de como as imagens da juventude e da velhice foram construídas e retratadas por periódicos das cidades do Rio de Janeiro e de São Paulo, entre as décadas de 1930 e 1980.

Dessa forma, Juventudes e velhices não só contribui com a pesquisa historiográfica acerca das práticas corporais, mas também amplia os debates sobre as representações, os significados e os estereótipos que cercam as diferentes fases da vida humana. 

Sabedoria, tradição e ciência 

Não é à toa que se diz que a sabedoria vem com o tempo. No entanto, nem toda informação adquirida com o passar dos anos permanece inalterada ou se mostra totalmente confiável sob o crivo científico. Na medicina, por exemplo, vários são os conhecimentos e remédios caseiros que passam de geração em geração, prometendo a cura de diferentes males, mas nem sempre esses cuidados têm eficácia comprovada. 

Todos nós conhecemos receitas tradicionais para diversos problemas, muitas delas ensinadas por nossas avós. Mas será que, segundo a ciência, esses métodos realmente funcionam? O livro Os remédios da vovó: mitos e verdades da medicina caseira fornece as respostas para essa pergunta. 

Publicado em 2014 pela Editora da Unicamp e escrito pela divulgadora científica Valeria Edelsztein, Os remédios da vovó: mitos e verdades da medicina caseira discute a eficácia dos tratamentos tradicionais, como a utilização do mel para aliviar tosses e dores de garganta.  

O livro retorna ao passado para explorar as histórias curiosas de algumas substâncias e tratamentos inusitados, com o intuito de esclarecer as origens da medicina caseira, desmistificando crenças ultrapassadas e validando outras. Dessa forma, Edelsztein realiza um percurso que vai da farmacologia antiga à contemporânea para explicar de onde vêm os conselhos populares que cruzam gerações.

Novas formas de lidar com a idade

Envelhecer é um processo natural, inevitável e multifacetado, que vai muito além dos fios brancos e das rugas na pele. A partir dessas obras, que contribuem para a formação crítica dos leitores ao apresentar diferentes pontos de vista, compreendemos que o envelhecimento é atravessado por transformações biológicas, hábitos de vida, construções sociais e experiências culturais. São fatores que moldam não apenas a forma como o ser humano sente a passagem do tempo, mas também a maneira como a sociedade interpreta a velhice. 

Ao incentivar a reflexão sobre o avanço da idade, elucidando as diferentes formas como ele é visto na atualidade e apresentando argumentos amparados na ciência para desmistificar a ideia de que envelhecer é algo negativo, os títulos da Editora da Unicamp abordados aqui ampliam o entendimento sobre a velhice. Eles aproximam o leitor de evidências que expõem as vantagens, as consequências e os desafios do envelhecimento de forma clara, realista e acolhedora.

Gostou dessas dicas de leitura? Conheça também outros títulos sobre Saúde e Bem-estar disponíveis no catálogo da Editora da Unicamp.

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