Jornal da Unicamp publica entrevista sobre o livro “Dramaturgias radicais”

Jornal da Unicamp – O que orientou a escolha das obras analisadas em Dramaturgias radicais?

Marcos Fábio de Faria – As escolhas intelectuais que fiz para o livro partem de uma crença pessoal. Todos os textos que me orientaram refletem a maneira como vejo e acredito no mundo. No caso das dramaturgias, optei por textos de que gosto, de autoras e autores que admiro e que dialogam com minha perspectiva ativista. Portanto, são textos que defendem uma posição firme e que encaram o fazer teatral como ato político, mas sem perder a dimensão estética. Essas dramaturgias não têm medo de dizer a que vieram e não escondem o seu posicionamento e desejo para o mundo.

JU – Em um contexto de polarização e disputas narrativas, qual é o papel da dramaturgia radical hoje – e que tipo de transformação ela ainda pode provocar?

Marcos Fábio de Faria – O livro pretende sanar uma lacuna nos estudos teatrais que, julgo, se construiu de forma proposital, que é pautar a arte, no geral, pela perspectiva estética e apenas por ela. Como as teorias pretendem organizar o mundo, para mim, é impossível que isso aconteça longe da dimensão política, uma vez que somos, fundamentalmente, seres políticos. O que a obra pode provocar é exatamente essa imaginação enquanto ignição para a disputa – e não só de narrativas –, além de reivindicar o poder assembleário do teatro, identificando-o como lugar para debater os caminhos que queremos traçar para nós no presente e no futuro.

JU – Como o identitarismo influencia a “imaginação emancipatória” entre sujeitos marginalizados? Como mobilizá-lo sem cair no individualismo?

Marcos Fábio de Faria – A noção de identitarismo, como termo solto, pode soar vulgar, mas, ao pensá-lo como metodologia, teremos algo produtivo e em consonância com o que defendo por imaginação emancipatória. Falamos a partir do que somos. Porém, algumas identidades são mais válidas que outras e muitas são individuais, inclusive viram adjetivos. A decisão pela identidade individual ou coletiva pode ser provocada, mas não imposta, e, geralmente, ela será guiada pela história do sujeito. A nossa mobilização é pela melhoria das condições de vida e, assim, permitir que a história desse sujeito seja digna, para que ele não seja obrigado a cair no individualismo.

JU – Quais textos teatrais (dramaturgia) dialogam mais diretamente com o livro e por quê?

Marcos Fábio de Faria – Acredito que exista um sem-número de dramaturgias que podem dialogar com o livro, por ele trazer uma proposta teórica. Os exemplos que estão lá respeitam um interesse pessoal, mas poderiam ser outros e, claro, as análises seriam outras, mas o grosso da ideia permaneceria. A minha própria dramaturgia, como Madame Satã ou Afroapocalíptico, pode suscitar diálogos com as ideias que desenvolvo no livro.

JU – Como você constrói, em cena, o personagem político ordinário?

Marcos Fábio de Faria – A construção do personagem político ordinário é anterior à cena, que é um dos vetores de projeção dessa construção específica de mundo. Falo de políticas feitas à revelia dos gabinetes e com muita qualidade e comprometimento. Levar isso para a cena requer, primeiro, comprometimento e respeito com a causa. Aí que entra o tema já debatido, a identidade. É necessária uma identificação muito profunda com aquela forma de estar no mundo, e isso acontece pelo filtro da experiência particular, principalmente quando falamos de identidades que carregam alguma alteridade.

JU – Após a reviravolta do Teatro do Oprimido, de Augusto Boal, o teatro ainda atua com a mesma radicalidade diante das crises?

Marcos Fábio de Faria – Acredito que sim, mas a canalização da radicalidade é distinta. Se tem uma arte que se adapta e sobrevive ao tempo é o teatro. Para mim, a nossa crise micro, nosso grande desafio, é a construção do público autônomo. Por outro lado, a construção discursiva é, cada vez mais, radical. O que vejo, olhando para a história do teatro, é que se trata de uma arte marcada pela intranquilidade, que sempre precisa responder a alguma demanda.

Para ler o texto no site do Jornal da Unicamp, clique aqui.

Dramaturgias radicais: do personagem político ordinário à maginação emancipatória

Autor: Marcos Fábio de Faria

Edição: 1ª

Ano: 2025

Páginas: 264

Dimensões: 16 cm x 23 cm

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