
Victor Shimabukuro Pastor
O que é o Antropoceno?
Pensar o tempo a partir da perspectiva dos processos naturais que compuseram e compõem a formação geológica de nosso planeta pode ser algo assustador. A título de curiosidade, estima-se que a Terra tenha 4,54 bilhões de anos. Diante da dificuldade de estudar um período tão longo, contudo, é praxe adotarmos, assim como na história, diferentes cronologias para segmentar e melhor caracterizar cada um dos intervalos que compõem o chamado tempo geológico.
Gradativamente, temos os Éons – Hadeano, Arqueano, Proterozoico e Fanerozoico –, que, com exceção do Hadeano, são subdivididos em Eras – caracterizadas a partir da distribuição das massas de terra e dos seres vivos em seu intervalo. As Eras são compostas de Períodos – a unidade fundamental na escala do tempo geológico –, os quais se estruturam em Épocas e, por fim, Idades.
Voltando aos Éons, o primeiro deles compreende cerca de 0,69 bilhão de anos; o segundo, 1,35 bilhão de anos; já o terceiro comporta 1,9 bilhão de anos. Atualmente, encontramo-nos no Fanerozoico, que teve início há 542 milhões de anos.
Mas e a humanidade? Ora, destes 542 milhões de anos, um período mil vezes menor do que os bilhões de anos dos éons anteriores, o Homo sapiens surge apenas no período Quaternário, iniciado há 2,6 milhões de anos e que se estende até os dias de hoje. Desses 2,6 milhões de anos, contudo, se olharmos para a cronologia estruturada pela arqueologia e pela história, veremos a presença humana em todos os continentes do planeta apenas a partir de 26 mil anos antes do presente.
Quanto aos acontecimentos registrados pela história geral (deixando de lado as problemáticas que envolvem essa periodização tradicional), seu início se deu há 4 mil anos com a Idade Antiga, seguida pelas Idades Média, Moderna e, por fim, Contemporânea. Tendo em vista que pretendemos discutir o Antropoceno, focaremos esta última, que tem como um de seus principais marcos a eclosão da Primeira Revolução Industrial Inglesa, em 1760.
Mas, afinal, o que é o Antropoceno?
Palavra-conceito criada nos anos 1980 pelo biólogo estadunidense Eugene F. Stoermer e popularizada no início dos anos 2000 pelo cientista atmosférico Paul Crutzen (Nobel de Química em 1995), o Antropoceno é utilizado para definir uma nova era geológica cujas mudanças foram acarretadas pela ação direta da humanidade. Em sua origem, o termo foi concebido apenas como um conceito técnico e filosófico para referenciar essas mudanças; contudo, graças ao avanço acelerado das transformações em escala global provocadas pela ação humana, propôs-se a utilização do termo para descrever, de fato, uma nova época geológica.
Amplamente aceito, utilizado e igualmente controverso, o conceito de Antropoceno suscita disputas quanto às formas de caracterizá-lo e demarcá-lo, assim como discussões sobre a validade de sua oficialização. Isso é compreensível: se voltarmos às eras geológicas anteriores, veremos intervalos consideráveis de tempo entre uma e outra – o período entre o Mesozoico e o Cenozoico, por exemplo, é de quase 200 milhões de anos – e mudanças ainda maiores na organização das massas de terra e na disposição dos seres vivos. O que, portanto, ocorreu na Terra durante esses últimos 250 anos para justificar a adoção desta nova era?
“Assinaturas humanas?”
Para além de mudanças visíveis e experienciadas no cotidiano, foi através dos parâmetros coletados pelo Programa Internacional da Geosfera-Biosfera (IGBP), iniciado no final dos anos 1980, que cientistas do Centro de Resiliência de Estocolmo identificaram o fenômeno denominado “grande aceleração”. Trata-se de um período pós-Segunda Guerra Mundial em que todos os indicadores disponíveis sobre consumo energético e de recursos primários, aumento populacional, atividade econômica e degradação da biosfera apresentaram crescimentos alarmantes. Já nos anos 1970, observou-se um novo período de hiperaceleração.
Caracterizados como insustentáveis, em 2009 e 2015 foram estabelecidos nove parâmetros planetários, cujo limite ultrapassado representaria um perigo real para a sobrevivência da humanidade. Atualmente, quatro deles já foram superados:
- A alteração climática e da atmosfera: tendo como maiores vilões as emissões de gases de efeito estufa, como CO2 e metano, que acarretam o aquecimento global e a acidificação dos oceanos;
- A perda de biodiversidade e as extinções em massa: a perda de espécies e a degradação de ecossistemas já configuram o que é comumente chamado de “sexta grande extinção”;
- A alteração dos fluxos biogeoquímicos: destacando-se os ciclos do nitrogênio, pelo uso de fertilizantes; do fósforo, pela mineração e pelo uso agrícola; e da água, por uma série de causas que vão da poluição industrial direta a fatores influenciados pelos outros itens desta lista;
- A alteração da cobertura vegetal e da superfície do solo: causada por elementos como o desmatamento desenfreado, a urbanização acelerada e a intensificação de processos erosivos. Nesta mudança, vale a pena destacar a presença dos microplásticos, cuja distribuição generalizada globo afora dá força ao argumento dos cientistas defensores do Antropoceno como época geológica inédita.
A ciência no Antropoceno
Os alertas sobre o caráter insustentável desse modelo de produção e consumo não são novos: desde o fim da Segunda Guerra Mundial, acumulamos inúmeros avisos de diferentes cientistas e organizações. A negação coletiva dessas advertências, contudo, fez com que mudanças mais simples e correções menos radicais se tornassem inviáveis. Com um consumo equivalente a quase dois planetas, a humanidade chega a um ponto limite. Nesse cenário de colapso ambiental, envolto por negacionismos climáticos alimentados pelos interesses de uma minoria e pela extração desenfreada de recursos, a ciência adquire um papel de extrema importância.
Longe de uma visão utópica da ciência como uma chave milagrosa capaz de resolver todos os problemas, visão esta alimentada por uma fé cega nas ideias do progresso e do desenvolvimentismo, valorizar o conhecimento científico no contexto do Antropoceno é fundamental por ser ele o nosso principal mecanismo para a compreensão desses fenômenos, para a descoberta de soluções e para o monitoramento do planeta.
Nesse sentido, a cunhagem do conceito é emblemática por simbolizar e permitir a entrada das ciências “moles” (humanas) no cerne dessa problemática. Por muito tempo compreendido como responsabilidade exclusiva das ciências naturais – tidas como ciências “duras” –, agora o debate sobre a urgência do Antropoceno e suas consequências também convoca as ciências humanas.
A busca por soluções para frear e retardar as alterações desta nova era, contudo, não caberá nos limites de apenas uma disciplina ou área do conhecimento. Exigindo um esforço coletivo, todo o processo pede e valoriza o diálogo; o norte a ser tomado pela humanidade deve, portanto, pautar-se em estudos interdisciplinares e interculturais, agregando diferentes fontes de saber para a construção de saídas viáveis e sustentáveis.
É pensando neste cenário que os títulos abaixo foram selecionados: uma curadoria voltada especialmente para que você, leitor, possa compreender as relações entre ciência e sociedade no contexto da nova era geológica em que vivemos.

O primeiro, e talvez mais importante, livro a ser apresentado neste artigo é O acontecimento antropoceno, de Christophe Bonneuil e Jean-Baptiste Fressoz. De linguagem clara e concisa, a proposta da obra está em pensar esta nova era junto às narrativas que foram e que podem ser construídas a partir dela, o que significa problematizar concepções antigas sobre os fenômenos globais que nos trouxeram até aqui. Tal perspectiva implica um cuidado com a forma como esses eventos foram tratados historicamente; afinal, como descrito pelos próprios autores:
A oposição entre um passado cego e um presente clarividente, além de ser historicamente falso, despolitiza a longa história do Antropoceno. […] Tomar o Antropoceno como um acontecimento, e não como uma coisa, significa levar a história a sério e aprender a trabalhar com as ciências consideradas duras, sem, no entanto, nos tornarmos simples narradores de uma história natural das interações da espécie humana com o sistema Terra. […] Significa, ainda, frustrar a narrativa oficial das variantes administrativas ou irênicas, e forjar novas narrativas e, portanto, novos imaginários para o Antropoceno.
A importância da obra está, portanto, em servir como uma brilhante introdução, acessível e cientificamente fundamentada, que permitirá ao leitor compreender os principais debates sobre a nova era geológica e seus impactos históricos, sociais e ambientais. Logo em suas primeiras linhas, os autores afirmam que o Antropoceno “É a nossa era. Nossa condição. Essa era geológica é fruto da nossa história há mais de dois séculos. O Antropoceno é o sinal da nossa potência, mas também de nossa impotência”. E não poderiam estar mais certos.
Christophe Bonneuil é pesquisador sênior de história da ciência, science studies e história ambiental no Centre National de la Recherche Scientifique (CNRS) e na École des Hautes Études en Sciences Sociales (EHESS) de Paris, sendo um dos pioneiros na articulação de uma história global do ambiente no Antropoceno. Jean-Baptiste Fressoz é historiador da ciência e do meio ambiente, pesquisador do CNRS e professor na EHESS, dedicando-se à história das transições energéticas nos séculos XIX e XX.
____________
Apresentado o livro que introduz o conceito, partimos para estudos multidisciplinares que se propõem a pensar diferentes aspectos tocados pelo Antropoceno. Unindo diferentes áreas, esses estudos são cruciais para a compreensão global do fenômeno: assim como o planeta se sustenta a partir de sistemas complexos que se interconectam, as análises também devem se voltar a essa realidade complexa. Ao articular ciências humanas e naturais, as obras ampliam os debates sobre sustentabilidade, segurança alimentar, políticas públicas e transformações sociais, ajudando a construir um panorama mais nítido para a formulação de estratégias contra a crise climática.

Abrindo as recomendações de obras multidisciplinares, temos Ciência e política no novo regime climático. Com abordagem interdisciplinar e sistematizando mais de uma década de pesquisa, o livro de Jean Carlos Hochsprung Miguel – professor doutor no Departamento de Política Científica e Tecnológica do Instituto de Geociências da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) – propõe um estudo sobre as interfaces entre a produção científica e a política climática.
A obra estrutura uma discussão essencial sobre “o questionamento da credibilidade e da utilidade das ciências ambientais e climáticas para as decisões públicas e planos governamentais”. Vale ressaltar que o livro não se volta para uma análise das mudanças climáticas em si, mas sim das “redes científicas e suas inter-relações com a política e questões de governo”. O olhar é direcionado para as construções sociais da ciência e da tecnologia, destacando como a ciência climática é moldada por contextos sociopolíticos e culturais específicos.

Escrito por Andrew Patrizio, curador, professor de história da arte na Universidade de Edimburgo, Escócia, e parte do conselho da Scottish Contemporary Art Network (Scan), O olhar ecológico localiza-se no território entre o cuidado com o planeta e o estudo histórico da arte visual. O projeto destaca-se por mesclar “as histórias da arte ecocríticas que foram negligenciadas no passado com ecologias políticas complacentes que até então causaram pouco impacto”.
Inserido no campo das humanidades ambientais, mais especificamente nas humanidades ecocríticas, o livro defende uma reformulação da história da arte para que a disciplina possa contribuir para atender às necessidades ecológicas da contemporaneidade. O texto parte, então, de um pressuposto unificador: a não hierarquia – um esforço do autor para contrapor as narrativas e ideologias tradicionais da disciplina. Como defende Patrizio, sua proposta é a “exploração de um caminho no qual a história da arte pode assumir seu lugar como disciplina significativa e engajada, estabelecida no futuro do antropoceno e da miríade de implicações que fluem ali”.

Fruto de uma organização conjunta entre membros da Rede de Gestão da Inovação no Setor Agroalimentar (Innovagro) e da Unicamp, Novos paradigmas para a sustentabilidade e a segurança alimentar aborda práticas agrícolas de diferentes espaços da América Latina, revelando novas tendências nas áreas de sustentabilidade e segurança alimentar. Tendo como pano de fundo dois dos grandes desafios da sociedade contemporânea (o combate à mudança climática e a eliminação da desigualdade de acesso à alimentação), o livro representa “uma aliança para avançar na construção de uma rede que priorize a comunicação nas línguas espanhola e portuguesa a fim de propiciar o intercâmbio […] e de tornar visível como os ecossistemas de inovação podem ser dinamizados em favor da sustentabilidade”. A obra apresenta exemplos de agricultura, o papel dos setores público e privado e os desafios para o século XXI.
Luís Augusto Barbosa Cortez é engenheiro agrícola graduado pela Unicamp, com mestrado pela Université Laval, Canadá, e doutorado pela Texas Tech University, EUA. É professor titular da Faculdade de Engenharia Agrícola da Unicamp e pesquisador colaborador da Faculdade de Engenharia Química da Unicamp. Sergio Luiz Monteiro Salles Filho é engenheiro agrônomo formado pela Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ), mestre em Ciências Agrárias pela Universidade Estadual Paulista (Unesp), doutor em Economia pela Unicamp e professor titular do Departamento de Política Científica e Tecnológica do Instituto de Geociências da Unicamp.

Organizado por Paulo Sérgio Fracalanza, professor do Instituto de Economia da Unicamp, com mestrado pela Universidade de São Paulo (USP) e doutorado pela Unicamp, e Rosana Icassatti Corazza, professora do Instituto de Geociências da Unicamp, com doutorado em Política Científica e Tecnológica pela Unicamp, Alternativas sistêmicas rumo à sustentabilidade da vida é o resultado de diversas ações de graduação e extensão voltadas à reflexão crítica sobre o colapso ambiental contemporâneo.
Apoiando-se no conceito de “alternativas sistêmicas”, descritas como um conjunto de proposições que florescem em todo o mundo e abrem possibilidades para transformarmos nossos sistemas socioeconômicos, o livro integra teoria e prática a partir de uma perspectiva profundamente comprometida com as múltiplas formas de sustentabilidade da vida.
____________
Neste cenário, contudo, enfrentamos outro grande obstáculo além do Antropoceno: o negacionismo científico. Diante de mudanças climáticas visíveis a olho nu e catástrofes cada vez mais frequentes, torna-se difícil justificar a negação da crise que nos aflige. Mesmo assim, o negacionismo científico apresenta crescimento alarmante e se propaga pelas ondas de desinformação nas redes sociais, aproveitando-se do distanciamento entre a academia e o grande público para estruturar movimentos organizados contra o saber científico. Seus impactos são reais, refletidos em políticas públicas omissas e na percepção distorcida da sociedade. A solução para os problemas levantados pela ação humana passa, portanto, impreterivelmente pela valorização e pela divulgação efetiva do conhecimento científico.

A última recomendação deste artigo aborda justamente os perigos da desinformação. Escrito por Lee McIntyre, Ph.D. em Filosofia pela Universidade de Michigan, pesquisador do Centro de Filosofia e História da Ciência da Universidade de Boston e instrutor de ética na Harvard Extension School, todas instituições dos EUA, Como falar com um negacionista da ciência trata do combate à desinformação desenfreada que caracteriza o capitalismo tardio.
Refletindo historicamente sobre a crise da verdade, o autor aponta o “negacionismo da ciência” como a raiz do “negacionismo da realidade”, um movimento que cresce sem barreiras desde a década de 1950. Através do livro, McIntyre oferece caminhos para dialogar e convencer pessoas, desbancando as causas estruturais desses negacionismos e descrevendo os padrões comuns presentes nas campanhas de desinformação.
A ciência como possibilidade de transformação
Embora a importância da ciência para superar a crise climática seja o ponto central, vale destacar outras ricas contribuições das obras desta lista. Com reflexões profundas sobre responsabilidade coletiva, políticas ambientais e transformações sociais, esses livros representam o que há de melhor na produção do saber ao apresentarem possibilidades reais de intervenção e melhora do nosso viver.
O grande diferencial de cada uma dessas obras é o oferecimento de propostas práticas: seja a produção de um conhecimento mais inclusivo e participativo em Ciência e política no novo regime climático; as novas configurações agrícolas de Novos paradigmas para a sustentabilidade e a segurança alimentar; as inúmeras possibilidades de transição de Alternativas sistêmicas rumo à sustentabilidade da vida; ou as ferramentas de diálogo propostas em Como falar com um negacionista da ciência.
Diante desse cenário, a Editora da Unicamp, ao oferecer títulos de alta qualidade em diferentes áreas do conhecimento, cumpre o papel fundamental de lutar para que uma formação crítica, ampla e fundamentada esteja acessível aos leitores e à comunidade brasileira. Este é um posicionamento de suma importância no contexto negacionista em que vivemos.
Explore também outros títulos sobre ciência, sociedade e mudanças climáticas disponíveis no catálogo da Editora da Unicamp e aprofunde seus conhecimentos.