
Victor Shimabukuro Pastor
No cotidiano brasileiro, é comum o pensamento de que o ambiente escolar acolhe princípios “da esquerda”. Imaginada como um lugar de doutrinação ideológica, a escola – e pensamos aqui, sobretudo, no ensino primário e secundário – estaria sendo tomada por elementos militantes e desmembrada de suas funções primordiais: educar e formar os alunos, possibilitando, assim, que, por meio do estudo, superem desigualdades sociais. Nessa perspectiva, sua desvirtuação ocorreria pela inserção de intenções e projetos distintos daqueles estruturados pela instituição escolar e por sua utilização de maneira compreendida como prejudicial aos alunos e às famílias.
Agora, e se o verdadeiro papel da escola não fosse esse de educar e formar? E se, em seu cerne, o funcionamento desse sistema trabalhasse para outro fim: criar discriminações e propagar as ideologias dominantes do discurso capitalista ocidental? Essas são, entre outros temas, as questões levantadas por Christian Baudelot e Roger Establet em A escola capitalista na França, novo livro da Coleção Marx 21.
Christian Baudelot é professor emérito de sociologia e fundador do departamento de Ciências Sociais na Escola Normal Superior de Paris (École Normale Supérieure, ou ENS), além de pesquisador no centro Maurice-Halbwachs. Roger Establet, por sua vez, é professor emérito da Universidade de Provença. A tradução é de Clarissa Penna, com revisão técnica de Selma Venco, docente da Faculdade de Educação da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), socióloga, mestre e doutora em Educação pela Universidade, com doutorado-sanduíche na Universidade Paris Nanterre e dois pós-doutorados em Sociologia do Trabalho.
Partindo de uma perspectiva crítica e atrelada à ampla observação das realidades do cotidiano da educação francesa – representada por extensa análise estatística no livro –, A escola capitalista na França pretende investigar alguns aspectos fundamentais do funcionamento dessa instituição. Inserido na perspectiva teórica do marxismo estrutural de Louis Althusser, o livro tem duas dimensões básicas: a formulação da teoria da escola capitalista e a apresentação, por meio de uma extensa pesquisa empírica sobre a França das décadas de 1960 e 1970, do funcionamento do aparelho escolar francês como aparelho escolar capitalista.
Para isso, os autores investem, inicialmente, contra três noções ideológicas fundamentais para a compreensão da escola na sociedade capitalista: a noção de “unidade da escola”, que compreende seu fim único de educar e formar os alunos; a noção de “escola unificadora”, entendida como capaz de reduzir diferenças sociais e unificar o alunado; e, por fim, a ideia de “escola como sistema”, isto é, uma parte perfeitamente regulada e adaptada aos sistemas econômico e social. Após essa desmistificação, propõem, a partir da compreensão das contradições desse sistema, uma teoria da escola como aparelho ideológico privilegiado para a propagação da ideologia capitalista.
Os autores defendem, então, que a missão primordial da escola seria interditar o desenvolvimento das ideologias do proletariado, impedindo, assim, lutas revolucionárias. O aspecto mais interessante do argumento de Baudelot e Establet está em perceber como essa propagação não atua apenas por meio da interdição, mas também através da reprodução material da divisão de classes, representada pelo que denominam duas “redes de escolarização” distintas. Constituintes do aparelho escolar capitalista – também compreendido como aparelho ideológico do Estado capitalista –, essas redes, mascaradas por inúmeras artimanhas, seriam as principais responsáveis pela segregação dos alunos. Sobre esse ocultamento, dizem os autores:
Da mesma forma, atendo-se às aparências institucionais dos organogramas, poder-se-ia crer que, da sexta série clássica à aprendizagem profissional, ocorre apenas um gradual refinamento cuja “complexidade inextricável”, espelhando a “complexidade inextricável da estratificação social” e da sociedade em geral, exige do especialista em ciências humanas muita modéstia e engenhosidade metodológica. […] Compreende-se nessas condições que os mais lúcidos analistas do sistema escolar, quando trabalham com um organograma desse tipo em mente, apresentem proposições como esta: “Não há um hiato entre grupos extremos que se oporiam radicalmente, mas sim uma progressão muito regular nas chances de acesso ao ensino longo, de um grupo social a outro, à medida que se ascende na hierarquia socioprofissional”.
Baudelot e Establet dão ainda um passo além ao pontuar a centralidade da escola primária para o funcionamento desse aparelho. Para eles, essa centralidade decorre do fato de ser nela que as duas redes se encontram e, consequentemente, onde essa divisão permanente se manifesta. Será, portanto, na escola primária que ocorrerão as bases das inculcações ideológicas do capitalismo, permitindo o funcionamento de outros aparelhos estatais – como a televisão, a publicidade, a igreja e o exército, entre outros –, característica que confere ao aparelho escolar um lugar privilegiado na superestrutura do modo de produção capitalista.
Um bom exemplo dessa inculcação e das diferentes atuações das duas redes de escolarização pode ser encontrado no final do 13o capítulo, “O aparelho escolar e a reprodução das relações sociais de produção”. Diz o trecho:
É aqui que a escola entra em cena, com seu papel verdadeiramente insubstituível: ensinar aos sujeitos da rede primário-profissional quais são suas necessidades, submetendo-os às necessidades que se tem deles como se fossem suas próprias necessidades. […] O aparelho escolar não “cria” do nada necessidades para a classe operária; ele tenta submeter as necessidades reais da classe operária às necessidades do capital, pois a classe operária tem necessidades reais […], a de se reproduzir materialmente, de subsistir; também a necessidade de exercer um papel autônomo. […] No extremo oposto, o aparelho escolar forma aqueles cujas atribuições econômicas incluem definir as necessidades alheias. […] são submetidos à expressão de suas necessidades, à pedagogia da motivação, do desenvolvimento pessoal etc.
Ao estudar o lugar ocupado pelo aparelho escolar na reprodução das relações sociais de produção – entendidas como a combinação social das forças produtivas distribuídas entre os diversos agentes da produção –, a análise de Baudelot e Establet oferece uma perspectiva singular para evidenciar fatos e compreender o que realmente ocorre nas escolas, ainda que por meio de índices nem sempre diretamente correlacionados a essa perspectiva. Demonstrando de forma clara a contribuição da escola para a reprodução da força de trabalho, A escola capitalista na França surge como leitura indispensável para todos os interessados no pensamento marxista, na historicidade da instituição escolar e, de forma mais ampla, na sociologia e nos estudos sobre educação.
Para saber mais sobre o livro, visite nosso site e conheça também os outros títulos da Coleção Marx 21!

A escola capitalista na França
Autores: Christian Baudelot e Roger Establet
Tradução: Clarissa Penna
ISBN: 9788526818286
Edição: 1ª
Ano: 2025
Páginas: 336
Dimensões: 23 x 16 cm