A Terra é Redonda divulga trecho da apresentação do livro “Vida e morte de M. J. Gonzaga de Sá”

1.

É desnecessário assinalar aqui a importância desses dois acontecimentos para a literatura brasileira, mas é fundamental destacar o surgimento de Lima Barreto nesse período. A respeito de Brás Cubas sabe-se que esse romance constitui uma ruptura com as convenções vigentes na prosa de ficção brasileira oitocentista, em que ainda predominavam as cores de um romantismo já em decadência e ultrapassado. Quanto à Semana de Arte Moderna, todos sabem do seu significado no contexto do Modernismo, movimento que mudou definitivamente os rumos da literatura brasileira, haja vista a revolução formal que promoveu na literatura e nas artes em geral.

A presença de Lima Barreto nesse intervalo é bastante significativa, e, apesar das diferenças que o separam de Machado de Assis e dos modernistas, há muitas características em comum entre eles, de forma que o autor de Isaías Caminha atua ao mesmo tempo como continuador de uma tradição e precursor de um movimento de renovação. De certo modo, Lima Barreto dá continuidade a uma tendência crítica da literatura brasileira (sobretudo na prosa de ficção) que vem de Manuel Antonio de Almeida, passa por Machado de Assis e continua na prosa de ficção modernista, particularmente no romance da geração de 1930, que se caracteriza por apresentar uma visão crítica da sociedade brasileira em seu processo de modernização.

Portanto, Lima Barreto viveu num período singular da história do país, marcado por acontecimentos que seriam decisivos para as transformações ocorridas na sociedade brasileira na passagem do século XIX para o século XX, e que atingiram não apenas a esfera política e social, mas também o plano da cultura e da literatura. Atento observador da vida nacional, e sempre com muita lucidez e senso crítico, o criador de Policarpo Quaresma retratou em suas obras as contradições e singularidades do conturbado período das primeiras décadas da República.

2.

Nesse contexto, a obra de Lima Barreto emerge como um elemento dissonante, considerando que uma de suas características fundamentais é o compromisso com a realidade histórica, em consonância com a visão do autor sobre a literatura, pois ele acreditava que esta não deveria ser apenas um exercício para diletantes, nem mero objeto de contemplação. Para o romancista carioca, a literatura poderia atuar no sentido de promover o aprimoramento intelectual do homem, levando-o a uma melhor compreensão da sociedade, de seu semelhante e de si mesmo.

Dessa forma, a literatura, para Lima Barreto, desempenha uma função humanizadora, em consonância com a formulação de Antonio Candido sobre a atuação da literatura na formação do sujeito humano. Lima Barreto acreditava no poder quase redentor da literatura, desde que ela cumprisse a importante missão de esclarecer a humanidade sobre sua condição, despertando, assim, nos homens o sentimento de solidariedade, aproximando-os uns dos outros.

Ele apresenta esse entendimento no texto “O destino da literatura”, do qual citamos uma passagem que ilustra bem o que foi dito acima: “A missão da literatura é fazer comunicar umas almas às outras, é dar-lhes um mais perfeito entendimento entre elas, é ligá-las mais fortemente, reforçando assim a solidariedade humana, tornando os homens mais capazes para a conquista do planeta e se entenderem melhor, no único intuito de sua felicidade”.

Em Lima Barreto, o compromisso com a verdade implica a defesa de uma literatura militante, que para ele não significava necessariamente uma escrita que propagasse determinado credo político ou ideológico, mas que fosse comprometida com as grandes questões que afetam a humanidade em geral e a vida social em particular. O termo “literatura militante”, ele afirma que encontrou em Eça de Queiroz, mas formula sua concepção baseado no pensamento de Guyau, que “achava na obra de arte o destino de revelar umas almas às outras, de restabelecer entre elas uma ligação necessária ao mútuo entendimento dos homens”.

Lima Barreto formula e adota essa concepção de literatura como princípio que norteia sua obra, a qual se vincula à sua visão crítica sobre a sociedade e, dentro desta, a linguagem, que ele compreendia numa perspectiva histórica, como elemento dinâmico da vida dos homens, e nas relações sociais, cujo funcionamento está sempre condicionado às circunstâncias históricas.

Daí por que Lima Barreto se manifesta contrariamente às formas de expressão das elites conservadoras, figuradas na pompa e no brilho postiço do texto literário de estilo parnasiano, bem como na forma empolada do discurso político e acadêmico da retórica bacharelesca. Para o autor de Clara dos Anjos, o combate às oligarquias republicanas passava pela demolição de suas formas consagradas de expressão, o que motivou suas constantes investidas contra o estilo parnasiano e contra a retórica dos bacharéis, que para ele representavam o arrivismo de grupos em ascensão na República Velha.

3.

A literatura de Lima Barreto se manifesta por meio de variadas formas de expressão, pois o criador de Gonzaga de Sá utilizou-se de diversos gêneros discursivos, considerados literários ou não, conforme o que lhe parecesse mais adequado à situação. Sua obra abrange categorias como ficção, memórias, artigos de opinião, crônicas, sátira social etc. Muitas vezes ocorrem a mistura das formas e a fusão dos gêneros em um mesmo texto, o que está de acordo com sua concepção estética, diretamente ligada à visão do escritor militante, para o qual as velhas regras e os padrões consagrados pela tradição não podem limitar a liberdade do escritor empenhado em falar do seu tempo e para o seu tempo.

Essa citação ilustra bem essa visão: “Parece-me que o nosso dever de escritores sinceros e honestos é deixar de lado todas as velhas regras, toda a disciplina exterior dos gêneros e aproveitar de cada um deles o que puder e procurar, conforme a inspiração própria, para tentar reformar certas usanças, sugerir dúvidas, levantar julgamentos adormecidos, difundir as nossas grandes e altas emoções em face do mundo e do sofrimento dos homens, para soldar, ligar a humanidade em uma maior, em que caibam todas, pela revelação das almas individuais e do que elas têm de comum e dependente entre si”.

Um aspecto fundamental da militância de Lima Barreto reside na insubmissão aos modelos consagrados pela tradição. Assim, ao inconformismo com a situação social e política do país – marcada pela condição de miséria de grande parcela da população, o preconceito contra a população afrodescendente, a opressão e o autoritarismo oficial – correspondia sua atitude de rebeldia em face dos modelos estéticos vigentes, de cunho elitista e reacionário, que, na visão do nosso autor, serviam de instrumento de opressão a serviço dos grupos dominantes que legitimavam tais modelos como os únicos válidos.

Trata-se, portanto, da postura de um escritor revolucionário, na medida em que o esforço para fazer uma literatura empenhada em abordar os problemas de seu tempo vem junto com o propósito de renovar as formas de expressão, antecipando aquilo que seria objetivo central dos modernistas de 1922.

O resultado dessa posição é uma literatura de testemunho ao mesmo tempo do escritor e de sua época, na qual muitas vezes elementos autobiográficos e questões sociais se misturam. Nesse sentido, o protesto do escritor militante contra a opressão e a injustiça aos desvalidos é, ao mesmo tempo, um grito de revolta contra a própria marginalização, que Lima Barreto retrata em vários livros por meio dos personagens. Dessa forma, ler os livros de Lima Barreto, como disse Antonio Arnoni Prado, “é um exercício de consciência histórica que conta com a vantagem, como poucas vezes noutro escritor brasileiro, de um difícil testemunho: constatar como a vida, e nesta a opressão e o fracasso, se converte em literatura.

4.

Publicado pela primeira vez em 1919, o romance Vida e morte de M. J. Gonzaga de Sá começa a ser escrito logo no início da breve trajetória literária de Lima Barreto, o que se pode constatar pela leitura do Diário íntimo, em que há várias referências ao livro já no ano de 1906, indicando que a obra estava em adiantado processo de elaboração. Aponta para isso também a correspondência de Lima Barreto, particularmente uma carta a Gonzaga Duque, datada de 7 de fevereiro de 1909, em que o romancista se refere ao Gonzaga de Sá como se o livro já estivesse pronto para publicação quando decide publicar o romance Recordações do escrivão Isaías Caminha.

Trata-se de um dos livros menos conhecidos de Lima Barreto, e consequentemente pouco lido e estudado, apesar de ser um dos romances mais interessantes da literatura brasileira do início do século XX, haja vista o caráter inovador de sua narrativa, que rompe com os padrões convencionais do realismo do século XIX, ainda dominantes na prosa brasileira do período, inclusive nos livros anteriores do próprio Lima Barreto.

Vida e morte de M. J. Gonzaga de Sá é composto de 12 capítulos, de certa forma independentes entre si, haja vista que não se articulam com algum tipo de relação causal, de modo que o enredo se constitui por meio das reflexões dos personagens, que percorrem ruas e bairros diversos do Rio de Janeiro, observando a paisagem em diferentes aspectos: a natureza, a arquitetura e, em especial, a “paisagem humana”, que suscita nos dois amigos reflexões diversas.

A disposição para confrontar os valores consagrados é anunciada logo na apresentação do livro pelo narrador-personagem Augusto Machado, que, em uma nota explicativa denominada “Explicação necessária”, expõe com ironia as razões que o levaram a escrever a biografia de seu amigo e mestre Gonzaga de Sá, personagem central do romance ao lado do narrador, que divide com ele o espaço inteiro da narrativa, na medida em que participa de todos os episódios que narra, sempre acompanhado de seu biografado.

Augusto Machado chama atenção para a singularidade de sua narrativa, que difere dos padrões consagrados tanto pela matéria apresentada quanto pela técnica usada na composição, pois se trata da biografia não de alguma autoridade ou celebridade, mas de um modesto funcionário público, elaborada sem o rigor do método exigido pelo gênero.

5.

Dessa forma, o narrador recusa o romance convencional da literatura “sorriso da sociedade”, peculiar ao espírito da Belle Époque, modelo constantemente criticado por Lima Barreto, que se posiciona contrariamente à literatura que representava as elites conservadoras. Assim começa o narrador a sua justificativa: “A ideia de escrever esta monografia nasceu-me da leitura diurna e noturna das biografias do doutor Pelino Guedes. São biografias de ministros, todas elas, e eu entendi fazer a dos escribas ministeriais”.

Com ironia, o narrador continua a explicação no parágrafo seguinte: “Não há neste tentâmen nenhuma censura ao ilustre biógrafo, nem tampouco propósito socialista ou revolucionário de qualquer natureza. Absolutamente não! Obedeci, aliás muito inconscientemente, à lei da divisão do trabalho; e com isso, sem falsa modéstia o digo, fiz uma importante descoberta que o mundo vai me agradecer”.

Em relação ao tratamento literário dado ao tema, Augusto Machado também recusa os modelos convencionais, começando pela ausência de linearidade da narrativa, que se organiza como se os acontecimentos fossem relatados aleatoriamente, sem relação aparente uns com os outros. Datada de 1906, a nota explicativa do narrador já anuncia o ideal estético de Lima Barreto, que desde logo abraça o projeto de fazer uma “literatura militante”, despojada da ênfase, do brilho e dos artifícios retóricos inerentes à literatura oficial, o que implicaria também a opção por personagens marginalizados, como ocorre em boa parte de sua literatura, cuja matéria privilegiada é a vida da população pobre.

Em Vida e morte de M. J. Gonzaga de Sá os dois protagonistas encontram-se em constante movimento, a passear pelas diversas regiões da cidade, onde colhem a matéria para suas reflexões e para a própria composição do romance. Deslocados no meio em que vivem e inconformados com o ambiente mesquinho da repartição burocrática em que trabalham, os dois amigos buscam refúgio nas ruas da cidade, onde se conciliam com a própria solidão.

Sobre a vida de Gonzaga de Sá, o leitor tem acesso, por meio do narrador, a algumas informações, como, por exemplo, a respeito de sua casa, herança da família em extinção, onde mora na companhia de dona Escolástica, uma tia que o criou, e com quem tem pouca interação, dadas as diferenças que os separam. Sabe-se também que ele não tinha outras relações além da amizade com o jovem Augusto Machado e com Romualdo, seu compadre e servente da repartição onde trabalhava.

6.

Augusto Machado, por sua vez, só se dá a conhecer passeando pelas ruas da cidade, e não há informação a respeito de sua vida doméstica, se tem familiares, pois nada disso é dito pelo narrador. Mesmo na repartição em que trabalham, os dois amigos só aparecem no início do romance, nas cenas em que Augusto Machado relata seus primeiros contatos com o velho Gonzaga Sá, na Secretaria dos Cultos, onde o encontrara sufocado por uma “montanha” de papéis, documentos oficiais em que o amanuense busca encontrar fundamentos legais para resolver uma “questão cardeal”, como sugere ironicamente o narrador: decidir sobre a quantidade de tiros a serem disparados nas homenagens a um bispo.

Em outra ocasião, Augusto Machado encontra o velho funcionário para resolver questão de ordem semelhante: responder a uma consulta sobre o número de setas que a imagem de São Sebastião deveria ter. É no capítulo I (“O inventor e a aeronave”) que os dois episódios são narrados. A forma irônica como o narrador apresenta o episódio torna risível a situação, ao sugerir a desproporção entre o esforço empreendido pela autoridade e a importância do problema, uma frivolidade segundo o ponto de vista dos personagens.

Vale a pena citar a passagem em que Augusto Machado relata, com satisfação e com boa dose de ironia, a ocasião e o modo como encontrou Gonzaga de Sá pela primeira vez: “Conheci Gonzaga de Sá quando, certa vez, por dever de ofício, fui mandado à Secretaria dos Cultos. Tratava-se de um caso de salvas a um bispo. O Bispo de Tocantins, ao entrar no porto de Belém, a bordo de uma “gaiola”, recebera da respectiva fortaleza, apenas dezessete tiros de salva. Sua Reverendíssima reclamou. Competir-lhe-iam dezoito tiros; e basto cabedal de textos e leis, a alta autoridade eclesiástica citou, fundamentando a sua opinião”.

O irônico da situação é que a reclamação da autoridade tramita na repartição até chegar ao ministro, alcançando, assim, a dimensão de problema de Estado, sendo debatida por autoridades versadas em leis da diplomacia e do direito canônico, permanecendo, porém, sem solução, mesmo após recorrem à legislação de vários países. Depois de muito debate e do esforço empreendido por autoridades diversas (a questão chega aos Ministérios da Justiça e dos Estrangeiros), o problema acaba sendo resolvido pelo Ministério da Guerra, repartição à qual compete decidir questões relativas às armas e que, portanto, tem competência para decidir sobre “tiros e disparos”.

É com ironia e humor que o narrador comenta a sábia resolução do problema pela autoridade competente: “Era seu parecer que, para evitar reclamações futuras e satisfazer as partes, de ora em diante devia competir uma salva de dezessete tiros, com canhões de quinze, e um tiro com canhão de sete e meio. Era, além de salomônico, matemático, ou ambas as coisas juntas, pois, com dezoito disparos, se tinham dezessete tiros e meio, sendo, assim, satisfeito o prestígio do governo e os melindres do prelado.

7.

A crítica social inerente à literatura de Lima Barreto se manifesta nas passagens citadas acima sobretudo pelo humor e pela ironia no modo como o narrador apresenta as situações, apontando as setas da sátira para dois setores dos mais criticados pelo autor, a burocracia e a instituição militar. É conhecida a aversão de Lima Barreto à vida burocrática, que ele manifestou em diversas ocasiões e em vários momentos de sua escrita, assim como seu antimilitarismo, que evidenciou em sua obra, na qual a instituição militar em geral (e o exército em particular) quase sempre aparece associada ao autoritarismo, o que o autor não tolerava.

Da mobilidade dos personagens vai-se compondo uma narrativa igualmente móvel, sem um ponto fixo que amarre os fios do enredo, que não apresenta um núcleo conflitivo com tensão dramática. Os motivos apresentam-se de modo aparentemente aleatório, seguindo os flagrantes do olhar errante do narrador, ou, mais precisamente, dos dois personagens, tendo em conta que seus pontos de vista se confundem na maioria das vezes.

O impasse que Theodor Adorno identifica no romance do século XX, isto é, a necessidade da narração diante da impossibilidade de narrar, parece caracterizar o relato de Vida e morte de M. J. Gonzaga de Sá, cujo narrador, mais do que propriamente narrar, comenta, juntamente com seu amigo personagem, a vida da cidade em seus diversos aspectos, daí a variedade de temas que surgem no transcurso da narrativa, sempre filtrados pela subjetividade dos personagens que analisam e avaliam os fatos observados.

Os temas vão se organizando segundo a visão do narrador, constituindo um conjunto articulado em que os elementos, ainda que dispersos, se harmonizam na moldagem de um mundo que se orienta por valores opostos aos ideais dos personagens. À medida que os dois protagonistas passeiam, o leitor vai tomando contato com as múltiplas dimensões da vida social e cultural da cidade, postas no relato sem hierarquia de valor, de maneira que se misturam e são colocados no mesmo plano os assuntos mais díspares e aparentemente distantes, como a moda, o trabalho das costureiras, as ações de um diplomata ou ministro e as mulheres de “vida fácil”. A diversidade dos temas e dos motivos, entretanto, não prejudica a unidade da narrativa, pois estes são apresentados conforme o ponto de vista do narrador, que subordina tudo ao seu olhar, resultando no tom desencantado e melancólico que caracteriza o romance.

8.

Em Vida e morte de M. J. Gonzaga de Sá, de modo semelhante ao que ocorre em outros livros de Lima Barreto, há uma modulação na voz narrativa que oscila entre a revolta e a melancolia, condicionada pelas circunstâncias em que se encontram os personagens a cada momento. Ao acompanhar os diálogos dos dois amigos em suas andanças, o leitor identifica também um movimento que vai de certa ironia desencantada à sátira social que permeia boa parte dos textos de Lima Barreto.

Mas nem sempre o arco se fecha entre a ironia e a sátira, pois muitas vezes o leitor é transportado para a poesia do discurso lírico, que se manifesta diante da sugestão acolhedora que o olhar do narrador flagra na paisagem natural, ou quando a paisagem social e humana da cidade inspira nos dois amigos certa compaixão pelos pobres e desvalidos. A poesia da natureza inspira o narrador a traduzir em belas metáforas o amor pela cidade, cuja beleza se projeta ao olhar dos personagens nas imagens do mar e das montanhas, que aparecem humanizadas: “Pouco olho o céu, quase nunca a lua, mas sempre o mar”, declara Augusto Machado.

E o narrador continua a discorrer sobre suas impressões, trazendo aos olhos do leitor essa bela imagem que a paisagem franqueia ao sujeito que a contempla: “Considerei também a calma face da Guanabara, ligeiramente crispada, mantendo certo sorriso simpático na conversa que entabulara com a grave austeridade das serras graníticas, naquela hora de efusão e confidência. […] Notei então o acordo entre o mar e as serras. O negro costão do Pão de Açúcar dissolvia-se nas mansas ondas da enseada; e da mágoa insondável do mar, se fazia a tristeza da Boa Viagem.

A incursão do narrador pelas regiões do Rio de Janeiro revela os mais diversos aspectos que caracterizam a paisagem cultural e humana da cidade, apresentados e analisados pelo narrador e seu amigo, como a sugestiva e irônica mistura de frivolidade e gravidade, em que as futilidades são apresentadas no mesmo nível das chamadas “coisas sérias”. A esse respeito, merece destaque especial o capítulo IV do romance, sugestivamente denominado “O barão, as costureiras e outras coisas”, em que a figura do Barão do Rio Branco é posta em pé de igualdade com as costureiras (classe trabalhadora), e em seguida rebaixada à condição de “outras coisas”, quaisquer que sejam.

O discurso satírico do narrador estabelece uma inversão de sentido, realizando, por meio da sátira, o rebaixamento da autoridade republicana ao sugerir que as atividades políticas do Barão do Rio Branco têm a mesma importância que o trabalho das costureiras e da mulher de “vida fácil”.

*Manoel Freire Rodrigues é doutor em Teoria e história literária pela Universidade Estadual de Campinas e professor do Departamento de Letras Vernáculas da Universidade do Estado do Rio Grande do Norte.

Referência


Lima Barreto. Vida e morte de M. J. Gonzaga de Sá. Apresentação: Manoel Freire Rodrigues. Editora Unicamp, Campinas, 2024, 166 págs. 

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