
1.
Foi redator de O Estadinho (1917), tiragem noturna de O Estado de S. Paulo, e depois, também nesse jornal, em diversos momentos até 1943, tendo assinado várias seções de crônicas diárias, bem como no Diário Nacional (1927), na seção “Pela Cidade”; criou programas semanais na Rádio Cruzeiro do Sul – “Momentos de Poesia”, Preview – sobre cinema (1933), bem como na Rádio Difusora de S. Paulo; dirigiu a Folha da Manhã e a Folha da Noite (1943-1945); fundou o Jornal de S. Paulo (1945). Foi ainda redator do Diário de S. Paulo (1947-1957) e da Manchete (1958).
Participou da Semana de Arte Moderna, colaborou na famosa revista Klaxon (1922), cuja capa irreverente foi de sua autoria, e em muitos outros periódicos do Modernismo como Paulistana (1927), da qual também foi diretor e ilustrador, ajudado por Di Cavalcanti, autor de vistosas ilustrações. Escrevia em francês, italiano e espanhol; talvez tenha sido o poeta modernista mais popular, publicando cerca de 50 livros de poesia e tradução, todos com sucessivas reedições.
Ajudou a fundar o Teatro Brasileiro de Comédia, o TBC (1948), e a Companhia Cinematográfica Vera Cruz (1949). Exerceu vários cargos públicos, desde os mais permanentes, como a Secretaria da Escola Normal Padre Anchieta (1923-1954), até aqueles mais efêmeros, a exemplo de chefe da Divisão de Expansão Cultural da Prefeitura de São Paulo (1935); oficial de gabinete do interventor Fernando Costa (1941); secretário-geral do Conselho Estadual de Bibliotecas e Museus (1943- -1948); chefe de gabinete do prefeito Lineu Prestes (1948); presidente da Comissão do IV Centenário da Cidade de São Paulo (1954).
2.
Tornou-se membro do Instituto Geográfico e Histórico de São Paulo; presidente da Associação Paulista de Imprensa (1937-1939); integrou o Seminário de Estudos Galegos (Santiago de Compostela) e o Instituto de Coimbra. Convidado pelo presidente Juscelino Kubitscheck, fez o discurso oficial da inauguração de Brasília. Interessou-se também pela heráldica, tendo criado os brasões de armas das seguintes cidades: São Paulo, Caconde (SP), Iacanga (SP), Embu (SP), Petrópolis (RJ), Volta Redonda (RJ), Londrina (PR), Brasília (DF) e Guaxupé (MG).
Elegeu-se para a Academia Paulista de Letras (1928), em seguida para a Academia Brasileira de Letras (1930), da mesma forma Príncipe dos Poetas Brasileiros (1958) e recebeu a Legion d’honneur (alta condecoração honorífica da França).
Belkiss Barrozo do Amaral, ou melhor, Baby (1901-1988), casou-se com o poeta modernista Guilherme de Almeida em 1923; eles tiveram um filho em 1924 – Guy Sérgio Haroldo Estevam Zózimo Barrozo de Almeida. Baby foi retratada por vários artistas do século passado, tais como Di Cavalcanti – 1924; Reis Jr. – 1926; Lasar Segall – 1927; Anita Malfatti – 1930; Wagner Castro – 1940; Quirino da Silva – 1942; Noêmia – 1942; Sanson Flexor – 1948; Vittorio Gobbis – 1951; e esculpida por William Zadig.
Era uma mulher moderna, bem formada, desinibida, fluente no francês; gostava de vestir-se de acordo com o seu tempo, lançando, volta e meia, um modelo novo de corte de cabelo, como mostram os seus retratistas. Cearense (filha do importante engenheiro Zózimo Barrozo do Amaral, colaborador do prefeito carioca Pereira Passos, e prima do famoso jornalista com o mesmo nome do avô), educada na Europa, viveu muito tempo no Rio de Janeiro, mas adaptou-se bem à vida paulistana e invariavelmente atuava com seu marido, sobretudo nas atividades sociais e culturais.
Era tida como uma pessoa expansiva e ao mesmo tempo misteriosa. Católica praticante, tinha presença assídua nas missas dominicais, colecionava imagens antigas dos santos de sua devoção, na sua residência decorada com objetos de arte e peças da época colonial. Em fotografias de grupo de artistas e escritores da época, lá estava ela. O casal não se separava, inclusive Baby acompanhou o poeta na célebre excursão por alguns estados para divulgar o Modernismo com a conferência “Revelação do Brasil pela poesia moderna” (1925).
3.
A chamada Revolução Constitucionalista (1932) e a incondicional adesão de Guilherme de Almeida transformaram-se em assuntos polêmicos. Quando o então presidente Getúlio Vargas começou a tomar medidas políticas consideradas injuriosas e humilhantes pelos paulistas, o cronista de “Eco ao longo de meus passos”, que reputava essa atitude como “uma marcha contra São Paulo”, assumiu a condição de um dos críticos ferrenhos da nova República. Tão logo a revolta se iniciou, no dia 9 de julho daquele ano, alistou-se intempestivamente como soldado raso na 2a Companhia do 1o Batalhão da Liga de Defesa Paulista. Em consequência desse ardoroso engajamento, exilou-se em Portugal, depois da derrota (1932-1933).
O poeta português Leitão de Barros, em dezembro de 1932, ao receber Guilherme de Almeida, em sessão solene na Academia de Ciências de Lisboa, como um dos grandes poetas da língua portuguesa, concluiu seu discurso com a seguinte observação: “o poeta que luta, de armas na mão, por uma causa oportuna ou inoportuna, útil ou inútil, mostra ser claramente, indiscutivelmente, um idealista extremo – e que a sua poesia, a sua faculdade poética, assentam em bases de inabalável solidez, porque nasce de uma sôfrega sede de altura e de um profundo anseio de superar as inércias quotidianas, as covardias e as hesitações que nos diminuem”.
Todavia, Guilherme de Almeida preferia definir-se não como um “poeta paulista”, mas como um “paulista poeta”.
Enviado inicialmente para a região de Pindamonhangaba, ficou em Cunha, depois em Guaratinguetá, no “Batalhão de Doutores”, junto com seus irmãos, Tácito, Antônio Joaquim e Estevinho, mais Carlos Pinto Alves, Rubens Borba de Morais, Antônio Gomide, Alfredo Ellis Júnior, Carlos de Morais Andrade, René Thiollier, Sérgio Milliet, entre outros. O grupo, além de Antônio Carlos Couto de Barros (dispensado para dirigir a Liga na capital), reuniu intelectuais engajados, voltados primordialmente para impulsionar a vida cultural, econômica, política e social do estado de São Paulo.
Imaginava-se que essa revolta duraria pouco tempo e o entusiasmo dos paulistas seria suficiente para a vitória. A demora no seu desfecho começou a desagradar aos combatentes, como o nosso missivista – “Mas isto está durando”.
Como disse, pareceu controvertida a sua participação nesse movimento. Alguns consideravam que teria sido mais proveitosa a presença do escritor na capital com o objetivo de operar na Liga, sobretudo no setor de comunicação e imprensa, onde atuavam Antônio Carlos Couto de Barros, Bento Camargo, Vivaldo Coaracy, Mário de Andrade, entre outros.
Sobre o comprometimento apressado daqueles intelectuais, o jornalista Coaracy ponderava: “Converse com o Carlos e o Tácito. Vocês três nos fazem aqui uma grande falta. Eu sempre lhe disse que achava um erro a precipitação com que vocês se alistaram no nosso batalhão e seguiram para as trincheiras, quando os seus serviços poderiam ser muito mais eficientes aqui”.
4.
Esse alistamento abrupto talvez tenha sido uma questão de simbologia. No caso de Guilherme de Almeida, jornalista, escritor de sucesso, membro da Academia Brasileira de Letras (ABL), a sua presença e a de outras personalidades poderiam animar as tropas, estimular o alistamento de jovens e chamar atenção dos colegas de outros estados a propósito da situação de São Paulo.
De fato, houve boa recepção ao chamado Batalhão de Doutores nas cidades de Cunha (apreciada por sua arquitetura antiga e pelos objetos a serem garimpados para decoração) e Guaratinguetá, sobretudo vinda dos soldados. Resultou também na ajuda com hospedagem e alimentação. Sem falar no assédio das jovens, em torno do escritor famoso, perfeitamente aceitável da parte de sua mulher, pois encarava isso como uma possibilidade de diversão para os combatentes. Do mesmo modo, alimentou a cobertura da imprensa a respeito da participação do poeta nessa guerra.
Entretanto, apesar dessa repercussão, a Academia Brasileira de Letras parece não ter respondido ao seu requerimento (ver anexo) cobrando um pronunciamento da entidade sobre a guerra. Guilherme de Almeida resolveu transformá-lo numa carta pública, como se fosse feito e divulgado em nome de São Paulo. O texto saiu do domínio privado – comunidade de acadêmicos – para uma leitura nas rádios e publicação em vários jornais. A estratégia foi ressaltar a sua condição de único membro da ABL participante no conflito.
Acreditava que essa fala, a partir da zona de guerra, conferia-lhe autoridade para enfatizar a injustiça feita a seu estado e, principalmente, tentar obter apoio. Apelava para que houvesse uma manifestação inequívoca sobre o movimento constitucionalista brasileiro, “reação altamente intelectual, que unicamente visa, pela força da Lei, reerguer o Brasil que o regime ditatorial afundou na anarquia”. Considerava legítimo, na qualidade de acadêmico e “soldado dos exércitos da lei”, o direito de ouvir seus pares sobre o ideal que abraçara.
A epistolografia alimentava a atuação poética do escritor. Várias obras foram derivadas dessa experiência: Carta à minha noiva (1923), Cartas que eu não mandei (1932), Cartas do meu amor (1941). Antes de se casar, ainda vivendo no Rio de Janeiro, sem se conhecerem pessoalmente, assinando com o pseudônimo Ivonne, Baby trocou cartas amorosas em francês com Guilherme, que as respondeu para uma espécie de caixa postal, durante pelo menos um ano. Esse conjunto serviu de base para aquele último livro, ilustrado por Noêmia, como revelou a sua neta Maria Isabel Barrozo de Almeida.
5.
É sabido que os modernistas de modo geral tiveram consciência de seu papel histórico, preservando vasta documentação, mesmo tendo uma vida agitada de mudanças de endereço, viagens, guerras, separações amorosas etc. Entre outros documentos, cartas íntimas foram conservadas no arquivo do escritor, apesar do risco de serem mais tarde divulgadas, como no caso em questão. Ao montar este volume, inspirei-me na recomendação do poeta-soldado à sua mulher de conservar fotos, objetos, documentos diversos sobre o movimento de 1932, convicto de sua importância futura.
Uma sorte para o leitor, que terá agora um livro com pretensão de restaurar certa trama particular, num momento complexo da história paulista, a partir do ponto de vista desse casal. Ainda pode transformar-se numa espécie de voyeur, curioso por embrenhar-se pelo desenrolar desse distanciamento.
A partir de 25 de julho desse ano, começou essa nova série de correspondência entre Guilherme e Baby. Durou até 15 de agosto, quando o escritor retornou a São Paulo, chamado por Bertoldo Klinger, o comandante-militar daquela Revolução. Esse singelo conjunto funciona como porta-voz de estratégias políticas, socioculturais e afetivas; opera ainda como uma crônica das convenções sociais de determinada classe. Por exemplo, os envelopes, subscritos pelo poeta à sua mulher, não declaravam o nome civil dela.
Em todos esses paratextos o destinatário é invariavelmente a “Madame Guilherme de Almeida”, e o endereço, a residência do casal, Alameda Ribeirão Preto 12, mesmo se a carta fosse entregue por um portador amigo. Talvez uma artimanha para evitar a exposição pessoal da sua musa, ou seguir convenções de praxe de uma sociedade provinciana, em relação ao estatuto de uma mulher casada. Pode parecer espantosa tal atitude em se tratando de um escritor modernista militante, que pretendia, com sua atuação intelectual, quebrar paradigmas. Mas a historiografia literária brasileira do movimento revela esse tipo de contradição, unânime pelo menos entre os nomes mais conhecidos.
A disposição de modo contínuo da correspondência, nesta antologia, obedeceu à ordem cronológica de produção: numa parte, as de autoria de Baby; na outra, as do poeta. Num total de 42 cartas, todas autógrafas e à tinta, 21 de cada um. Preferimos não intercalar os textos dos dois missivistas, pois às vezes a resposta de um ou de outro não necessariamente coincidia. Havia uma quebra do ritmo temporal na sua recepção, alheia à vontade deles, como vamos ver.
6.
Uma das rotinas de Baby, nesse período de afastamento do amado, era levar suas cartas até a sede da Liga de Defesa Paulista (organizadora do “Batalhão de Doutores”), localizada no centro da cidade, na rua João Brícola, onde recebiam o carimbo vermelho, a fim de serem juntadas ao Correio Militar, antes de seguir para o campo de batalha, apesar das queixas generalizadas em relação à sua pontualidade. Ali, também se inteirava das novidades e recebia notícias do marido.
Havia ainda a possibilidade de usar o correio do MMDC (sigla de uma das organizações revolucionárias, a que homenageava os estudantes mortos em conflito de rua na capital, fato que apressou o início desse movimento, com as iniciais dos nomes de cada um: Euclides Miragaia, Mário Martins de Almeida, Dráusio Marcondes de Sousa e Antônio Camargo de Andrade), ou o serviço postal oficial, como fez Guilherme de Almeida.
Na sucessão dos textos, muitas vezes as notícias se repetiam, consequência de um embaralhamento na entrega, ocasionando algum ruído, pois nem sempre as cartas chegavam com regularidade, ou seja, na mesma ordem cronológica da sua concepção. Acontecia de receberem várias no mesmo dia, ou não, contribuindo para que o tempo da escritura ficasse muito afastado do momento da leitura. Apelavam também para a estratégia de confiar as cartas a algum conhecido de passagem pela região conflagrada, ou a combatentes em trânsito na capital.
Esses contratempos provocavam pequenos mal-entendidos, porque as cartas de Baby demandavam reação imediata, provocavam o diálogo, supunham uma resposta rápida. Processo natural nesse suporte caracterizado pela alternância emissor/receptor. Um ritmo vital em época de conflito e meios de comunicação precários, quando o telefone não funcionava a contento e era de acesso restrito, ou seja, para poucos, no interior do estado.
Trata-se de um agrupamento de cartas comuns, sobre coisas banais. Um comum diferente da reconhecida obviedade das cartas de outro poeta, Fernando Pessoa, à sua namorada Ophélia de Queiroz, detectada por Antonio Trabuchi (na sua bela introdução à edição desses textos), bem como longe da monumentalidade da correspondência de Lobo Antunes, proveniente da guerra colonial na África, para sua mulher. Distante também da linguagem ácida do humor negro das cartas de guerra de outro poeta – Jacques Vaché –, enviadas aos seus amigos surrealistas André Breton, Théodore Fraenkel e Louis Aragon.
Esse aparente “monumento de insignificância” (para usar a nomenclatura de Alexandre Eulalio, inspirada na observação de Augusto Meyer, em relação a uma carta de Machado de Assis), a depender da apropriação pessoal de cada leitor, pode reportar a determinada vigência histórica e social importante. E, conforme agudamente mostrou Alexandre Eulalio, pode oferecer bem mais do que apenas um “modelo de discreta insignificância”.
7.
Aqui interessa ressaltar a estatura das personalidades envolvidas e esse contexto. Não importa quão banal fosse o assunto dessas cartas de marido e mulher apaixonados. O alcance delas funcionava como um atenuante, em que cada um dos envolvidos tinha o poder, mesmo a distância, de participar da vida do outro, diminuir a nostalgia da presença interrompida provisoriamente e imaginar a antecipação do retorno breve; serviam também para medir a repercussão da luta na vida pessoal, dos seus familiares, dos amigos, e para também clarear os bastidores desse conflito.
A linguagem simples, em tom de conversa, dá conta da intimidade e do afeto do casal, a exemplo do tratamento carinhoso – “Guilherminho querido”, ou “baby meu amorzinho”, “baby adorada”, “baby meu amor”, “babyzinha”, “babyzinha querida”, “meu amor”, “meu amorzinho”. O registro é familiar, despojado, de uma clareza telegráfica no que diz respeito aos textos do Guilherme. Baby reclamava dessa brevidade, no seu entender, com descrições e dados insuficientes. Queixava-se ainda da sua inconstância. Injustamente, considerando o número de 21 cartas de cada um.
Encarava como uma desfeita (quebra do compromisso epistolar que supõe reciprocidade). Desejava receber uma espécie de diário exaustivo e era mais ou menos isso que exercitava: um diário da sua solidão, selecionando os assuntos menos complicados, a fim de não aborrecer o destinatário. Logo vinham desculpas e protestos do marido: “A vida aqui é uma pasmaceira. Uma pasmaceira entrecortada de boatos – e nada mais”; “Vida de soldado: caminhadas e trincheira”. Baby não levava em conta que o poeta também era atingido pela vagareza e pela precariedade dos correios, tendo acusado esses desencontros em várias ocasiões.
As escassas notícias do filho Guy (1924), por segurança deixado com o avô materno no Rio de Janeiro, traziam alegria e os acalmavam. Quando havia bombardeios e ataques de artilharia, Guilherme apressava-se em informá-la e apaziguá-la. Tentava convencê-la a não encarar a estrada ruim e as chuvas para ir visitá-lo, pois, no entender de todos eles, o desfecho do conflito era considerado sempre iminente (“a vitória está por dias”).
8.
O escritor poucas vezes usou o material gráfico personalizado da Liga de Defesa Paulista; preferia o bloco pautado aéreo comum. Uma única vez serviu-se do papel timbrado do Batalhão. Elaborava as suas cartas com esmero, geralmente sem invadir as margens da folha de papel. E, quando isso acontecia, era para estampar a assinatura, uma mensagem curta do amigo Carlos Pinto Alves e do irmão Tácito de Almeida a Baby, dar “Viva a S. Paulo” e recados rápidos: avisar a mãe que iria escrever, perguntar se Baby recebera a expressa etc.
Expedia sua correspondência pelo Correio Militar do MMDC, como indica seu carimbo vermelho nos envelopes pequenos e azulados, na sua maioria, ou de cor branca, destinados sempre para o endereço da residência do casal, em São Paulo. Uma única vez usou o correio comum, conforme atesta o selo que festejava o IV Centenário da Colonização do Brasil. No verso, à mão, apareciam invariavelmente as iniciais SATO; segundo os historiadores Hernani Donato e José Alfredo V. Pontes, tratava-se do Serviço de Abastecimento às Tropas em Operação.
Baby preferencialmente optava pelo bloco aéreo grande e comprido, sem pauta, na maioria das vezes, mas também escrevia em bloco comum pautado, onde se espalhava à vontade por toda a folha. O envelope em geral era branco padrão, embora Baby tenha apelado também para o material do Automóvel Club (com seu timbre vermelho, circular, e a bandeirinha no centro) e os da Liga, enfeitados pelo carimbo e pelo selo “São Paulo quer/ constituição/ ou morte”.
Era a primeira vez que os dois se distanciavam, daí a preocupação constante de ambos em demonstrar tranquilidade sobre o cotidiano. Baby procurava não lamentar a solidão e descrevia sua rotina na ausência do amado (busca por notícias do filho, o Neném, pagamento das contas, peripécias da gata Musmê, leituras etc.). Certamente sentia a presença do companheiro em cada canto da casa da Alameda Ribeirão Preto, um cenário comum aos dois e de muitas lembranças que parecia um ser vivo, um personagem: “A Musmê vai bem. A casa também”; “A casa vai bem”; “A casa aqui vai bem”; “Como vão todos? A nossa casa?”. Guilherme, nos momentos de folga, garimpava objetos antigos na pequena Cunha para decorá-la e opinava sobre sua adequação em algum dos seus recantos. Ainda não se tratava da encantadora residência da rua Macapá, 187, transformada em casa-museu depois da morte do poeta, com o apoio de sua viúva.
9.
Baby comentava as leituras de Marcel Proust feitas madrugada adentro; de L’amour est mon peché, de Hermine Lecomte du Noüy – que considerou “malsain e idiota”, injustificável a noite de sono perdida. Enumerava as visitas recebidas (a vizinha, as amigas, as cunhadas, cujos maridos também estavam na guerra). Acalmava-o: “Tenho te contado tudo sempre onde tenho andado”; Tenho te contado a minha vida toda”. Uma possível indicação da necessidade de apresentar um balanço em relação às suas atividades urbanas e sociais. Ou seja, prestar contas de tudo, pois estava morando sozinha, provisoriamente, sem o marido. Lembremos que ela declinou do convite para permanecer na casa da sogra, D. Angelina, preferindo ficar sozinha na sua residência.
A angústia de Baby era imaginar o amado em risco. Escrever, além de ser uma tática para aproximá-los, era um processo de preencher a ausência. Um paliativo, juntamente com a companhia do rádio – “um amigo”. Aliás, expressou de modo claro a função das cartas e da escrita em situações como estas: “A única coisa que eu faço com prazer hoje em dia é escrever. Não é que pense em escrever bem nem mal. Mas sempre é um consolo”; “Mesmo quando você não receber carta minha, fique certo que lhe escrevo todos os dias”.
Quando chegava correspondência, acusava o recebimento e agradecia: “Muito merci”. Da parte de Guilherme de Almeida, perpassava a mesma sensação: “Ontem não tive carta sua: pareceu-me um dia que não existiu, ou antes, que existiu demais, que não acabava nunca”.
A ausência os perturbava, sendo dramaticamente explicitada: “saudade é infinita”; “saudade inenarrável”; “saudade louca”; “saudade é enorme”; “saudade que é o meu purgatório”; “saudade que é o grande suplício coletivo”; “saudades é que são medonhas”. Guilherme de Almeida enviava violetas perfumadas dentro das cartas, e Baby retribuía perfumando as suas, causando um efeito devastador no marido, que pediu para ela parar, pois isso fazia a saudade aumentar. Por sinal, esse gesto de afetividade por meio das violetas transformou-se em motivo de chacota por parte dos adversários cariocas: diziam que o poeta tinha uma violetinha em cada casa do dólman.
Ambos adotavam um léxico próprio de afetividade, isto é, uma retórica pessoal, considerando que a correspondência poderia ser censurada. Para Baby, essa perspectiva era lamentável: “Muito desagradável e tira todo o it das cartas”. Construía uma estratégia estilística particular: começava de maneira abrupta; na maioria das vezes, antecipava a conclusão do texto em passagens longas, mas continuava o pré-fechamento: “E por hoje é tudo”; “Adeus”. Repetia muito as palavras: “Adeus adeus”; “Nenhum nenhum”; “Logo logo”.
Não era receptiva à pontuação; sua escrita caracterizava-se por um jorro de frases emitidas apressadamente, com o intuito talvez de não se esquecer de nada e não perder a partida do serviço postal daquele dia. Volta e meia, o casal recorria a palavras estrangeiras, sobretudo do francês, do espanhol e do inglês. Aliás, a paixão pela França e sua cultura manifestava-se nos mínimos detalhes: o nome Guy, em homenagem ao escritor Maupassant, escolhido para o seu único filho; seu pseudônimo Guy, nos muitos jornais e revistas em que colaborou; o hábito de endereçar o envelope usando “Madame”, no lugar de “Senhora”; a forma como anotava nesses envelopes o número do prédio, antes do nome da rua; as inúmeras traduções importantes realizadas, para citar apenas algumas: Poetas de França, Eu e você, Huis Clos e Flores do Mal etc.
10.
Além daquela cenografia doméstica, desenhava um quadro urbano próprio – uma certa cidade de São Paulo, comum aos carteadores: as saídas para jantar, a visita à Liga, onde poderia encontrar os amigos Antônio Carlos Couto de Barros, Bento Camargo, Vivaldo Coaracy, Mário de Andrade; a participação no trabalho social (costuras, embalagem das bandagens para os soldados); o contexto da Revolução: a repercussão do discurso do político gaúcho João Neves Fontoura, que conclamava “esperai, resisti, confiai”;11 a movimentação das tropas de outros estados. Dava notícias dos amigos comuns – “Brecheret de civil na rua, calmamente como se nada houvesse”; comentava sobre Antônio Gomide – “o pintor parece que levou um tiro por acidente na perna e também parece que prega ideias comunistas”. Observou, inclusive, a restrição aos combustíveis pelo governo. O trabalho das principais rádios – Record, Cruzeiro do Sul –, na cobertura do conflito, não foi esquecido. Avisou que o artista Januário cantara “A marcha” e que haviam divulgado “O passo do soldado” nas duas emissoras, ambas as peças de autoria do poeta; bem como as falas de Olívia Penteado e a leitura de cartas de Guilherme na Record etc. Comentou as manifestações de solidariedade dos amigos: Olívia Penteado, Carlota Pereira, Cecília Lebeis e Juvenal Penteado, entre outros. Este, depois de visitar as trincheiras, falou ao jornal O Estado: “Os Srs. Guilherme de Almeida, Tácito de Almeida e Carlos Pinto Alves zelam pelo bem-estar da força com carinho fraternal”.12
Não sossegava enquanto não tivesse certeza de que Guilherme estava bem agasalhado e alimentado. Uma tortura de listas de coisas do dia a dia supostamente de interesse do marido chegava via Correio Militar ou por particulares. Cobrava manifestação a respeito do recebimento de cada item e discorria sobre várias recomendações, a exemplo de uma mãe que escreve para o filho distante no colégio interno. Questionava insistentemente sobre as necessidades imediatas do marido. Enviava-lhe cigarros, pastilhas, fósforos, doce de leite, chocolates, balas, biscoitos, geleia, lâminas de barbear, boné, botinas, pijamas de flanela, meias de lã, chinelos, camisas, capacetes de lã, joelheiras etc., embora receasse o extravio das remessas. Lembrando-se do capacete de aço, sugeriu-lhe usá-lo com uma boina, “como os franceses na guerra”. É possível que a mera explanação em abundância desses detalhes pudesse produzir o efeito da presença do ser amado e abrandar a sua inquietação. Mas, certamente, esse excesso de cuidados levará o leitor a risadas.
O poeta não se cansava e respondia sinteticamente, a partir das cenas do conflito. A maioria de suas cartas não passava de uma folha de um bloco médio. Numa ocasião, quando excedeu essa medida, registrou com ironia: “3 páginas! Gostou?”. Além de escrever diariamente para sua mulher, também seguia nos intervalos com artigos para jornais, revistas, poemas, ensaios etc., e tentou escrever um pequeno diário específico da guerra. Escolheu ironicamente um bloco, cuja capa homenageava o Sete de Setembro, reproduzindo a gravura do Monumento do Ipiranga e a legenda “Independência”, logo abaixo, em destaque, numa moldura art nouveau. Sua caligrafia, bem miúda e nervosa, destoava de sua escrita habitualmente desenhada (ver anexo). Ainda dentro dessa moldura, as indicações, no centro, “Papel Superior”, e, no alto, Block n. 2. No lugar reservado à identificação, aparece o nome do escritor, Guilherme de Almeida, seguido do registro do local e da data: “Cunha, 29/VII/932”. Na realidade, o primeiro dia anotado foi o 26 – “chegada 24:15h”. Vejamos algumas das notações:
27 – almoço chove. Chico Amaral me dá um chocolate. Exercícios de Guerra.
O rádio. Voz de S. Paulo. Jantar no Dr. Moura
- – Bombardeio aéreo
- – Prontidão rigorosa
- – Bombardeio da Cidade 2hs
Mesmo ciente das atividades do seu interlocutor, Baby sentia- -se desprestigiada, diante da alegada falta de empenho na resposta a todos os questionamentos sobre os registros triviais do cotidiano. E as explicações pareciam-lhe insuficientes. Ela estava consciente de sua insistência nas recomendações, suplicando a todo momento que ele não se aborrecesse diante do exagero de atenção e não praguejasse nem sentisse ódio dela, num movimento circular de persuasão, na tentativa mútua de convencer e de influenciar a respeito de suas teses peculiares. Além disso, insistia em prestar contas de suas atividades sociais. Parecia querer lembrá-lo do antigo esquema familiar da cidade, pairando no ar a figura do marido provedor que, se por um lado a mulher tenta proteger, por outro receia melindrar.
Transparece nesse diálogo a precariedade das condições de sobrevivência da tropa com capacetes insuficientes (o batalhão chega à zona de guerra em 26 de julho, mas os capacetes apenas são recebidos cinco dias depois), falta de cigarros e agasalhos. O desabafo no diáriocitado dá o tom da melancolia em alguns momentos: “A gente vai pensando que tudo é contra Cunha; depois contra a trincheira da gente, depois contra cada um de nós”. Com bom humor, Guilherme manifestou os desentendimentos sutis na convivência entre os colegas de batalhão. Algumas notícias animavam a vida no fronte, como a medida do governo estadual que dobrava o salário dos combatentes. A recomendação era guardar o dinheiro. As despesas corriqueiras deveriam ser cobertas apenas com o pagamento feito pelo jornal O Estado de S. Paulo, relativo aos artigos ali publicados, que Guilherme enviava, nas suas cartas, e Baby se encarregava de entregar na redação. É bom frisar que o escritor não interrompeu sua atividade intelectual, agora voltada exclusivamente para o interesse de São Paulo.
Baby torcia para que o companheiro não ficasse doente nem desanimasse, pois a “vitória será breve e nossa”. Apegava-se com o seu santo de preferência: “Tenho fé em Deus e Santo Antônio (já estou pedindo àquele pequenininho de marfim que faz tudo o que eu peço) que vocês voltem logo, logo”; “Santo Antônio há de fazer com que isto tudo acabe logo”. Essa confiança no sucesso da luta era uma unanimidade mal calculada e marca das manchetes dos jornais locais, que se caracterizaram pelas manifestações exaltadas de inflamado ufanismo e sentimento de paulistanidade exacerbado, antes da revolta, durante e após a derrota.13 Não é à toa que a data magna do estado é 9 de Julho, dia do início dessa Revolução, ainda que São Paulo tenha sido derrotado.
Guilherme a todo momento lembrava o compromisso feito com o pessoal da Liga de permanecer nas trincheiras por um período curto, oito dias. Baby mostrava-se orgulhosa de sua atitude de se alistar “sem necessidade” e de se recusar a deixar o local da luta sem ordens expressas do comandante militar Bertoldo Klinger, apesar da sugestão insistente de licença por parte de Vivaldo Coaracy e Bento Camargo e das manifestações de esgotamento: “basta disto, para mim”. O retorno à capital, no dia 15 de agosto, a pedido do comando revolucionário, foi seguido de muito barulho – entrevistas, artigos, poemas etc. Guilherme passou a desempenhar as tarefas da Liga de Defesa Paulista, com artigos veementes enaltecendo os brios paulistas, sobretudo na direção do Jornal das Trincheiras, cujo último número é de 25 de setembro, poucos dias antes da rendição de São Paulo. A maioria dos paulistas continuou louvando o feito de 1932, sobretudo Guilherme. Encontramos uma notícia de que, em 1959, o poeta produziu a letra para a marcha francesa “Paris Belfort”, trilha sonora das rádios naquela época, gravada pela Odeon, com arranjos de Luiz Arruda Paes.
*Maria Eugenia Boaventura é ensaísta titular de literatura brasileira do Departamento de Teoria Literária da Unicamp. Autora entre outros livros, de Couto de Barros, a elite nos bastidores do Modernismo paulista (1896-1966). (Editora da Unicamp/ Ateliê).
Referência

Maria Eugenia Boaventura (org.). Cartas da trincheira: correspondência entre Guilherme de Almeida e sua musa (1932). Campinas/São Paulo, Editora da Unicamp, Editora da Unifesp, 2025, 136 págs.