Maria Eduarda Peloggia Lunardelli
Trata-se de cousa mais alta, trata-se de uma experiência científica. Digo experiência, porque não me atrevo a assegurar desde já a minha ideia; nem a ciência é outra cousa, Sr. Soares, senão uma investigação constante. Trata-se, pois, de uma experiência, mas uma experiência que vai mudar a face da terra. A loucura, objeto dos meus estudos, era até agora uma ilha perdida no oceano da razão; começo a suspeitar que é um continente.
Joaquim Maria Machado de Assis, nascido em 21 de junho de 1839, no Rio de Janeiro, se consagrou como um dos maiores nomes da literatura brasileira por suas obras marcantes e inteligentes. Através de romances, como Dom Casmurro (1899), Memórias póstumas de Brás Cubas (1881) e Quincas Borba (1891), ou por meio de contos e novelas, como Relíquias da casa velha (1906), Várias Histórias (1896), Papéis Avulsos (1882) e O Alienista (1882), o ilustre escritor deixou a sua marca na trajetória literária de todo leitor, seja ele brasileiro ou não, ao apresentar um tom humorístico, irônico e crítico na grande maioria de suas histórias.
As características peculiares das obras de Machado – além do esforço evidenciado nos textos para que as realidades das histórias sejam reflexos e caricaturas da sociedade – fazem com que o leitor se veja envolvido pelas narrativas e sinta não apenas apego e compreensão para com as personagens, mas também irritação, raiva e curiosidade diante de suas façanhas. Por conta disso e de sua atemporalidade, esses textos passaram a conquistar cada vez mais visibilidade e espaço no mercado exterior, sendo traduzidos para diversos idiomas, tais como inglês, alemão, italiano, espanhol e chinês.
Sendo assim, a Editora da Unicamp, por meio da Série Clássicos da Literatura Chinesa e Brasileira, publicou a edição bilíngue de uma das novelas mais famosas do autor, O Alienista. Pensado para servir como material didático para chineses estudantes do português e para lusófonos aprendizes de mandarim, o livro conta com tradução de Min Xuefei, tradutora e professora chinesa da Universidade de Pequim, que foi também responsável por traduções de Clarice Lispector e Fernando Pessoa. Além de possuir apresentação que contextualiza a sociedade brasileira do século XIX, o livro destaca aspectos culturais, políticos e financeiros da época e apresenta a grande figura de Machado de Assis.
O Alienista, nesse sentido, é uma espécie de resumo da questão da loucura em Machado, e sua graça provém de tematizar, em clave satírica, a impossibilidade, dentro dos parâmetros da psiquiatria do tempo, de determinar os limites da sanidade e da loucura. Em certo sentido, a novela pode ser entendida como uma glosa, atualizada pelos debates médicos contemporâneos, do ditado popular “de médico e de louco, todo mundo tem um pouco”.
Seria possível diagnosticar, com segurança, qual é o padrão para a normalidade? A sanidade absoluta garante o título de normal? A falta da razão total e da utilização da lógica no cotidiano faz com que o indivíduo seja louco? São algumas das questões que norteiam o livro.
A história de O Alienista gira em torno desses dilemas, apresentando a busca da compreensão entre o que seria normalidade e o que seria fuga da normalidade. Protagonizada pelo ilustre e influente Dr. Simão Bacamarte, “filho da nobreza da terra e o maior dos médicos do Brasil, de Portugal e das Espanhas”, a narrativa apresenta os desenvolvimentos e as repercussões de sua pesquisa científica sobre doenças e transtornos mentais, na qual o principal objetivo seria alcançar com precisão os limites entre sanidade e loucura.
A novela, que apresenta a todo momento tons irônicos e satíricos, traz à tona questões sobre o poder de intervenções sociais, a idolatria da ciência, as discrepâncias e semelhanças entre revoluções e reformas, além de questões de interesses pessoais, que prendem a atenção do leitor justamente por se tratarem de temas comuns do cotidiano, mas de uma forma divertida e intrigante.
Nesse sentido, a famosa Casa Verde da história mostra-se também como um reflexo da realidade, retratando a forma em que se encontravam as Casas de Orates, os asilos para loucos, no século XIX. A casa de infância do Dr. Simão Bacamarte ganha espaço e visibilidade após o médico transformá-la em um ambiente científico, que visa o bem-estar público. Contudo, o que era, em um primeiro momento, compreendido como local de estudos e reabilitação para pessoas afetadas por problemas mentais, passa a ser conhecido como a “Bastilha da razão humana”, lugar onde qualquer pessoa, de maior poder social ou não, que apresentasse traços de algum problema mental – de acordo apenas com a opinião do Dr. Bacamarte –, poderia ser apreendida e mantida sob observações médicas. Entretanto, a situação da casa de loucos acaba por sair do controle tanto do governo quanto do médico, gerando uma enorme insatisfação popular, o que resulta em uma alteração forçada dos seus meios de estudo e de sua percepção sobre a loucura.
Em suma, O Alienista, em sua edição bilíngue português-chinês, transforma um dos clássicos da literatura brasileira em um instrumento didático que não apenas auxilia estudantes no processo de aprendizagem do chinês e do português, mas também contribui para a disseminação e a popularização dessa grande obra de Machado de Assis.
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Autor: Machado de Assis
Tradução: Min Xuefei
ISBN: 978-85-268-1713-5
Edição: 1ª
Ano: 2024
Páginas: 184
Dimensões: 10,5 x 18 cm