
Jornal da Unicamp – Quais foram as motivações para a escrita do livro? Por que a violência na literatura figura como mote dessa coletânea?
Organizadores – Desde 2008, reunimo-nos para investigar a violência e suas relações com a literatura, a cultura e outras formas de arte, com a criação do Laboratório de Estudos do Horror e da Violência na Cultura, o Lehvic. Esse laboratório, que existe até hoje ocupando um espaço físico na UFMS, em Campo Grande, promove reuniões de estudo e participa da organização de eventos. A motivação inicial para o estudo da violência de modo relacional surgiu de ilações de Rosana Santos, sobre o colonialismo na obra do britânico Joseph Conrad e o pós-colonialismo na obra do escritor português António Lobo Antunes e sobre como a violência compõe um quadro cujo sentido é o horror, o que acabou se espraiando para outros objetos literários, especialmente os hispano-americanos, e artísticos.
JU – Como se deu a escolha dos temas e dos autores dos capítulos?
Organizadores – Nós, os organizadores, pesquisamos juntos desde a criação do Lehvic e do envolvimento com suas ações realizadas fora dos muros da UFMS, como na UEMS, onde Andre Benatti é professor efetivo. Sendo assim, fomos, de modo rizomático, construindo e participando de redes de pesquisa nacionais e estrangeiras responsáveis por nos impulsionar à ação que culminou na organização da coletânea Sob os Signos da Violência. Destacamos como espaços coletivos e colaborativos para nossos contatos os grupos de pesquisa da Associação Nacional de Pesquisa e Pós-Graduação em Letras e Linguística, a Anpoll, e os diretórios de pesquisa do CNPq [Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico].
JU – Há outros recortes (temporal, regional etc.) para além do temático? Quais outros fatores contribuem para a unidade da obra?
Organizadores – A unidade temática é garantida pelo viés da violência, não havendo qualquer outra orientação para além da manutenção desse tema quando do convite aos autores. Em um primeiro momento, pensávamos que nos chegariam colaborações sobre as conexões da violência com outros objetos artísticos. O foco dos colaboradores, porém, foi na literatura. Graças ao envolvimento dos organizadores com o tema, estamos no início de um novo projeto de investigação, cuja visão principal é a representação da violência em narrativas literárias escritas por mulheres em Mato Grosso do Sul.
JU – Como vocês enxergam a evolução das representações da violência na literatura latino-americana, ao longo dos últimos 20 anos?
Organizadores – No artigo intitulado “Ilusão e referencialidade: tendência da narrativa brasileira contemporânea”, Regina Dalcastagnè (2007) adverte sobre como os escritores também são agentes sociais, sujeitos críticos de determinados comportamentos. Nesse rumo, a violência na literatura latino-americana, nos últimos 20 anos, surge como uma temática já indiciada nos textos literários, desde os primórdios da colonização ibérica. Porém, até há pouco tempo, deixada ao largo, afinal, a violência foi/é um dos elementos constitutivos de nossas sociedades, uma assertiva adequadamente exposta por Jaime Ginzburg (2013) em Literatura, violência e melancolia. Sendo assim, cabe à crítica literária contemporânea, que também é cultural e política, analisar/demonstrar o que na materialidade textual caracteriza a presença da violência.
JU – Quais contribuições o livro traz para o campo dos estudos literários? Quais novidades apresenta?
Organizadores – Respondendo às duas questões, dois pontos parecem-nos significativos, ambos destacados por Wellington Ramos no prefácio da coletânea: a violência na América Latina como marca de mecanismos de opressão, de hierarquização e de colonização econômica e cultural e o esforço de ressignificar a beleza como conceito estético por meio da dor e do horror são nossas contribuições para a área. Talvez não se trate de grandes novidades. Contudo, se os nossos futuros leitores sentirem-se tocados a ponto de lerem os textos literários em discussão nos artigos, teremos alguma certeza de que os afetamos.
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Organização: Andre Rezende Benatti, Rosana Cristina Zanelatto Santos, Wellington Furtado Ramos
Edição: 1ª
Ano: 2024
Páginas: 248
Dimensões: 14 cm x 21 cm