Como falar com um negacionista da ciência: o diálogo como combate à desinformação

Por Ana Alice Kohler

O fim do século XX representou, para muitos, o início de um novo ciclo e uma promessa de um futuro mais próspero e tecnológico. Grande parte do entusiasmo com relação ao digital deu-se, é claro, pela popularização dos telefones celulares e da internet (grandes símbolos da “era da informação”), em que todos teriam acesso irrestrito ao conhecimento produzido pela humanidade. O que se deu, entretanto, foi algo próximo do contrário. À medida que os anos avançaram, percebeu-se que, apesar da difusão facilitada da informação, o mundo digital também se tornou um espaço de amplificação de mensagens incorretas, processo evidenciado pelas fake news. É tentando lidar com as consequências dessa profusão de desinformação que surgiu o livro Como falar com um negacionista da ciência, publicado pela Editora da Unicamp.

A obra, que faz parte da Coleção Meio de Cultura, foi escrita por Lee McIntyre e traduzida para o português por Cynthia Costa. A coleção pretende trazer, em textos acessíveis, os erros e os acertos no caminho do desenvolvimento científico responsável pelo nosso modo de vida atual. Como falar com um negacionista da ciência, nesse sentido, oferece ferramentas para o combate à desinformação e relata experiências pessoais do autor na defesa da confiabilidade da ciência.

Lee McIntyre é Ph.D. em Filosofia pela Universidade de Michigan, pesquisador do Centro de Filosofia e História da Ciência da Universidade de Boston e instrutor de Ética na Harvard Extension School. Seus principais temas de estudo são a filosofia da ciência e a validação social da produção científica. Cynthia Costa é graduada em jornalismo e doutora em Estudos da Tradução pela Universidade Federal de Santa Catarina e pela Universidade de Yale. Atualmente, realiza pesquisas nas áreas de Adaptação, Tradução e Recepção e atua como professora no curso de Tradução da Universidade Federal de Uberlândia. 

O livro é dividido em oito capítulos, além de uma Introdução e um Epílogo, e trata do tema a partir de questões comuns do negacionismo, como o terraplanismo e o movimento antivacina. Assim, após breves agradecimentos, Lee McIntyre introduz a questão relatando o caminho que o levou a comparecer, em dezembro de 2018, à Conferência Internacional da Terra Plana, no estado americano do Colorado. Essa decisão de se “infiltrar” em meio aos terraplanistas surgiu, segundo o autor, de relatos e de pesquisas empíricas com os quais teve contato e que o fizeram adotar uma postura de combate face a face com o negacionismo, tema explorado em outras de suas obras. McIntyre pretendia, portanto, por meio do diálogo respeitoso, promover a mudança de pensamento nos mais radicais dos negacionistas da ciência, na esperança de que suas estratégias de raciocínio pudessem ser as mesmas de outros grupos, como aqueles que negam as mudanças climáticas, e assim houvesse uma chave para a luta contra a desinformação.

O primeiro capítulo de Como falar com um negacionista da ciência, intitulado “O que aprendi na Conferência da Terra Plana”, trata justamente dessa primeira tentativa do autor de compreender e combater a forma de pensar de quem nega o conhecimento científico. Nele, Lee McIntyre evidencia, durante o relato de sua experiência, como a simples refutação por meio de evidências científicas não basta para transformar a mentalidade dos que são convencidos de possuírem uma verdade revelada. O autor partiu, então, para outra estratégia: “Sou filósofo e tinha ido falar sobre como eles estavam ‘raciocinando’”. McIntyre, além de investigar os processos lógicos que levavam os terraplanistas a negarem milênios de conhecimento humano, procurou também encontrar suas motivações. A maneira de pensar dos participantes da Conferência em tudo se diferenciava do pensamento científico, era por vezes relacionada à crença religiosa e fazia parte de um sistema de conspirações maior. Além disso, o autor ainda encontrou outro denominador comum: grande parte dos terraplanistas com quem conversou “converteu-se” após um evento traumático em que “a verdade lhes foi revelada”.

Ali naquele ambiente, concluí que talvez a Terra Plana não fosse tanto uma crença que alguém aceitaria ou rejeitaria com base em evidências experimentais, mas sim uma ‘identidade’. Algo que poderia dar propósito à vida de alguém. Capaz de criar uma comunidade instantânea, unida por uma espécie de perseguição comum.

No segundo capítulo, chamado “O que é o negacionismo da ciência?”, Lee McIntyre detalha a estrutura do pensamento negacionista a partir de cinco premissas já estabelecidas previamente por outros cientistas: presença de evidências seletivas, crença em teorias da conspiração, confiança em falsos especialistas (e difamação dos verdadeiros), raciocínio ilógico e expectativas impossíveis de serem alcançadas pela ciência. Esses tropos, entretanto, não são considerados separadamente pelos negacionistas, que os combinam arbitrariamente em suas explicações mirabolantes, e não são específicos de um grupo, mas constituem a base de todos os sistemas de pensamento que negam a verdade científica.

Já, no terceiro capítulo, “Como fazer alguém mudar de ideia?”, o autor defende que é possível que negacionistas da ciência mudem sua mentalidade, como comprovado por estudos empíricos e relatos pessoais. Mais do que isso, McIntyre revela quais são as melhores estratégias para tentar convencer alguém de que sua crença está equivocada, como a refutação por técnica e a por conteúdo. A importância de criar relações de respeito e confiança com as pessoas, nesse sentido, não deve ser subestimada, já que esta é base para uma maior abertura ao diferente.

Assim como o primeiro capítulo da obra abordou especificamente um tipo de negacionista da ciência, os terraplanistas, o quarto capítulo, “Encontros imediatos com as mudanças climáticas”, trata do que o autor considera como o tipo de desinformação mais perigosa da atualidade: a negação do aquecimento global. Para Lee McIntyre, a ignorância da população, principalmente a americana, acerca do consenso científico sobre o tema tem relação direta com os jogos de poder de grandes empresas de ramos, como o do petróleo. E, para demonstrar como a negação das mudanças climáticas opera, o autor relaciona-a com os tropos levantados no capítulo 2. Por fim, ainda é narrada a viagem de McIntyre para as Maldivas, em que entrou em contato direto com os efeitos do aquecimento global pela observação dos recifes de corais mortos.

Lee McIntyre aprofunda a questão das mudanças climáticas no próximo capítulo, “Luz no fim da mina de carvão”, em que relata suas conversas com mineradores, aqueles que trabalham com o combustível cuja queima é a principal causadora do efeito estufa. Assim, outras questões entram em jogo na discussão acerca do aquecimento global, como o impacto econômico das fontes de energia e a ideologia política por trás das crenças de cada um. Aqui, o filósofo traça um paralelo entre a mudança climática e a crise sanitária causada pela covid-19. Apesar de a última ter acontecido em um ritmo mais acelerado que a primeira, ambas são catástrofes que poderiam ser evitadas ou mitigadas pela ação humana, que atingiram o planeta inteiro e que foram, por vezes, negligenciadas em nome de razões econômicas.

A questão política volta a aparecer no capítulo 6, “Organismos geneticamente modificados: existe um negacionismo da ciência de esquerda?”, em que McIntyre questiona a possibilidade de uma maior suscetibilidade ao negacionismo estar associada a um posicionamento de direita. Além de citar o exemplo do movimento antivacina, que encontra adeptos ao longo de todo o espectro político, o autor evidencia o caso da desconfiança nos OGMs (organismos geneticamente modificados), que vem ganhando força nas últimas décadas com os liberais americanos. Assim como os outros grupos que questionam a credibilidade da ciência, aqueles que demonizam alimentos melhorados artificialmente sem que haja comprovação de seus malefícios se encaixam nas características elencadas anteriormente: presença de evidências seletivas, crença em teorias da conspiração, confiança em falsos especialistas, raciocínio ilógico e expectativas impossíveis de serem alcançadas pela ciência.

O tema é debatido mais profundamente no capítulo 7, “Construindo confiança”, em que o autor se utiliza de duas estratégias para tratar da pergunta: “haveria um negacionismo de esquerda?”. Primeiramente, McIntyre relata experiências pessoais com “negacionistas dos OGMs”, em conversas com amigos de longa data que eram contra transgênicos e partilhavam de uma ideologia de esquerda. Logo após, o autor trata de pesquisas empíricas realizadas no sentido de investigar se a desconfiança na ciência estava relacionada a um posicionamento político específico. O filósofo não apresenta uma resposta única e simples, mas ressalta o perigo da polarização e da politização no que ele chama de “era da ‘pós-verdade’”.

Essa desconfiança nos fatos empíricos ficou ainda mais evidente com a pandemia de convid-19, tema do último capítulo de Como falar com um negacionista da ciência, “Coronavírus e o que está por vir”. O autor explora, nessa parte, como a experiência da pandemia possibilitou que assistíssemos a desconfiança na ciência nascendo e tomando força, o que permitiu que estudiosos como McIntyre aprofundassem sua compreensão acerca do funcionamento do negacionismo e suas consequências nefastas. A lição mais importante, entretanto, é a de como combater essa mentalidade nociva. Assim, o autor reúne algumas das ferramentas que desenvolveu ao longo do processo de escrita do livro e que podem ajudar aqueles que buscam convencer os negacionistas da validade da ciência. 

Lee McIntyre ainda ressalta, no Epílogo, os desafios das fake news, da desinformação e do negacionismo, que permanecem vivos mesmo após o fim da pandemia. Novamente, ele insiste na solução que propôs durante todo o livro: o diálogo. Para o autor, a resposta mais importante de Como falar com um negacionista da ciência está no próprio título: devemos “falar” uns com os outros.

Do pescador das Maldivas ao mineiro de carvão da Pensilvânia. Dos pais que têm medo de vacinas ao profissional de saúde que trabalhou na linha de frente, durante a crise da covid. “Ninguém se importa”, disse aquele garoto para mim no barco nas Maldivas. Eu discordo. Se reconstruirmos a confiança por meio de conversas renovadas, poderemos resolver os problemas de crença, cuidado e ação de uma só vez.

Para saber mais sobre o livro, visite nosso site!

Como falar com um negacionista da ciência: conversas com terraplanistas e outros que desafiam a razão

Autor: Lee McIntyre

ISBN: 9788526816312

Edição: 1ª

Ano: 2024

Páginas: 400

Dimensões: 14 x 21 cm

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