Por Ana Alice Kohler
Ao fim da Antiguidade Clássica, apagaram-se as luzes do conhecimento e da cultura e a Europa entrou em uma “longa e tenebrosa noite de mil anos”. É assim que é conhecido o período denominado como “Idade Média” ou “Idade das Trevas”, que compreende os séculos IV ao XV e foi assim caracterizado diante do chamado “Século das Luzes”, o século XVIII, responsável pela criação desse estigma. A Coleção Estudos Medievais da Editora da Unicamp apresenta ao leitor uma nova visão acerca desse período, oferecendo ao público interpretações recentes que transformaram paradigmas históricos e inovaram o campo da pesquisa na área. A coleção é coordenada por Néri de Barros Almeida e as obras tematizam diferentes aspectos da chamada Idade Média, das Guerras Santas ao nascimento dos cemitérios.
Nesse sentido, o novo livro da coleção, Impérios e trocas na Antiguidade Tardia Eurasiática: Roma, China, Irã e a estepe por volta de 250-750, integra-a como uma forma de evidenciar o diálogo entre a Idade Média e a Antiguidade Tardia. O livro, organizado por Nicola Di Cosmo e Michael Maas, foi recentemente traduzido para o português por Felipe Vale da Silva. A obra tematiza um período que vai do início do século III até meados do século VIII e trata dos povos que se estendiam da Europa Oriental à China, seguindo uma abordagem que evidencia os diferentes modos de vida, expressão e dominação dos grupos que habitavam a região e, principalmente, seus movimentos de agregação e intercâmbio.
Nicola Di Cosmo é professor na Fundação Henry Luce de Estudos do Leste Asiático no Instituto de Estudos Avançados e ocupou cargos na Universidade de Cambridge, na Universidade de Harvard e na Universidade de Canterbury. Seu principal campo de pesquisa é a história da relação entre a China e a Ásia Interior e suas publicações tratam do período que vai da pré-história chinesa à modernidade. Michael Maas é professor de história pela cátedra William Gaines Twyman na Rice University e diretor do programa de Estudos sobre Antigas Civilizações Mediterrâneas. É ex-diretor de Estudos Bizantinos em Dumbarton Oaks e publicou extensivamente sobre a Antiguidade Tardia. Felipe Vale da Silva é doutor em Literatura Alemã pela Universidade de São Paulo e pós-doutor em Letras afro-americanas pela Universidade Federal de Goiás. Atua como tradutor de alemão e inglês e, em 2019, recebeu o Prêmio Jacó Guinsburg de melhor tradução, concedido pela Associação Brasileira de Estudos Germanísticos.
Impérios e trocas na Antiguidade Tardia Eurasiática: Roma, China, Irã e a estepe por volta de 250-750 é dividido em três partes, que somam 26 capítulos de autoria de diferentes especialistas da área. Além disso, o leitor ainda encontra um Prefácio especial à edição brasileira escrito por Néri de Barros Almeida, coordenadora da coleção, e um Posfácio de Averil Cameron, professora de Antiguidade Tardia e História Bizantina em Oxford. Assim como o original, a tradução em língua portuguesa também possui uma Apresentação escrita pelos organizadores, além de um Prefácio com agradecimentos e um conjunto de mapas que auxiliam na compreensão do conteúdo da obra.
Desde o início da leitura, o leitor dá-se conta da importância de uma tradução como essa, já que com a nova edição os falantes de língua portuguesa poderão ter contato com uma concepção de história que evidencia, segundo Néri de Barros Almeida, “a dimensão elementar de como a nossa habitação é planetária”. Para ela, este é o maior objetivo do livro: demonstrar como a vivência humana é múltipla, mas deve ser estudada de forma integral, evitando isolar povos que, apesar de diferentes, são membros de uma mesma espécie:
Essa aversão à dimensão planetária de nossa existência manipula nosso natural egocentrismo em favor dos mitos nacionais e mesmo de separatismos locais baseados em experiências supostamente originais e fechadas, obscurecendo o fato de que somos uma mesma espécie que compartilha uma herança, que vive o mesmo processo evolutivo orientado por uma biosfera que aos poucos desaparece sob as ações a que nos submetemos dia a dia.
No Prefácio e Agradecimentos, Nicola Di Cosmo e Michael Maas apresentam a composição do livro, que pretende tratar, de modo integrado, do meio milênio entre 250 e 750 E.C., na região que vai de Roma à China, e é formado por capítulos autossuficientes de autoria de pesquisadores de todo o mundo. Além disso, o livro é dedicado a um de seus colaboradores, Mark Whittow, que faleceu durante o processo de edição da obra.
Na Apresentação, os organizadores tratam do recorte histórico feito na escrita dos ensaios, da organização da obra e da importância da pesquisa que considera a Eurásia da Antiguidade Tardia: “Durante os cerca de cinco séculos aqui tratados, esses amplos territórios e suas multíplices populações testemunharam o surgimento de uma nova ordem mundial, com sistemas culturais, religiosos e políticos manifestamente distintos daqueles da chamada Antiguidade Clássica – em âmbitos romano, chinês e persa – que os precederam”.
A primeira parte de Impérios e trocas na Antiguidade Tardia Eurasiática: Roma, China, Irã e a estepe por volta de 250-750, chamada “Limiares históricos”, contém oito capítulos e trata do panorama histórico da Eurásia Continental, explicando o funcionamento das dinâmicas sociais e políticas que abrangiam as diferentes civilizações da época. São analisadas as relações entre os romanos e as estepes, as fronteiras dos povos nômades com a China e, por fim, o papel central do Irã para uma cosmologia régia compartilhada com monarcas romanos e chineses. Assim, os primeiros capítulos evidenciam a profundidade do tema e, principalmente, o nível de integração entre os diferentes povos da época, que entraram em contato principalmente pela chamada “Rota da Seda”, “central para o fluxo de poder e prestígio na Europa Oriental”.
Já a segunda parte do livro, “Movimentos, contatos e transações”, trata dos importantes intercâmbios realizados entre os povos que habitavam os continentes europeu e asiático. São nove capítulos que discorrem sobre as migrações genéticas, a elasticidade de conceitos historiográficos como “etnia” e “identidade política” e as narrativas de migração e conquista propagadas ao longo da história. Além disso, essa seção trata das transações culturais entre os diferentes impérios, o que evidencia a questão da tradução como um meio de expansão cultural de saberes como a astrologia e de religiões como o cristianismo e o budismo.
Por fim, a terceira e última parte do livro, “Impérios, diplomacia e fronteiras”, também com nove capítulos, trata das reestruturações políticas pela qual impérios como o sassânida (região do atual Irã) tiveram que passar diante das transformações culturais da época. Nesse sentido, alguns dos ensaios focam nas disputas ideológicas travadas no interior das elites locais, mas também dos conflitos simbólicos entre cortes distintas, como as túrquico-mongóis e chinesas. Os nômades apátridas das estepes também são tema dessa parte, que investiga a organização política dos grupos não imperiais.
Impérios e trocas na Antiguidade Tardia Eurasiática: Roma, China, Irã e a estepe por volta de 250-750, portanto, traz à tona o conceito de “Antiguidade Tardia Eurasiática”, que surgiu de uma primeira conferência realizada pelos organizadores em 2013 e gerou grande parte das discussões do livro. Essa nova concepção histórica permite compreender as “inúmeras mudanças e contatos remotos; a dissolução e o surgimento de impérios; a movimentação por vastas distâncias de ideias, religiões, povos, línguas e bens; além do aparecimento de novos povos no cenário mundial”. A obra, por fim, abre um novo caminho nos estudos da Antiguidade Tardia e da Idade Média, e, nas palavras dos organizadores, “oferece unicidade naquilo que outrora era visto como fragmentário e dissociado”.
Para saber mais sobre o livro, visite o nosso site!

Organização: Nicola Di Cosmo, Michael Maas
ISBN: 978-85-268-1620-6
Edição: 1ª
Ano: 2023
Páginas: 696
Dimensões: 16 x 23 cm
Acredito tratar-se de uma grande obra. Qual é o preço desse livro?
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