Lido e traduzido: o frenesi pasoliniano nos trópicos

Por Gabriel de Lima

Completando-se um centenário de seu nascimento, Pier Paolo Pasolini, mais do que um poeta bolonhês, configura-se como um dos maiores filósofos italianos do século XX – respeitado dentro e, em especial, fora da Itália –, sendo que o seu pensamento amplamente crítico ainda repercute na contemporaneidade. A precoce paixão pelas letras, que o levou a se graduar em literatura no ano de 1939, passou por um desdobramento ao longo da carreira intelectual de Pasolini, abrangendo posteriormente sua produção cinematográfica e seu ativismo sociopolítico. Assassinado de forma brutal, o “poeta das cinzas” deixou um legado não só para a sua pátria, mas também para outros países que compartilham de algumas semelhanças com a realidade italiana.

Após navegar no mar Mediterrâneo, a filosofia pasoliniana atravessou o Atlântico, encontrando uma grande receptividade em um Brasil, econômica e politicamente, fragilizado. Assim, desde os idos de 1960 até o momento atual, desenvolveu-se uma corrente de intelectuais brasileiros que, ao examinarem as mais diversas facetas de Pier Paolo Pasolini, foram e são inspirados por estas em uma nova perspectiva sobre a arte, o caráter humano e as relações de poder na modernidade. Compilando 17 ensaios diversificados pela temática e autoria, a obra Um intelectual na urgência: Pasolini lido no Brasil, organizada por Maria Betânia Amoroso e Cláudia Tavares Alves, é mais um lançamento da Editora da Unicamp em coedição com a Editora Unesp. Além daqueles produzidos justamente para esse livro, “somaram‑se [outros] textos considerados fundamentais para pensar a presença de Pasolini entre nós”, como, por exemplo, os artigos publicados por Ruggero Jacobbi e por Alfredo Bosi nos anos 1960.

Mais do que objetos de análise, os escritos de Pasolini podem funcionar, de acordo com especialistas, como uma espécie de “modelo”, de “sistema” analítico na decifração das instituições e dinâmicas que envolvem o presente, refletindo “sobre o impasse da civilização ocidental, assim como do Brasil”. A pluralidade dos textos contidos nesta coletânea reflete o teórico multifacetado que foi Pasolini, um ensaísta italiano que encontrou, tanto na poesia quanto na dita sétima arte – o cinema –, suportes para a estruturalização e a viabilização de sua filosofia.

Enquanto um filósofo poético, torna-se visível um distanciamento entre o pensamento pasoliniano e a complexa linguagem filosófica então corrente, que é contraposto por um experimentalismo que permeia toda a produção intelectual do “poeta das cinzas”. Michel Lahud, Ernani Chaves e Ettore Finazzi‑Agrò – nomes importantes da Filosofia e da História no Brasil – são alguns dos autores que destacam a personalidade questionadora de Pasolini em face de seu mundo e dos acontecimentos – traumáticos – recentes. Para esse intento, os termos “paixão” e “ideologia”, marcas registradas do intelectual italiano, são utilizados e pormenorizados de modo recorrente, sendo presentes até em alguns dos títulos dos ensaios de Um intelectual na urgência: Pasolini lido no Brasil.

A figura pasoliniana, enquanto um cineasta filosófico, se assoma no cenário artístico da Itália do século XX, um país em frangalhos que, após o fim das Guerras Mundiais, tentava recompor sua identidade e soberania nacional. “As relações intrínsecas entre crítica, poesia e política” fizeram com que a escrita de Pasolini se tornasse altamente potente tanto na denúncia das injustiças do presente quanto na elaboração de possibilidades de futuro com base nas problemáticas atuais. Eduardo Sterzi, Ismail Xavier e demais autores e autoras que integram esse livro e que são reconhecidos dentro da Teoria e Crítica Literária, da Linguística ou dos estudos cinematográficos esmiúçam a imponência das criações pasolinianas, traçando diálogos de uma Itália pós-fascismo com uma nação subdesenvolvida de dimensões continentais.

Cláudia Tavares Alves foi orientanda, no doutorado, de Maria Betânia Amoroso, professora colaboradora no Departamento de Teoria Literária da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). Em uma sólida parceria, ambas são as organizadoras de Um intelectual na urgência: Pasolini lido no Brasil e produziram, para além de seus próprios ensaios, uma apresentação à obra, na qual explicitam a importância acadêmica de tal publicação no centenário de Pier Paolo Pasolini.

Crítico feroz do modelo de vida burguesa e dos impactos, diretos e indiretos, gerados por este na dinâmica mundial, Pasolini teve, “somente no físico e na sexualidade”, “a sobrevivência de uma natureza não contaminada pelo ‘mal burguês’, isto é, vital e livre do sentimento de culpa e do pecado” que perdura desde a Era Moderna. Teórico aclamado nos estudos pasolinianos, Giona Tuccini é o autor dessa afirmativa, que está compreendida no prefácio escrito por ele. Nesse sentido, Tuccini ressalta o emprego do dialeto por Pasolini, que estaria relacionado com a busca por uma linguagem – imensamente experimental – que se afastasse “da vulgaridade do mundo”, sendo que esse descolamento da realidade burguesa apresenta “um novo código de comunicação e de luta política, no qual escritores [brasileiros] de todas as ordens e graus se reconhecem até hoje”.

Em Um intelectual na urgência: Pasolini lido no Brasil, percebe-se que o intelectual italiano supera os limites de seu próprio texto, desembarcando nos trópicos e fincando o seu nome dentro das Humanidades no Brasil. Talvez a estada de Pasolini em solo tropical, na década de 1970, corrobore essa afirmação. A única constatação que de fato pode ser feita é a primazia de todos os que colaboraram na publicação dessa obra crítica por um tratamento de “Pasolini, portanto, como filósofo, como pensador em todos os âmbitos de sua obra”, como um questionador incessante da Modernidade.

Para saber mais sobre o livro, visite o nosso site!

Um intelectual na urgência: Pasolini lido no Brasil

Organizadoras: Maria Betânia Amoroso e Cláudia Tavares Alves

ISBN: 978-85-26815-58-2

Edição: 1a

Ano: 2022

Páginas: 296

Dimensões: 16 x 23 cm

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