A lírica camoniana: clássico que arde e não se esgota

Por Beatriz Burgos

O movimento cultural, econômico e político conhecido como Renascimento, que teve início no século XIV e se estendeu até o século XVII por toda a Europa, impactou diretamente a ciência e diversos campos do conhecimento, entre eles a literatura. Com o retorno aos clássicos entre suas grandes características, a escola literária conhecida como Classicismo se desenvolveu nesse contexto histórico. O interesse pela cultura greco-romana já vinha ocorrendo desde o final do século XIII na Itália, onde escritores e intelectuais, como Dante Alighieri, Petrarca e Boccaccio, humanistas, liam e traduziam autores clássicos.

É também nesse período histórico-cultural que a forma poética soneto, originada no sul da Itália no século XIII, é aperfeiçoada, profundamente difundida e estabelecida como uma composição tradicional, permanecendo até hoje a mais famosa da lírica ocidental. O soneto é um poema de forma fixa: 14 versos decassílabos distribuídos em quatro estrofes, sendo elas dois quartetos e dois tercetos. Foi principalmente com essa breve forma lírica que Luís Vaz de Camões, considerado uma das maiores figuras da literatura lusitana e universal, passou a expressar sua poesia e se eternizou na literatura. 

Em 20 sonetos, obra publicada pela Editora da Unicamp em 2018 e parte integrante da lista de leituras obrigatórias do vestibular da universidade, a doutora em letras Sheila Hue seleciona e comenta 20 célebres poemas do autor. Hue é professora adjunta do Instituto de Letras da Universidade do Estado do Rio de Janeiro e membro do Centro Interuniversitário de Estudos Camonianos da Universidade de Coimbra. 

Apesar de ter sido introduzido em Portugal por Sá de Miranda, nesse país foi só com Camões que o soneto de fato se consolidou. O escritor seguiu de perto suas regras de composição, obedecendo rigorosamente aos princípios da imitação dos clássicos – em especial, seguindo o modelo do italiano Petrarca, a quem se atribui o mérito do aperfeiçoamento do soneto. Como é medular do período Renascentista, marcado pelo abandono dos dogmas da Igreja pelo homem e pela adoção de uma perspectiva racional diante da realidade que o cerca, essa forma lírica encerra uma reflexão em 14 versos: nos quartetos, é realizado o desenvolvimento do tema, para, nos tercetos, ser feita a conclusão. O soneto, portanto, especialmente no que tange à sua categoria formal, tem caráter lógico e racional. Camões, à risca, adota o que fica conhecida como “fórmula petrarquiana”, que se divide em “tese, antítese e síntese”, respeitando a estrofação italiana e seguindo uma estrutura dialética, oriunda do pensamento grego.

Esse caráter racional adotado na estruturação dos poemas não impediu, no entanto, que os sonetos camonianos tratassem de sentimentos e emoções. O desconcerto do mundo e o amor são citados como as duas temáticas-chave da poesia camoniana, e, em especial na seleção feita por Sheila Hue em 20 Sonetos, o amor é o tema central.

A questão amorosa é fundamental para os estudiosos da lírica do autor português, na qual o amor é frequentemente descrito como um sentimento essencialmente paradoxal – os populares versos “Amor é fogo que arde sem se ver / É ferida que dói e não se sente” são disso exemplo perfeito. Camões oscila entre a visão platônica do amor idealizado e a visão de Petrarca do amor concreto: para o poeta, amar, manifestação do espírito, causa entusiasmo no homem, tornando-o capaz de atingir o Bem, a Beleza e a Verdade; por outro, é, também, manifestação física. O Amor deve ser experimentado, deve ser sentido, e não apenas retido no plano inteligível, permanecendo fruto do pensamento. Incapaz de conciliar esses dois tomos, o homem está fadado a sofrer. Para Camões, o amor, por natureza, leva à angústia da irrealização.

E, talvez justamente pelos temas abordados, apesar de na forma se manter fiel ao clássico, a lírica de Camões se faz capaz de se aproximar do leitor contemporâneo, permanecendo atual para aqueles que se dispõem a enveredar por ela.  Por meio do artesanato linguístico, o poeta coloca à mostra os grandes conflitos do ser humano, trabalhando sentimentos complexos e dicotômicos que nunca expiram apesar da passagem do tempo, como angústia, vontade, desejo, dúvida, amor e ódio. A citação dos versos de “Amor é fogo que arde sem se ver…” na música “Monte Castelo”, da banda Legião Urbana, lançada em 1989, revela a sua contínua pertinência, o que se vê também nos outros 19 textos reunidos na coletânea proposta pela Unicamp, e ilustra a observação de Hue na apresentação do livro:

Luís de Camões, para além de ser um fruto do Renascimento e do Humanismo, é também um poeta nosso contemporâneo. Sua poesia permanece contemporânea dos leitores que dela se aproximam e que se identificam com as emoções e os sentimentos ali descritos.

O livro 20 sonetos, portanto, não só é indispensável para os pré-vestibulandos, que encontram a obra entre as leituras obrigatórias do Vestibular Unicamp: o livro reúne textos constitutivos da história da literatura em língua portuguesa, de autoria de um dos mais grandiosos nomes da poesia universal. Textos esses que, a um só tempo, são antigos, mas nunca datados; rígidos, mas, de alguma forma, sempre familiares, alusivos, passíveis de identificação – capazes de, mesmo decorridos mais quatro séculos desde sua publicação, manterem-se presentes.

Para saber mais sobre o livro, visite o nosso site!

20 sonetos

Autor: Luís de Camões

Organizadora: Sheila Hue

ISBN: 9788526814608

Edição: 1a

Ano: 2018

Páginas: 144

Dimensões: 14 x 21 cm

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