A estilística fílmica e suas nuances

Por Ana Carolina Pereira

A produção cinematográfica mudou muito com o passar do tempo. Embora muitos acreditem que essa mudança foi uma evolução da sétima arte, há aqueles que consideram que o surgimento das falas, em contraposição ao cinema mudo, barrou a inovação em ascensão e deixou o visual de lado. Ainda, há críticos que consideram os filmes chamados de Blockbuster, sucessos de bilheterias, inferiores a filmes tidos como cult. Nesse sentido, muitas análises podem ser feitas com base na estética, no som, no estilo e em outros elementos que mudaram com o passar dos anos na área do cinema.

O livro Sobre a história do estilo cinematográfico, de David Bordwell, publicado pela primeira vez em 1997, em inglês, e depois, em 2013, em português pela Editora da Unicamp, traça um panorama sobre a estilística fílmica, tema pouco abordado na área do cinema. Bordwell é teórico, historiador e professor, sendo atualmente um dos principais historiadores na área dos Estados Unidos da América. Ele já escreveu mais de 15 livros desde 1974, muitos títulos importantes para os estudiosos da área, como A arte do cinema: uma introdução, também publicado pela Editora da Unicamp.

A obra Sobre a história do estilo cinematográfico teve origem em um artigo escrito por Bordwell para a Film History em 1994. Além disso, o autor apresentou palestras no MIT (Massachusetts Institute of Technology) e na Universidade de Hong Kong a partir de parte das discussões propostas no texto, o que indica que o assunto foi muito estudado antes de se tornar um livro. O original foi lido por diversos estudiosos da área, que puderam fazer suas críticas e seus apontamentos para o autor antes de o título ser publicado, deixando os textos mais bem construídos.

Como corpus, Bordwell teve acesso a diversos acervos de diferentes países, como filmes e documentos impressos. Isso deixou as análises do autor bem fundamentadas e possibilitou que o livro apresentasse várias imagens de filmes pouco conhecidos como exemplos do que é dito pelo teórico. Para analisar o material, Bordwell utilizou a metodologia chamada pesquisa de “nível médio”, que se situa em oposição à pesquisa das “Grandes Teorias” e enfatiza questões precisas, utilizando fontes primárias como subsídio, no caso, o corpus citado anteriormente.

O primeiro capítulo do livro traz um breve panorama de algumas diferenças nas características de filmes ao longo das décadas. Esse panorama ajuda o autor a explicar a investigação da história do cinema e introduzir o assunto que será discutido ao longo da obra. Bordwell também define “estilo”, que é o foco do livro, como “um uso sistemático e significativo de técnicas da mídia cinema em um filme” e completa dizendo que o contexto histórico é importante para o que acontece na arte de modo geral, assim “o estilo, minimamente, é a textura das imagens e dos sons do filme, o resultado de escolhas feitas pelo(s) cineasta(s) em circunstâncias históricas específicas”. A partir dessas definições iniciais de “estilo”, é possível seguir a discussão sobre estilística fílmica e as nuances nos capítulos seguintes.

A obra tem seis capítulos e pode ser dividida em duas metades. Na primeira metade, o autor aborda os três momentos-chave da história do estilo. O primeiro momento é chamado, pelo autor, de “Versão-Padrão” da História Básica do cinema e tem os filmes mudos como marca. A História Básica é a narrativa que acompanha “o surgimento do cinema como arte distinta”. Essa discussão é feita no capítulo 2 do livro. Discutido no terceiro capítulo, o segundo momento é apresentado por meio de uma crítica feita por André Bazin. O subtítulo “A evolução da linguagem cinematográfica” traz as principais informações sobre Bazin, que desafiava a Versão-Padrão e “aceitava o lugar-comum de que o cinema sonoro detivera a inovação”. Bordwell chama a estrutura proposta por Bazin de Versão Dialética da História Básica, a qual “oferecia uma descrição otimista e ampla da trajetória estilística do cinema”. O terceiro momento é discutido no quarto capítulo, sendo chamado de “retorno do modernismo”. Nele, Bordwell discute a metodologia de análise estilística criada por Noël Burch, na qual ele diferencia o MIR (Modo Institucional de Representação) do MPR (Modo Primitivo de Representação) para basear sua apreensão estrutural do estilo na demanda da modernidade dos anos 1960 a 1970.

A partir desse quadro, com a discussão dos três momentos feita pelo autor, Bordwell utiliza a segunda metade da obra para apresentar suas pesquisas contemporâneas sobre estilística fílmica. Ele também propõe uma metodologia para abordar os momentos discutidos. Nesse sentido, analisa os diferentes tipos de raccord e as diversas escolhas de estilísticas de montagem fora dos lugares-comuns da historiografia comumente conhecida. Toda essa discussão, assim como a apresentação dos três momentos citados anteriormente, é feita com o auxílio de imagens de filmes para servirem de exemplo, o que torna a explicação de Bordwell mais interessante para o leitor.

Segundo o autor, os historiadores do estilo cinematográfico procuram responder a duas perguntas amplas; são elas: que padrões de continuidade e mudança estilística são significativos? Como esses padrões podem ser explicados? Tais perguntas abrigam pressupostos que nos levam a mais questionamentos dentro do assunto, e os capítulos do livro pretendem também sondar esses pressupostos, discuti-los e trazer explicações sobre o tema.

Fernão Pessoa Ramos, escritor da introdução da edição brasileira, diz que, em Sobre a história do estilo cinematográfico, Bordwell revela-se um analista fílmico perspicaz, e completa: “trata-se de livro que realça a dimensão estilística do filme, escrito por um crítico que se sustenta no conhecimento historiográfico da arte com a qual trabalha”. Nesse sentido, a obra é fundamental para estudantes e estudiosos da área de cinema por trazer importantes informações históricas e desenvolver discussões relevantes para a estilística fílmica.

Para saber mais sobre o livro, visite o nosso site!

Sobre a história do estilo cinematográfico

Autor: David Bordwell

ISBN: 978-85-2681-02-11

Edição: 1a

Ano: 2013

Páginas: 368

Dimensões: 21 x 28 cm

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