As pegadas do pensar no decorrer da história

Por Beatriz Burgos

Números, dinheiro, tempo, espaço – parece que os pilares da cultura ocidental repousam sobre um princípio comum: o princípio da racionalidade. A racionalidade submete todas as áreas da vida a uma única e mesma ordem, torna o mundo observável, mensurável, calculável. Quando se fala em globalização, não é possível ignorar a racionalidade. Coloca-se, então, a questão de como foi possível chegar a tanto. O que é racionalidade e de onde ela veio? De que maneiras, com que meios, ela se afirmou e deixou sua marca? Quais são suas características, qual é seu alcance e quais são suas promessas?

Silvio Vietta, em Racionalidade: uma história universal traça cuidadosamente toda a história da racionalidade, descrevendo nossa civilização mundial como resultado do pensamento racional humano. O autor é professor de literatura alemã e estudos culturais europeus na Universidade de Hildesheim, e seus estudos têm como objeto a história cultural europeia, em particular a história da racionalidade. A obra, publicada originalmente na Alemanha em 2012 e em 2015 pela Editora da Unicamp, busca refletir sobre o tema em seus diversos espaços em relação ao social, desde o seu início, da Idade Antiga até a atualidade.

A ideia de uma civilização baseada no pensamento quantitativo preciso nasceu na antiga sociedade grega entre os séculos VIII e V a.C. Os principais inventores foram os filósofos pitagóricos de quem Platão era seguidor. É, no entanto, a partir de Sócrates, de quem Platão também foi discípulo, que a questão sai do âmbito cosmológico e passa para o âmbito antropológico: o homem torna-se centro dos estudos filosóficos. Mais tarde, o movimento cultural, econômico e político conhecido como Renascimento, que teve início no século XIV e se estendeu até o século XVII por toda a Europa, impactou diretamente a ciência e diversos campos do conhecimento: o homem, abandonando os dogmas da Igreja e a ordem teocentrista, passa a estudar a natureza por meio da experimentação e, assim, a adotar uma perspectiva racional diante da realidade que o cerca.

No mesmo período, o surgimento do sistema capitalista foi fundamental para consolidar a expansão do comércio, o que contribuiu para a geometrização do espaço e das formações de batalha; por meio da economia monetária e das novas formas de organização política, a racionalidade tornou-se sinônimo de progresso. Assim, a civilização racional ocidental conquistou o mundo e dele apoderou-se em várias ondas de colonialismo até a atualidade. O mundo atual forma um “império da racionalidade”, no qual só são bem-sucedidas as nações e sociedades que se dão bem com esse modelo de pensamento. Também, a riqueza e a pobreza de um país dependem do padrão de racionalidade na produção, nas finanças e na distribuição de bens. Vietta fala desse “império da racionalidade” que, no entanto, ultrapassou seu alvo no momento de seu triunfo global: a “história” se transforma em uma “crítica” da racionalidade, que se conclui com propostas de reforma. A racionalidade deve se tornar reflexiva, considerar seus limites e, finalmente, superar a velha “separação” dos mundos expressivos da sensualidade que ocorreu no início do desenvolvimento da civilização ocidental. O autor diz ser necessária uma purificação da racionalidade em nome da estética.

Racionalidade: uma história universal é dividido em sete capítulos – todos, ainda, subdivididos em subseções A e B, “parte histórica” e “parte sistemática”, respectivamente –, além da introdução e do índice onomástico. Começando por situar o leitor a respeito da invenção da racionalidade, o autor busca, em cada um dos capítulos, refletir meticulosamente sobre o tema em relação a importantes aspectos da nossa sociedade: o número, o espaço, o tempo, a expansão, o dinheiro, a aistética. Vietta também é sistemático ao estruturar as seções, sempre apresentando teses e definições – e recorrendo constantemente à ciência! – dos conceitos que apresenta, de forma que, mesmo denso em informações, o livro não peca em organização e coerência.  

O autor, ainda, apresenta, já na Introdução, sua própria definição de racionalidade: “um tipo específico de pensamento humano na forma de uma relação ‘fim-meio’ de cunho lógico-causal que leva ao objetivo do modo mais linear possível, relação na qual um objeto é processado em termos cognitivos e/ou práticos com os meios da calculação, visando torná-lo útil”. Para Vietta, a racionalidade é diferente daquilo que chama de percepção estética primária, que capta a impressão das qualidades emocionais-sensíveis que o seu objeto causa sobre ela, enquanto a racionalidade abstrai disso e enfoca as quantidades calculáveis do objeto.

A obra Racionalidade: uma história universal vem, então, para refletir meticulosamente, ponto a ponto, sobre o princípio que, desde a Antiguidade até os dias de hoje, sustenta e envolve tantos elementos da vida do homem – enquanto indivíduo e enquanto sociedade. A história da racionalidade, apesar de triunfal, é densa, extensa e complexa, permeada de percalços e envolvida por fatores diversos – e Silvio Vietta, com destreza e fundamento, traça essa história de sucesso, mas também descreve seus perigos e atalhos. Ousando quase que rastrear os passos da racionalidade através do tempo histórico, ele faz da obra um verdadeiro panorama do pensamento racional, e, ademais, desenvolve uma racionalidade “nova”, amarrada ao passado e de caráter reflexivo, mas com potencial para nos mostrar a porta de saída das crises atuais.

Para saber mais sobre o livro, visite o nosso site!

Racionalidade: uma história universal

Autor: Silvio Vietta

ISBN: 978-85-26812-76-5

Edição: 1a

Ano: 2015

Páginas: 512

Dimensões: 16 x 23 cm

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