A tecnocracia e o conservadorismo político nas paragens do sertão nordestino

Por Gabriel de Lima

Local do primeiro desembarque de colonizadores lusitanos, a região nordeste sempre esteve no cerne da constituição do Brasil tanto como colônia quanto como Estado-nação. Os ciclos econômicos, que historicamente podem ser considerados transitórios e deteriorantes, foram a mola propulsora para a sobrevivência da população nordestina, implicando desde a sua organização social até a degradação ambiental da zona semiárida brasileira. Enquanto, no litoral, houve a difusão da cultura de cana-de-açúcar, que deu sustentação a uma agricultura baseada no latifúndio monocultor – os plantations –, nas regiões sertanejas, o sistema econômico existente consistia, quase na totalidade, em uma oligarquia clientelista e de base pecuária.

Desde os idos de 1880, com as secas periódicas sendo noticiadas, o subdesenvolvimento do Nordeste teve, nas condições climáticas ali presentes, um bode expiatório, inibindo, assim, a adoção de políticas públicas que, de fato, implodissem a estrutura elitista e desigual da sociedade sertaneja. Assim sendo, os mecanismos científicos foram encarados pelos governantes brasileiros como uma solução apolítica e, de início, viável no combate à seca e à pobreza extrema. Com o intuito de contrapor essas narrativas simplistas e classistas, a Editora da Unicamp publica Tecnocratas e a política de seca e desenvolvimento no Brasil do século XX, uma obra primorosa da pesquisadora estadunidense Eve E. Buckley, traduzida para o português por Cynthia Costa. Principiando pela concepção de que os instrumentos tecnológicos, de forma isolada, não conseguem produzir mudanças socialmente reestruturantes, o estudo de Buckley traça novos horizontes sobre o panorama nordestino do século XX.

Fazendo uma ponte entre o governo conservador e as demandas populares, os representantes da Ciência – engenheiros, sanitaristas, agrônomos e economistas – receberam a incumbência de mitigar, com seus próprios mecanismos, as mazelas socioeconômicas que permearam o cotidiano das comunidades sertanejas. Com uma abordagem mais ampla e globalista, o livro Tecnocratas e a política de seca demonstra a maneira como várias dessas correntes foram, sem uma análise meticulosa, importadas e reproduzidas em um cenário peculiar e ainda subserviente da lógica de exploração colonial. Outrossim, a pesquisadora relata, reiteradamente, as consequências advindas dessas medidas governamentais apolíticas: um robustecimento do sistema oligárquico, a constituição de uma infraestrutura que somente beneficiou as propriedades latifundiárias e a impulsão de várias ondas migratórias, tanto regionais quanto estaduais.

As características ambientais do bioma Caatinga apresentam algumas particularidades quando comparadas ao restante da nação. O manejo dos recursos naturais – sobretudo as nascentes dos rios e as plantas alimentícias – tornou-se uma preocupação recorrente dos cidadãos nordestinos. Assim, a discrepância monetária, agravada por esses fatores climáticos, ressaltou a fragilidade das populações desassistidas pelas políticas modernizantes que os tecnocratas promoveram – o termo “tecnocrata”, de acordo com o Caldas Aulete Digital, é “aquele que governa, administra ou executa funções valorizando apenas soluções técnicas para os problemas, sem levar em conta aspectos humanos e sociais”. Nesse sentido, Eve E. Buckley tem como uma de suas pretensões ao longo do livro tracejar o limite atingido por esses cientistas e burocratas na “tecnização” de um território complexo e vulnerável, que, resvalando em problemáticas cruciais do maquinário elitista – produto do empreendimento colonial português –, foi obstaculizado pelos interesses políticos e financeiros da classe dominante.

Partindo do período intitulado como “a Grande Seca de 1877-1879″, Tecnocratas e a política de seca percorre mais de oito décadas da história sertaneja e, em um plano macro, brasileira, captando diversas gerações de intelectuais que, imbuídos de seus conhecimentos e aparatos técnicos, ocuparam a posição de intermediar a relação embaraçosa entre o Estado e as camadas populares. Nesse sentido, a autora organiza a sua análise historiográfica em seis capítulos, delimitando os intervalos temporais, compreendidos em cada uma das partes, em concordância com as classes de profissionais que foram encarregadas dessa árdua missão, englobando desde as equipes médicas do Instituto Oswaldo Cruz, nos anos 1905-1906, até os economistas do regime ditatorial.

Doutora em História e Ciências Sociais pela Universidade da Pensilvânia, Eve E. Buckley possui como uma de suas linhas de pesquisa a conexão entre as instituições médicas e as demandas ambientais na América Latina do século XX. Destrinchando o assunto, é por meio de um continente reverberado pelo seu passado colonial que Buckley, acertadamente, estabelece o papel da Ciência e dos meios tecnológicos no processo de modernização dessa região subdesenvolvida. Problemas históricos são ressuscitados no estudo da autora estadunidense, que, por conseguinte, confere despretensiosamente um teor de ironia quando relata a participação governamental, irrefletida e conservadora, no combate às mazelas nacionais.

Ademais, o sentimento de autoengano, surgido de forma gradual, foi algo compartilhado nas trajetórias dos tecnocratas brasileiros. Da mesma forma, eles se iludiram ao enxergar os esquemas científicos e racionais como um salvador da pátria ou, pelo menos, do sertão nordestino. O apoio de estadistas na ficcionalização dessa narrativa sociopolítica, desviando das ações que deviam ser realmente empreendidas, concedeu sobrevida ao sistema oligarquista. A “indústria da seca” é um maquinário sanguinário e destrutivo que se enraizou no solo semiárido nacional. Por meio dessa afirmativa, pode-se notar que a engenhosidade da obra de Buckley surge desde aquilo que examina, o objeto de análise, que demonstra, por si só, a sua enorme relevância para o campo historiográfico brasileiro.

A sociedade é ditada e construída a partir de regras que não competem ao âmbito tecnológico, ainda menos por aqueles que representam um modelo de desenvolvimento técnico e progressivo. Tecnocratas e a política de seca e desenvolvimento no Brasil do século XX localiza a existência de um ideário cientificista dentro de uma trajetória histórica e deficitária, a do tratamento humanitário concedido – ou não – às populações carentes, sendo esse agravado, na medida em que se distancia dos centros urbanos. Importantíssimo para vários debates, na esfera historiográfica e fora dela, o livro almeja facilitar a compreensão popular da lógica elitista adotada pelos políticos brasileiros. Decerto, pode-se considerar, ao menos, que a divulgação científica, uma tarefa árdua e laboriosa, é perfeitamente desenvolvida pela pesquisadora estadunidense.

Para saber mais sobre o livro, visite o nosso site!

Tecnocratas e a política de seca e desenvolvimento no Brasil do século XX

Autora: Eve E. Buckley

ISBN: 9788526815247

Edição: 1a

Ano: 2022

Páginas: 288

Dimensões: 16 x 23 cm

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