Revista Cadernos Pagu publica resenha sobre o livro digital “Clichês baratos”

Resenha sobre o livro digital Clichês baratos, escrito por Cristiana Schettini, foi publicada na Revista Cadernos Pagu, no site da Scielo Brasil. Clique aqui para ler o texto ou role a página até o fim.

Em Clichês Baratos, o leitor tem acesso a 237 imagens, oito fonogramas e um vídeo. Por se tratar de um texto que acompanha a imprensa carioca de humor erótico ilustrado, a utilização de imagens já era algo esperado. Elas de fato estão por toda a obra: são caricaturas, instantâneos e fotografias. Todas as imagens são fundamentais para a leitura e compreensão do argumento da autora, isso porque nenhuma delas se presta apenas ao exemplo ilustrativo: antes foram analisadas a partir das complexidades e especificidades desse tipo de fonte, revelando ao leitor experiências históricas únicas que só existiriam porque foram fotografadas (Mauad, 2016).

Como delimitação espacial, Cristiana Schettini volta sua atenção para um espaço bem conhecido pelos cariocas na área central da cidade: a Praça Tiradentes e seus arredores. Sugerindo que dali partia um movimentado circuito de diversão noturna masculina desde fins do século XIX que incluía casas de espetáculo, botequins e casas de prostituição. Esse circuito é facilmente identificado pelo leitor, pois a autora utiliza ao longo do texto interessantes mapas que combinam os diferentes lugares de diversão citados.

Nas primeiras páginas da introdução, Schettini se detém sobre o significado da expressão clichê, presente no título do livro. Palavra de origem francesa, ela designa um processo técnico. Clichê é a “placa de metal a partir da qual se realiza a impressão” em prensa tipográfica. Quando usada em referência a uma atribuição social, ainda de acordo com a autora, os clichês, “passam a estar relacionados a visões marcadas por deformações, generalizações ou reduções simplistas de alguns grupos sobre outros” (p.11).

O livro se debruça sobre os clichês sexuais que circularam na imprensa ilustrada carioca. A autora se volta para a trajetória do periódico O Rio Nú, publicado entre os anos 1898 e 1916 e, nos últimos dois capítulos, inclui a análise das fotografias publicadas no periódico Sans Dessous. Conhecidas como “gênero alegre” ou “gênero livre”, essa imprensa testou os limites entre o “registro de humor sexual e do erótico” em diferentes circuitos de distribuição e fizeram parte de uma “geração de periódicos ilustrados” que pôde se beneficiar das novidades técnicas de reprodução de imagens, assim como do barateamento do custo de produção.

Cabe destacar que Cristiana Schettini busca compreender os episódios locais da Capital Federal em conexão com uma rede de relações mais amplas. Ao observar que a publicação d’O Rio Nú fazia parte de um movimento global de “mercantilização da cultura do sexo”, o livro se insere em uma perspectiva internacional de conectar as experiências da imprensa local com outros circuitos culturais atlânticos. Permite, com isso, que se perceba a imprensa de humor sexual carioca em um contexto transnacional que englobava praticamente todas as grandes cidades do mundo ocidental (Putnam, 2006).

As categorias de gênero e raça também foram importantes chaves de leitura. Em diálogo com os trabalhos de Martha Abreu (2017), Sueann Caulfield (2000) e Thiago Gomes de Melo (2004), a autora articula as categorias de raça, de gênero e de classe. Ainda que não use a palavra interseccional, a autora consegue demonstrar como a imprensa ilustrada de humor sexual foi um campo privilegiado da produção social de práticas voltadas para subalternizações raciais e de gênero, mas, acima de tudo, um espaço de reação a essas práticas a partir de diferentes perspectivas.

O livro divide-se em seis capítulos. No Capítulo 1, “Como se fez O Rio Nú” (p. 25), a autora comenta como se deu a inserção desse periódico no “panorama da expansão de diversões para homens” (p. 22). Se o movimento de autonomia e modernização na imprensa ocorria de forma simultânea em vários lugares, Schettini propõe uma redução da escala de análise para “explorar os sentidos específicos” que possibilitaram no Rio de Janeiro a publicação desse tipo de periódico. A produção de textos de humor erótico para a autora foi uma possibilidade de perceber os limites morais no Rio de Janeiro naquele período.

No capítulo 2, intitulado “O pessoal da casa”, a autora se dedicou a identificar os perfis dos colaboradores e fundadores d’O Rio Nú (p.54). Um desses colaboradores, o alagoano José Ângelo Vieira de Brito (J. Brito), que assinava com pseudônimo de Bock, ganhou destaque no capítulo. Ao investigar sua trajetória profissional, ficamos sabendo que teve uma carreira bem-sucedida no campo do humor erótico. De acordo com Schettini, o pseudônimo Bock era uma referência à cerveja preta. Esse ponto é muito interessante, principalmente quando, mais à frente, vemos a fotografia de J. Brito e percebemos que ele é um homem negro.

A fotografia de Brito traz uma nova perspectiva para a análise. Pelos dados fornecidos, o escritor teria nascido por volta de 1873 – período anterior à abolição da escravidão. Instiga a curiosidade saber quem era esse homem negro chegado do Norte para trabalhar nas repartições do Rio de Janeiro. A autora se volta apenas para sua trajetória como escritor, mas teria sido interessante somar a isso mais informações sobre a vida pessoal, que dariam uma rica contribuição para a análise.

Nos capítulos três e quatro, Cristiana Schettini também observa que as fotografias publicadas na imprensa foram parte da arena de disputas morais. Denominado “Gravuras Sugestivas”, o terceiro capítulo explora “as tensões que envolviam a construção de uma identidade diferenciada para o humor erótico e as implicações da tecnologia de reprodução de imagens, tanto desenhos como fotografias, na negociação de seus sentidos entre produtores e leitores” (p.81). De fato, o uso de imagens era parte do sucesso do periódico. A autora acompanha as inovações aplicadas n’O Rio Nu a partir da aquisição de modernas técnicas de reprodução fotomecânica, o que colocava o jornal dentro de um debate mais amplo sobre pornografia, arte e humor para além das fronteiras nacionais.

É, porém, no capítulo 4 (“O comércio dos impressos obscenos”) que a autora se dedica a investigar o “impacto e os sentidos do aumento da difusão” de impressos como O Rio Nú pela cidade e o faz a partir do caso da proibição da circulação postal de “correspondências que contenham desenhos ou publicações obscenas” pelo diretor dos Correios, Joaquim Ignácio Tosta, no ano de 1910 (p.106). A autora avalia como essa proibição afetou folhas como O Rio Nú e Sans Dessous. Percebendo que, no diálogo com as medidas repressivas, essas folhas passaram a cultivar critérios morais próprios em suas publicações e também uma “intenção pedagógica” com seus leitores.

A partir de tais considerações, o capítulo 5, “Nas Zonas”, explora a relação entre as leitoras da “imprensa que viviam de sexo comercial, e esse empreendimento das publicações ilustradas de humor sexual” (p.134), marcando um dos pontos altos do livro. De fato, mulheres e homens que protagonizavam o comércio sexual estavam presentes nas colunas de fofocas e intrigas d’O Rio Nú. O olhar cuidadoso de Schettini sobre essas colunas deixa evidente as relações sociais por trás dos clichês. Em seu argumento central, prostitutas e seus clientes “tiveram um envolvimento ativo na conformação do universo mercantilizado da imprensa ilustrada”. (p.136)

Nesse capítulo, nos é apresentada a coluna “Nas Zonas”, uma das mais populares seções d’O Rio Nú. Nela eram registradas a vida nos espaços de exercício da prostituição. As notas dadas em tal coluna poderiam ter consequências distintas para homens e mulheres. Para as prostitutas, estar em um jornal como esse tinha dois lados. Uma referência negativa poderia afetar os negócios. Em contrapartida, ser citada ali também podia ser conveniente para o sucesso de seus empreendimentos. Embora a relação entre redatores e donas de casa de prostituição fossem desiguais, Schettini demonstra como, através da análise da trajetória de prostitutas como Alice Ramos, conhecida como “Alice Cavalo de Pau”, podemos perceber as negociações e conquistas possíveis para as mulheres nas suas relações com a imprensa sexual.

Essas possibilidades para prostitutas na sua relação com a imprensa sexual foram abordadas no último capítulo, denominado “A Kodak do Sans Dessous” (p.158). O Sans Dessous foi um periódico publicado entre outubro de 1909 e abril de 1910. Diferente d’O Rio Nú, que publicava em sua maioria reproduções da imprensa francesa, no Sans Dessous os leitores podiam se deparar com rostos conhecidos – como aqueles das profissionais do sexo que trabalhavam na pensão Richard, localizada na rua Senador Dantas. Tal possibilidade nos permite flagrar, em uma das fotos do capítulo, uma imagem capaz de romper com a suposta “homogeneidade racial das mulheres” retratadas no Sans Dessous: a imagem da prostituta Augusta Mulata. Pelo que demonstra Schettini, se tratava de uma figura conhecida nas páginas dos periódicos em questão. Augusta Mulata era dona de uma das conhecidas pensões que disputava um público interessado no consumo de sexo comercial. Ter sua foto e de suas inquilinas publicada no Sans Dessous, segundo a autora, evidencia a habilidade e o protagonismo de Augusta Mulata para gerir um negócio que competia diretamente com madames francesas, italianas, russas e polacas.

Não eram apenas profissionais do sexo, no entanto, que apareciam nas páginas da imprensa alegre. Artistas em turnê também figuravam nas páginas do Sans Dessous, dado que essas imagens eram uma valiosa forma de propaganda para o mercado de diversões. Schettini observa que as conexões entre “trabalho sexual e trabalho artístico alimentavam clichês sexuais” (p.184). Para autora, as fotografias demonstram a possibilidade de que atrizes e prostitutas transitassem entre diferentes papéis no universo das diversões noturnas. Considero, contudo, que em alguns a escrita poderia ter sido melhor adensada como expressão analítica. Algumas passagens dão a entender que a autora engloba atrizes e prostitutas como se a experiência e o modo de negociação dessas mulheres fossem os mesmos. Não podemos esquecer que, nesse período, as artistas apareciam muitas vezes, nas colunas teatrais, pela via da suspeição. Uma análise sobre as representações das artistas na imprensa ilustrada evitaria o que pode soar como uma concordância da autora com essa suspeição. O que certamente não é algo que Schettini iria sugerir.

Na última parte, intitulada “Além dos Clichês”, Cristiana Schettini conclui que, embora não tivesse um impacto especial no Rio de Janeiro, a imprensa ilustrada de humor sexual constituía uma importante fonte para entender a organização de um mercado de entretenimento de conotações sexuais. Ao identificar os sentidos que a imprensa ilustrada de humor sexual teve para homens e mulheres, Schettini ressalta que as disputas sobre a modernidade no Rio de Janeiro eram muito mais amplas do que a historiografia já vem demonstrando.

Por todos esses motivos, o livro é uma importante contribuição para compreendermos a história social do humor sexual e erótico no começo do século XX. O Rio de Janeiro, como capital da República, viu crescer as ofertas de entretenimentos que se modernizavam e tinham um público variado. O trabalho também nos possibilita compreender as experiências de várias mulheres que tinham suas fotografias publicadas na imprensa de humor sexual. Prostitutas foram peças fundamentais em uma engrenagem econômica que sustentava o mercado de entretenimento noturno. Mesmo observando processos de objetificação das fotografias, forjados pelos clichês que sustentam hierarquias de raça e de gênero, Schettini não deixa de evidenciar a multiplicidade de sentidos exposta nas imagens e na imprensa sexual. Sentidos articulados por homens e mulheres que os usaram na construção de vínculos sociais e na garantia da sobrevivência.

Referências bibliográficas

  • ABREU, Martha. Da senzala ao palco: canções escravas e racismo nas Américas, 1870-1930. Campinas-SP, Editora da Unicamp, 2017. [Ebook].
  • CAULFIELD, Sueann. Em defesa da honra: moralidade, modernidade e nação no Rio de Janeiro, 1918-1940. Campinas-SP, Editora da Unicamp, 2000.
  • DE MELO GOMES, Tiago. Um espelho no palco: identidades sociais e massificação da cultura no teatro de revista dos anos 1920. Campinas-SP, Editora Unicamp, 2004.
  • MAUAD, Ana Maria. Sobre as imagens na história, um balanço de conceitos e perspectivas. Revista Maracanan, v. 12, n. 14, Rio de Janeiro, Programa de Pós-graduação em História da UERJ, 2016, pp.33-48. [DOI: https://doi.org/10.12957/revmar.2016.20858 – acesso em: 3 mai. 2021]
    » https://doi.org/10.12957/revmar.2016.20858
  • PUTNAM, Lara. To study the fragments/whole: Microhistory and the Atlantic World. Journal of Social History, v. 39, Spring 2006, pp.615-630. [http://www.jstor.org/stable/3790281- acesso em: 3 mai. 2021]
    » http://www.jstor.org/stable/3790281-
  • PEREIRA, Juliana da Conceição. As rainhas do maxixe: gênero e raça no teatro de revista carioca (1889-1920). In: SANTOS, Georgina; GARCIA, Elisa (org.) Mulheres do Mundo Atlântico: Gênero e condição feminina da época Moderna à Contemporaneidade. Belo Horizonte, MG, Fino Traço, 2020, pp.137-151.
  • SCHETTINI, Cristiana. Clichês baratos: Sexo e humor na imprensa ilustrada carioca do início do século XX. Campinas-SP, Editora da Unicamp, 2020. [Ebook].
  • SCHETTINI, Cristiana. Que tenhas teu corpo: uma história social da prostituição no Rio de Janeiro das primeiras décadas republicanas. Rio de Janeiro, Arquivo Nacional, 2006.

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