Estudantes X militares: as lutas revolucionárias que marcaram o ano de 1968

Por Gustavo Gonçalves

O ano de 1968 foi marcado por diversos protestos revolucionários ao redor do mundo. No Brasil, que à época vivia a ditadura militar, o movimento estudantil fez história ao realizar uma intensa luta contra o governo. Nesse conflito, os militares buscavam imputar aos estudantes a alcunha de “terroristas”, os estudantes procuravam revelar o caráter violento inerente ao regime militar – e, assim, ganhar mais apoiadores ao seu movimento – e o governo, reproduzir uma imagem social negativa desses jovens, fortalecendo preconceitos já existentes à época e afastando as massas das lutas sociais.

Só que, assim como todo o período da ditadura militar no Brasil, os eventos que ocorreram em 1968 enfrentam uma “destruição do passado”, que silencia as histórias e promove uma cultura do esquecimento em grande parte da população. Se você tentar pesquisar no Google, achará pouco conteúdo sobre o assunto – ou algo mais voltado às passeatas que aconteceram no resto do mundo. Como tratado no livro 1964 Visões críticas do golpe, existe uma dificuldade para que as obras que discutem esse período nefasto alcancem as massas. Além disso, a cultura do esquecimento e mesmo da negação dos fatos é incentivada por demagogos que estão hoje no governo, idolatrando os crimes e torturas militares e demonizando as lutas de grupos de resistência sociais.

Tornando acessíveis ao público os documentos e relatos de 1968, a obra 1968: o diálogo é a violência – movimento estudantil e ditadura militar no Brasil, de Maria Ribeiro do Valle, possibilita o conhecimento, a eternização e a discussão de uma das partes mais importantes desse infausto episódio da história brasileira. O livro também revisita 1968 com a intenção de encontrar traços comuns que lancem luz sobre acontecimentos da atualidade, dando sentido a diversos fenômenos contemporâneos. 

A obra tem como base a dissertação de Maria Ribeiro do Valle, coordenadora do Cedem/Unesp e professora livre-docente da Faculdade de Ciências e Letras da Unesp – campus de Araraquara. Durante sua carreira na sociologia, sempre trabalhou com temas que envolvem a ditadura militar, a violência do regime e os aspectos políticos e sociais do ano de 1968. O prefácio foi escrito por Patrizia Piozzi, professora assistente doutor MS3 da Universidade Estadual de Campinas, na Faculdade de Educação (Unicamp-FE).

Em sua segunda edição, lançada em 2008, 40 anos após os acontecimentos do ano tema, 1968: o diálogo é a violência marca também a tentativa de uma real reconexão entre os movimentos estudantis atuais e os de 1968. Irene Cardoso, citada pela autora, diz que esses jovens vivem um paradoxo entre o “presente contínuo” – viver sem relação com o passado público – e a sede manifesta pelo passado – mitificando e tendo nostalgia da geração de 68. Assim, apesar de reconhecerem e saudarem sempre a importância dos que vieram antes deles, ainda desconhecem a singularidade de suas lutas e contribuições, como mencionado por Valle: “buscando sempre uma aproximação, muitas vezes anacrônica, com os episódios de 68, por estarem carregados desse ‘presente contínuo’, [os jovens de hoje] perdem, em um mesmo movimento, quer a especificidade do passado, quer a de seu próprio presente”.

Além do governo ditador e dos movimentos estudantis, a obra traz a grande mídia como personagem extremamente importante no período, cuja cobertura dos acontecimentos que marcaram a época e cujos posicionamentos afetaram a opinião pública a respeito do que se passava. Diversos jornais, em certo momento ou durante aquele ano todo, foram contra o movimento estudantil e propagaram o imaginário social que os militares empregavam em relação aos estudantes. Um deles é o Estadão, que hoje se diz antiditadura. 

O livro é dividido em quatro partes. Em um primeiro momento, são abordados os anos iniciais da ditadura e do movimento estudantil, assim como o “estopim” de algumas das principais passeatas e revoltas de 1968: o assassinato do secundarista Edson Luís, morto pela polícia. Nesse momento, a obra acompanha a morte, o velório e o enterro do estudante, assim como a repercussão do acontecimento na mídia e como isso se refletiu nas passeatas de 1o de abril.

Já a segunda parte acompanha dois protestos importantes do período: Sexta-feira Sangrenta, que ocorreu em 21 de junho, e Passeata dos Mil Mortos, realizada em 26 de junho. A primeira marca a violenta repressão da polícia a um protesto ocorrido no Rio de Janeiro, culminando com diversas pessoas feridas e mortes de estudantes. O segundo evento é um protesto pacífico, cuja adesão somou mais de 100 mil pessoas, mobilizadas contra a violência da ditadura militar, que resultou na proibição das passeatas naquele período.

A “guerra da Maria Antônia” é o foco do terceiro capítulo do livro. Ocorrida no dia 2 de outubro, a batalha foi, na verdade, um confronto entre estudantes da USP e da Universidade Presbiteriana Mackenzie. Ambas as instituições localizavam-se, então, na rua Maria Antônia, centro de São Paulo, sendo palco de manifestações e passeatas. A partir disso, mesmo a parte da mídia que até então se posicionava favorável aos estudantes começa a dar voz ao discurso militar contra o movimento estudantil.

Por fim, a quarta parte da obra analisa o XXX Congresso da UNE – ocorrido em 11 de outubro –, que resultou na prisão das principais lideranças estudantis e em um duro golpe contra o movimento. O evento também marca o momento em que a imprensa volta-se de vez contra os estudantes, influenciando, com isso, a população, que se afasta cada vez mais do movimento.

O livro 1968: o diálogo é a violência – movimento estudantil e ditadura militar no Brasil é uma das principais obras que discorrem a respeito das manifestações dos estudantes pela volta da democracia e do recrudescimento da ditadura militar no ano analisado. Ao ler a obra, o leitor conhece as frentes de batalha do período, as estratégias e táticas utilizadas de ambos os lados, toma conhecimento de relatos de fontes primárias e de como os estudantes, mesmo com ideologias diferentes, utilizaram dos recursos que tinham na tentativa de mudar o status quo. Assim, o livro é indispensável não só para historiadores, mas também para todas as pessoas que não conhecem muito sobre um dos anos mais importantes da história contemporânea do Brasil.

1968: o diálogo é a violência – movimento estudantil e ditadura militar no Brasil

Autora: Maria Ribeiro do Valle

ISBN: 978-85-268-0792-9

Edição: 2a

Ano: 2008

Páginas: 312

Formato: 21 x 14 x 1,5 cm

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