1964 Visões críticas do golpe: resgatando as memórias sociopolíticas da ditadura militar

Por Gustavo Gonçalves

Há 57 anos, ocorria no Brasil um golpe contra a democracia, episódio nefasto de nossa história. Dezenas de produções, tanto artísticas quanto intelectuais, propuseram-se e continuam se propondo a denunciar os excessos cometidos pela ditadura militar e a repudiá-la; contudo, mesmo com esse grande número de obras (livros, teses acadêmicas, filmes de ficção, documentários, peças de teatro etc.) dedicadas ao tema, o debate sobre o golpe de 1964 é ainda insuficiente e muito restrito à classe letrada brasileira.  

Essa lacuna na abrangência da discussão e da análise de acontecimento tão execrável fez com que o Brasil não desse fim ao fantasma da ditadura, mantendo diversas intuições e dispositivos herdados do período militar. Estes últimos acabam tornando, para muitas pessoas, a memória da ditadura militar algo frágil, impreciso e lacunar. Outro aspecto que colabora para essa cultura do esquecimento sobre o golpe de 1964 é a falta de mobilização de setores da sociedade civil. A Comissão Nacional da Verdade, por exemplo, foi criada depois de décadas do ocorrido. Assim, a ausência de um movimento público de conscientização em favor da memória faz com que demagogos possam recriar uma imagem completamente distorcida do período militar para a população, reforçando mitos criados sobre a ditadura e deixando impunes os crimes e arbítrios que nela houve.

O livro 1964 Visões críticas do golpe: democracia e reformas no populismo, organizado por Caio Navarro de Toledo, traz análises e reflexões sobre o tema ainda não suficientemente explorado pela ciência política e pela historiografia brasileiras, com o intuito de contribuir para que a memória sobre a ditadura militar não seja apagada nem reescrita como vem ocorrendo. Diversos debates sobre o contexto vivido no país em 1964 são apresentados, como a economia, a política, a cultura e as ações de movimentos sociais existentes no período.

Caio Navarro de Toledo é professor colaborador voluntário do Departamento de Ciência Política do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas da Universidade Estadual de Campinas (IFCH-Unicamp) e pesquisador no Centro de Estudos Marxistas (Cemarx-Unicamp). Além de organizador da obra, ele é responsável pelas notas introdutórias desta segunda edição e por sua apresentação.

Dividida em seis partes, a obra é composta, em sua totalidade, por textos apresentados no seminário “O golpe de 1964: 30 anos”, realizado em 1994 no IFCH. O evento, que teve quatro dias de duração, reuniu renomados pesquisadores e participantes de movimentos sociais dos anos 1960 para debater as razões e os significados do golpe militar.

Em um primeiro momento, o livro aborda a economia brasileira do período – seus dilemas e perspectivas –, que ainda apresentava características da época colonial, dependendo fortemente do café. Os autores do capítulo analisam, além dos impasses no plano político – como uma tentativa de estabilização econômica e baixa da inflação –, quais foram os motivos que levaram as classes dominantes do país (e seus representantes políticos) a repudiar as reformas sociais, levando-as a apoiar o golpe de Estado. 

A segunda parte é uma discussão em torno do contexto social do ano de 1964, abordando como o cenário político-institucional e o confronto de ideologias e lutas sociais contribuíram para a derrocada da democracia e o repúdio das reformas sociais. Os autores também discorrem sobre a mobilização de grupos sociais – no caso, estudantes e trabalhadores – na luta pelas reformas de base.

Os capítulos “Era o golpe de 1964 inevitável?” e “O colapso da resistência militar ao golpe de 1964” discutem o que colaborou para a vitória do conservadorismo e do reacionarismo no Brasil e se existia alguma possibilidade de evitar a implantação da ditadura no país naquele momento. O cenário sociopolítico brasileiro desde 1945 é levado em conta, especialmente quem atuou e sob que contexto, com o fim de fortalecer o discurso do militarismo ao longo dessas duas décadas, o que acabou por dificultar a resistência civil ao golpe.   

O livro apresenta ainda o impacto do período militar 30 anos depois – no caso, em 1994. Para Octávio Ianni, autor do capítulo, o golpe militar representou para o Brasil o fim de seu projeto capitalista – que teve origem no início do século XX, e foi se reformulando ao decorrer das décadas – e o fim das estratégias do socialismo nacional das forças sociais.

Ambos estavam apoiados na hipótese de que o nacionalismo, a nacionalização de empresas estrangeiras, a estatização da economia nacional e outras diretrizes e práticas poderiam fortalecer o Estado como capitalista coletivo. E isso poderia significar, para o projeto de capitalismo nacional, a criação de normas e melhores condições para a realização deste. E poderia significar, para o projeto de socialismo nacional, a criação das condições materiais para a transição para o socialismo. Mas os dois sofrem pesada derrota com o golpe de Estado de 1964.

O livro 1964 Visões críticas do golpe: democracia e reformas no populismo busca fazer um resgate do passado brasileiro e das lutas contra o golpe militar, como uma tentativa de fortalecer o futuro democrático, que, se em 1994 ainda sofria com as sequelas da ditadura, agora não é diferente, com os fatos sangrentos que marcaram o golpe militar sendo narrados pelo governo federal como se não tivessem ocorrido, e como se o golpe houvesse sido, na verdade, uma revolução civil-militar feita para derrotar o comunismo que se instalava no país, algo que nunca aconteceu. Como dito por Toledo, o direito ao conhecimento, à verdade e à memória é o que consolida a democracia política de um país: “Enquanto a sociedade brasileira não se apropriar, plena e rigorosamente, da totalidade da sua história, a democracia política no país continuará débil e precária”. A obra é indispensável para historiadores, cientistas sociais e todos aqueles que querem aprender sobre a história do golpe de 1964 no Brasil.

1964 Visões críticas do golpe: democracia e reformas no populismo

Organizador: Caio Navarro de Toledo

ISBN: 978-85-268-1056-3

Edição: 2

Ano: 2014

Páginas: 208

Formato: 21 x 14 x 1 cm

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