Fascismo e grande capital: há fascismo no Brasil atual?

Por Sophie Galeotti

O fascismo surgiu na Itália, no início do século XX. Mesmo em seu país de origem, o apoio da população ao movimento nunca foi geral. Os partigiani, lutadores da resistência italiana, são evidência histórica desse fato. Apesar dos movimentos antifascistas, é fato que, desde que surgiu, o fascismo foi ganhando novas formas à medida que se propagava; a Alemanha nazista, cuja ascensão se deu um pouco depois da do fascismo italiano, é o principal exemplo disso. Desde que esses regimes foram derrotados na Segunda Guerra Mundial, permanecem as perguntas: o fascismo acabou com as quedas da Itália do Duce e da Alemanha do Führer? Ou continua a existir de novas formas? Há características essenciais do fascismo que permitam que o identifiquemos ainda hoje?

A obra Fascismo e grande capital, de Daniel Guérin, constitui um estudo sobre o fascismo e suas características epistemológicas. O livro faz parte da coleção Marx 21, que busca aplicar e desenvolver a teoria marxista em diversas áreas do conhecimento, como a economia e os estudos de movimentos culturais. Agora, oferece ao público a primeira edição em português desse estudo de Guérin. A tradução é de Lara Christina de Malimpensa.

A história da obra é peculiar; Guérin viajou de bicicleta pela Alemanha, foi a reuniões de grupos operários e presenciou a história da ascensão de Adolf Hitler. Ele escreveu um diário de viagem e, depois, desenvolveu-o mais profundamente, resultando, então, nesse livro. 

A primeira edição foi lançada em 1936 e a segunda, em março de 1945. O contexto de publicação da primeira edição é de uma Europa próxima ao estopim do início da Segunda Guerra Mundial, dois anos antes da anexação da Áustria e durante a consolidação do nazismo na Alemanha e do auge do regime fascista na Itália. Já a segunda edição foi publicada quando a queda da Itália fascista e da Alemanha nazista era iminente. Mussolini foi morto em abril de 1945, um mês depois da publicação. 

Todavia, como isso se relaciona às perguntas que foram postas no início deste texto? Afinal, o fascismo existe de novas formas? Caso sim, será que estamos experienciando uma delas atualmente no Brasil?

Armando Boito, coordenador da coleção Marx 21, conversou com a Editora da Unicamp sobre a obra de Guérin, sobre o fascismo e suas feições ao longo do tempo e, especialmente, sobre a forma atual de governo do Brasil. Confira na íntegra: Live “Fascismo e grande capital”  

Em primeiro lugar, para Boito, a obra é fundamental para a compreensão do momento político atual. É verdade que o ponto de partida do livro são os contextos históricos do fascismo italiano e do nazismo alemão. Todavia, os objetos de estudo não são esses movimentos em específico. Guérin busca fundamentar o conceito de fascismo e nazismo a partir da realidade histórica desses movimentos. Boito nota que é dessa maneira que o autor opera em sua obra; ele levanta os casos italiano e alemão para, em seguida, formular um conceito para o movimento fascista em geral. Por meio dessa “abstração”, que parte da história concreta, o livro torna-se aplicável a tempos posteriores às décadas de 1920 a 1940 (contanto que análises de características específicas desses e de outros tempos sejam implementadas ao raciocínio). Por isso, no Prefácio da edição posterior da obra (em 1945), Guérin persiste ponderando sobre as fundações do fascismo, indicando que o movimento vai além de suas manifestações já quase derrotadas à época.

Boa parte do foco da obra está na pequena burguesia e na burguesia. Guérin, na trilha de análise deixada por intelectuais como Antonio Gramsci, considera o fascismo um movimento pequeno-burguês e de classe média. O recorte de classe dentro da conjuntura política fascista é, para Boito, fundamental para que entendamos o Brasil atual, pois as demonstrações públicas de apoio ao governo partem dessas mesmas classes. Todavia, o governo em si é de outra classe: a burguesa (ou o grande capital). 

Para exemplificar essa articulação entre a classe do apoio civil e a classe a que o governo atende, Boito fala sobre o impasse de Bolsonaro com os caminhoneiros, especialmente em 2021. Insatisfeita com a política de preços da Petrobras, guiada pelos dividendos do petróleo, a classe caminhoneira ameaça paralisar seus serviços. Embora Bolsonaro tenha que atender às demandas dos caminhoneiros, deve, acima de tudo, atender à política de preço internacional do petróleo, priorizando os interesses do grande capital. Devendo manter os dividendos pagos aos acionistas, vê-se uma ginástica do governo para manter o apoio da base sem contrariar os interesses da burguesia. Contraditoriamente, o governo prejudica o poder de aquisição de suas classes de apoio, ao mesmo tempo que necessita de suas vanguardas para legitimar-se na sociedade.

A adesão ao fascismo não é homogênea entre a classe burguesa. Gramsci já havia notado, na década de 1920, que os partidos tradicionalmente burgueses não apoiam ou, ao menos inicialmente, resistem ao fascismo. Na Itália, porém, quem saiu à frente no apoio ao fascismo foram a grande burguesia e os proprietários de terra. Eis outro paralelismo entre o Brasil atual e os movimentos fascistas originais; tanto lá quanto cá, os proprietários e grandes burgueses depararam com movimentos por direitos trabalhistas e pela reforma agrária e, contra eles, aliaram-se massivamente ao fascismo. Os movimentos recentes do 7 de Setembro foram apoiados financeiramente por empresas, muitas do agronegócio.  

Há exclusividades no regime político brasileiro em relação aos fascismos alemão e italiano: o Brasil é um país periférico, não imperialista; assim sendo, as ações governamentais atendem a um capital exterior, a uma burguesia estrangeira; aqui, há a aspiração ao desmatamento máximo, à liberação dos agrotóxicos e à limitação – ou até mesmo encerramento – da demarcação de terras indígenas e quilombolas. A perseguição a esses últimos povos é especialmente violenta, pois eles reivindicam a posse da terra, o que vai diretamente de encontro à posse privada do meio de produção. Foi similar no caso da relação entre proprietários de terra e camponeses italianos, os paesani.

É também importante notar que a tendência à existência de governos neofascistas não é exclusividade brasileira. Ao redor do mundo, veem-se outros, como a Hungria, por exemplo, governada por Viktor Orban. Ademais, manifestações neofascistas crescem em países de democracias mais sólidas que a brasileira – que passou por uma ditadura de 1964 até 1985 – como o partido AfD alemão e sua influência sobre a própria Alemanha e a Itália. As evidências mostram que o movimento fascista não foi enterrado; continua perambulando, com diferentes especificidades de acordo com os territórios em que se manifesta. Intuitivamente, surge mais uma pergunta: como dar cabo a esse regime? Para Guérin, a única possibilidade de derrotar de vez o fascismo é acabar com o capitalismo e com a democracia burguesa, construindo uma democracia socialista, em que a posse dos meios de produção não seja mais privada – desmontando, assim, o capital: 

“O antifascismo só triunfará quando parar de arrastar-se a reboque da democracia burguesa. Desconfiemos das formulações ‘anti’. São sempre insuficientes, porque puramente negativas. Só se pode vencer um princípio opondo-lhe outro princípio, um princípio superior. […] No plano das ideias, a erradicação do fascismo só será total e definitiva no dia em que apresentarmos à humanidade e fizermos triunfar, por exemplo, uma nova forma de governo dos homens, uma democracia autêntica total e direta, que associe todos os produtores à administração das coisas”.

Fascismo e grande capital é um livro guarnecido de materialidade histórica, cujas análises permitem compreender melhor o movimento fascista e suas reinvenções dentro da economia capitalista. Concordando ou não com a tese de Guérin sobre a eliminação do fascismo, o livro é indispensável a cientistas políticos, sociólogos, filósofos e a todos os que querem entender melhor as contradições políticas da democracia burguesa.

Adquira a obra pelo site da Editora da Unicamp.

Fascismo e grande capital

Autor: Daniel Guérin

Edição: 1a

Ano: 2021

ISBN: 9786586253931

Páginas: 328

Dimensões: 23 x 16 x 2 cm.

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