Livreiros no Novo Mundo e um mundo novo para os livros

Por Everaldo Rodrigues da Silva Junior

Algumas pessoas conseguem, mesmo sem aparecer entre os grandes nomes da história, modificar aspectos de seu tempo e, por consequência, impactar a realidade. Mesmo não sendo amplamente conhecidas, suas vidas, seus sonhos e seus atos podem explicar muitas questões de determinada época. É o caso do comerciante francês Jean-Baptiste Bompard. Prepare-se para conhecer a fundo sua trajetória em Livreiros do Novo Mundo: de Briançon ao Rio de Janeiro, uma viagem intercontinental em forma de livro, trazida para os leitores brasileiros por meio de uma parceria entre as editoras da Unicamp, da USP e da Unesp.

O livro foi escrito por Jean-Jacques Bompard, descendente direto de Jean-Baptiste, e traduzido por Leila V. B. Gouvêa. Além disso, conta com um prefácio escrito por Lúcia Maria Bastos Pereira das Neves, historiadora e pesquisadora, que apresenta o autor e contextualiza seu trabalho. Resultado de uma longa pesquisa feita para desvendar parte da história do comércio de livros entre o Brasil e a Europa no século XIX, a obra também narra a carreira daquele que foi considerado um dos mais importantes livreiros da cidade do Rio de Janeiro durante o Primeiro Reinado. O autor, utilizando-se de diversos documentos preservados por várias gerações, reconstrói a trajetória de seus antepassados, desde o estabelecimento de diversas famílias na região de Briançon, França, passando por suas conexões com o restante da Europa, até a vinda do comerciante para o Rio de Janeiro em 1818, onde atuou no mercado transatlântico de livros.

Situada em uma região montanhosa da França, a cidade de Briançon ficou conhecida por suas gerações de comerciantes, que a habitavam desde o século XIII, como os Bertrand, os Rey e os Martin. Tais famílias sempre mantiveram laços estreitos, fosse pelo casamento entre seus membros, fosse pela solidariedade mútua em seus negócios. Entre eles, muitos eram especializados no mercado de livros. No fim do século XVIII e ao longo do século XIX, vários deles cresceram financeiramente e ampliaram suas relações mercadológicas, primeiro para outros países da Europa, como Portugal, e depois para o Brasil. E isso só foi possível porque um fato muito importante se deu em 1808: a vinda da família real portuguesa para o Rio de Janeiro.

Teve início um período propício para o crescimento do mercado de livros. Com a transferência da Corte para o Brasil, houve a determinação da abertura dos portos para o comércio internacional e muitos negociantes estrangeiros viram no país uma oportunidade de ganhar dinheiro e expandir seus negócios. A partir daí, outras resoluções do governo possibilitaram novos avanços, como a chegada da imprensa ao Brasil, que até então era uma atividade proibida. Foi o próprio governo de D. João VI que criou a primeira oficina de impressão no país, ao decretar a fundação da Impressão Régia, já que, na vinda de Portugal, um equipamento tipográfico novo em folha foi trazido em um dos navios. Além de imprimir documentos fundamentais para o funcionamento do governo, a Impressão Régia também deu à luz vários outros tipos de escritos, tanto poéticos quanto ficcionais, o que aumentou a circulação de obras na capital. Em junho daquele mesmo ano, começou a circular o primeiro jornal impresso no Brasil, a Gazeta do Rio de Janeiro.

É nesse contexto de abertura comercial que entra Jean-Baptiste Bompard. Ele chegou ao Brasil em dezembro de 1818 para trabalhar na livraria de seu primo, considerado o livreiro mais importante do período: Paulo Martin. Bompard encontrou uma cidade ainda mais transformada. Passados dez anos da chegada da família real, o Rio de Janeiro tinha mais de 100 mil habitantes, o dobro da população de 1808. Metade deles era composta de negros escravizados. À época, havia mais de uma dezena de livreiros registrados e outros negociantes não especializados que aproveitavam as oportunidades na cidade. O mercado livreiro começava a apresentar várias possibilidades de negócio, permitindo uma grande oferta de títulos, desde livros de medicina, biologia e teologia, até romances, que tinham um alcance mais amplo. Eles chegavam da Europa de navio, e sua aquisição foi facilitada com o fim da censura. Essa circulação constante de textos e ideias colocou os livreiros-editores em uma posição privilegiada em face das transformações que se anunciavam nas relações entre Portugal e Brasil. Após a morte de Martin, em 1823, ‌Bompard‌ ‌passou‌ ‌a‌ ‌comandar‌ ‌a‌ ‌livraria, ‌ ‌construindo‌ ‌seu‌ ‌nome‌ ‌como‌ ‌comerciante‌ ‌ao‌ ‌longo‌ ‌do‌ ‌Primeiro‌ ‌Reinado.

Remontando àquela época, o autor consegue expor um detalhado panorama da vida cultural e social da capital do Império, ao listar as obras disponibilizadas nas livrarias da cidade e destacar a circulação dos textos mais procurados. Analisando os livros mais lidos do período, obtém-se um perfil da literatura consumida no Brasil. Esse cenário seria crucial para que, anos depois, o país deixasse de ser um mercado influenciável e começasse também a exportar obras e escritores, uma vez que se tornava peça ativa na circulação de ideias entre os continentes.

Jean-Jacques Bompard faz uma reconstrução histórica e um relato biográfico interessantíssimos em Livreiros do Novo Mundo. Enfatizando as mudanças político-sociais de um período e a jornada de personagens dispersos no tempo, o autor cria uma obra fundamental para todos os que se interessam por história cultural.

Para saber mais sobre o livro e adquirir o seu exemplar, acesse o nosso site!

Livreiros do Novo Mundo: de Briançon ao Rio de Janeiro

Autor: Jean-Jacques Bompard

ISBN: 9788526814905

Edição: 1

Ano: 2021

Páginas: 248 p.

Dimensões: 23 x 16 x 2,50 cm

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