É preciso romper as fronteiras entre as áreas do conhecimento

Por Sophie Galeotti

É muito comum a concepção de que as ciências humanas e as ciências exatas não se misturam. Ela é até usada como jargão entre jovens estudantes, que se classificam como “de humanas” ou “de exatas”. Mais seriamente, a divisão entre ciências naturais e humanidades levou a uma segregação entre a prática científica – a aplicação das ciências naturais – e a reflexão sobre suas consequências sociais. Apesar de aparentarem ser sustentadas por si mesmas, as ciências naturais e a tecnociência estão, na realidade, suspensas por teias nos pilares da sociedade em que foram e são desenvolvidas. Humanidades e ciências naturais: ensaios e balanços críticos busca, justamente, romper as fronteiras entre essas áreas do conhecimento.

O livro foi organizado por Márcio Barreto, doutor em ciências sociais pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), experiente na área de física com ênfase na interdisciplinaridade da educação, atuando principalmente nos campos de filosofia da ciência, sociologia da tecnologia, cinema e percepção pública da ciência. Todos os ensaios da obra são de professores da Universidade, como Rodolfo Eduardo Scachetti, Pedro Ferreira, Rafael Dias e Diego Vicentin.

Os cinco capítulos iniciais, que compõem o primeiro bloco, “Ciências e humanidades”, destacam a “artificialidade das divisórias entre ciências naturais e humanidades”, enfatizando as numerosas intertextualidades entre as áreas. No segundo bloco, “Tecnologia e sociedade”, são desenvolvidos mais cinco artigos, focados na área técnica, principalmente na didática e na prática das engenharias. Cada ensaio pode ser lido individualmente, de acordo com a prioridade do leitor.

No capítulo 1, Peter Schulz destaca o intenso trânsito entre as ciências naturais e as humanidades, rebatendo a ideia de que a ciência esteja desvencilhada de aspectos sociais, políticos e econômicos. 

Silvio Seno Chibeni, no capítulo 2, levanta a questão de ser ou não a filosofia uma ciência. Apesar de a filosofia ser chamada de “a mãe da ciência”, o autor entende que essa “filha” emancipou-se, “saiu de casa”, já não sendo mais filosofia, embora continue tendo importantes elementos comuns com ela; entre eles, Chibeni ressalta a permanente disposição para rever ou mesmo abandonar as teorias adotadas, diante de evidência experimental ou de argumentação racional contrária.

Os capítulos 3, 4 e 5 são, respectivamente, relacionados à literatura, ao tempo e à estética. A relação entre literatura e as ciências naturais abre uma ampla discussão sobre como cada um desses polos de conhecimento lida com a tradição – a literatura pode romper radicalmente com ela por meio da linguagem, como os modernistas fizeram com os românticos. Já a metodologia científica é mais atrelada à tradição. Essa diferença, no entanto, não impede que os campos dialoguem, principalmente no aspecto imaginativo. 

Nas palavras de Vanina Carrara Sigrist, autora do capítulo 3, “a literatura antecipa imaginariamente o que a ciência e a tecnologia executam tempos depois”, como Isaac Asimov fez com a inteligência artificial em Eu, Robô

Em relação ao tempo, o ensaio de Barreto, capítulo 4, destaca a diferença entre o tempo cronológico – domado pela inteligência e fragmentado para ser útil a planos ou cálculos, como o da velocidade na física newtoniana –, e o tempo em sua totalidade – ou duração, pelo conceito do filósofo francês Henri Bergson. A duração, o tempo fora do tempo, é muito mais profunda do que a razão pode compreender, e nos aparece em lampejos, como a vida passando diante dos olhos quando se enfrenta uma situação de risco ou durante os sonhos, que comprimem muitas percepções em uma pequena fração de tempo cronológico. Esse tipo de percepção foge do ordinário, trazendo à pessoa uma visão mais ampla da realidade e evidenciando o quanto o tempo cronológico é fundado em uma divisão artificial. A artificialidade dessa divisão é percebida, apesar de que por diferentes termos, pela física quântica: “O tempo não existe”: a visão de Carlo Rovelli, físico tido como “novo Stephen Hawking”. O ensaio ainda nota o potencial das artes, como a literatura e seu “tempo embaralhado”, para nos aproximar da duração.

Rodolfo Scachetti, autor do capítulo 5, destaca as “potências e as vertigens” das imagens, das visualidades, da estética, articulando referências teóricas, experiência pessoal e uma rica diversidade de obras de arte. O autor explica que a estética, assim como a tecnociência, está em permanente diálogo com a ética. A obra do brasileiro Eduardo Kac intitulada GFP bunny usou a engenharia genética para produzir um coelho que brilha no escuro por ter genes de água-viva fluorescente. Édouard Manet, precursor modernista e impressionista, pintou Olympia, quadro no qual o foco de luz pictórica parece vir de nossos próprios olhos, como se fossem faróis; agora, a luz pode ser emitida pela obra-experimentação, tornando evidentes as novas possibilidades abertas pela tecnociência. O diálogo com a ética diz respeito a como podemos lidar com elas. As novas criaturas transgênicas podem ser acolhidas ou vistas como signos de nossa própria fragilidade, como as esculturas de crianças feitas por Glendinning e Piccinini expressam, ou deitadas junto a elas ou indefesas. 

No capítulo 6, o primeiro do bloco “Tecnologia e sociedade”, Roberto Donato da Silva Júnior traz a teoria do sociólogo alemão Ulrich Beck e seus conceitos de risco e modernidade reflexivos. Beck desmantela as dualidades entre modernidade e pós-modernidade e aspectos sociais e ambientais; ele entende que vivemos a modernidade tardia, em oposição à simples – industrial –, e que o desenvolvimento da técnica fez com que os problemas agora atravessassem fronteiras uma vez delimitadas. Por exemplo, a relação entre risco e riqueza: na modernidade simples, uma criança pobre tinha chances proporcionais à sua condição socioeconômica de ser acometida pela subnutrição. Agora, com a tecnologia alimentar de ultraprocessados, crianças pobres sofrem com a obesidade. O modo de lidar com esses problemas envolve a inclusão da análise sociológica na tecnociência, trazendo mais cautela à sua prática. Afinal, a complexidade do mundo contemporâneo exige que as disciplinas abarquem campos além delas mesmas.

Nos capítulos 7 e 8, os ensaios de Rafael Dias e Lais Fraga se complementam, prosseguindo na exploração de novos sentidos nas relações entre tecnologia e sociedade. Dias explicita o conceito de tecnologia social, que traz uma perspectiva social para a execução da tecnociência. Projetos fundados por meio dela, como o Programa Um Milhão de Cisternas – P1MC, que resultou no acesso à água para consumo doméstico no semiárido brasileiro, contribuíram para o bem-estar de comunidades locais. Fraga traz uma discussão – realizada em sala de aula – sobre as pontes de Long Island nos Estados Unidos, feitas por Robert Moses. As pontes feitas por ele davam acesso a áreas nobres da cidade e suas alturas eram muito baixas para permitir a passagem de ônibus. Ou seja, a tecnociência pode ser aplicada com fins políticos e sociais contrários à inclusão e à emancipação sociais, como também mostra o capítulo 9, de autoria de Diego Vicentin, que discute o conceito de dados e sua crescente influência nos poderes econômico e político, que impactou profunda e irreversivelmente a vida de todos. Principalmente desde o final da década passada, tornou-se evidente que a internet é também meio de manipulação (mesmo que inconsciente para os manipulados), como fez a empresa de dados Cambridge Analytica, que, valendo-se de plataformas digitais como o Google, Twitter, Facebook e YouTube, influenciou ativamente o Brexit, as eleições presidenciais nos EUA, em 2016, e no Brasil, em 2018 (Não tem volta). A estratégia de extrair dados das ações de indivíduos e populações por meio de dispositivos eletrônicos é guiada, segundo Vicentin, pela “mais-valia comportamental”, conceito da professora de Harvard, Shoshana Zuboff, que converte em valor monetário a capacidade de predição e manipulação de comportamentos. Vigiar e lucrar é o mantra do novo capitalismo de vigilância, formado por sociedades de controle que dependem do registro comportamental de populações por meio eletrônico para dominar o mercado e obter lucro. Tal previsão só é possível pelo fato de a abordagem informacional ter sido generalizada, enfrentando o mundo como uma série de problemas a serem decodificados e traduzidos universalmente em uma linguagem comum. Campos como big data, big science, IoT (internet of things, ou “internet das coisas”) e da inteligência artificial são artifícios que produzem valor econômico, sendo, dessa forma, essenciais às sociedades de controle contemporâneas. 

Fechando o livro, de Pedro Ferreira, autor do capítulo 10, baseado em sua experiência docente e em seu repertório teórico, apresenta a abordagem de conceitos complexos que possibilitam que o leitor mensure a profundidade com que temas das humanidades repercutem nas ciências exatas, principalmente nas engenharias.Por meio de amplas referências bibliográficas e de um esforço multi e interdisciplinar, o livro Humanidades e ciências naturais não só evidencia as profundas ligações entre dois polos de conhecimento, como disponibiliza um amplo acervo teórico e prático a professores da tecnociência que buscam enriquecer suas abordagens didáticas e a estudantes e profissionais de humanidades, ciências naturais e tecnologia que procuram ampliar seus escopos de atuação e pesquisa. Acesse o site da Editora da Unicamp para saber mais sobre esse urgente e importante lançamento.

Para saber mais sobre o livro e adquirir o seu exemplar, acesse o nosso site!

Humanidades e ciências naturais

Autor: Márcio Barreto

ISBN: 9786586253689

Edição: 1

Ano: 2021

Páginas: 240 p.

Dimensões: 23,00 x 16,00 x 1,50 cm.

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