Marxismo ecológico: ruptura com o mercado para enfrentar a catástrofe ambiental

Por Everaldo Rodrigues

É evidente que o ideal capitalista de progresso constante e crescimento econômico sem limites promoveu uma exploração desenfreada dos recursos do planeta e uma crise ambiental inédita. Além disso, caso não seja administrado nos próximos anos, esse colapso pode prejudicar, ainda mais, todos nós. Mas será que todos serão impactados da mesma maneira? Problematizações e desconstruções recentes feitas por cientistas políticos, biólogos, economistas e geógrafos, entre outros, mostram como os efeitos das alterações climáticas vão, a curto prazo, atingir justamente aqueles que já sofrem há muito tempo: os mais pobres. Diante dessa questão, é necessária uma nova postura, que pode ser articulada e desenvolvida a partir da ecologia política, assunto abordado no livro de Enrique Leff publicado pela Editora da Unicamp.

Em Ecologia política: da desconstrução do capital à territorialização da vida estão reunidos 14 textos que percorrem os mais de 40 anos de carreira de Enrique Leff como um dos principais ecologistas políticos em atividade. Sociólogo, doutor em economia e professor da Faculdade de Ciências Políticas e Sociais da Universidade Nacional Autônoma do México (FCPyS – Unam), o autor trabalha como pesquisador nos campos da filosofia, epistemologia ambiental, economia ecológica e educação e formação ambientais. O livro foi traduzido por Jorge Calvimontes e conta com um prefácio escrito por Leila da Costa Ferreira, professora titular de sociologia no Instituto de Filosofia e Ciências Humanas da Universidade Estadual de Campinas (IFCH – Unicamp). Em seu texto, ela destaca a contribuição da obra para o debate ambiental no Brasil, uma vez que “transcende o interesse de especialistas ao tratar, sem dogmas e com argumentos robustos, de temas que interferem na existência humana no presente e no futuro”.

Apesar de ter sido citada pela primeira vez no meio acadêmico por Frank Thorne em 1935, na revista The Science Newsletter, a “ecologia política” só foi desenvolvida a partir dos anos 1970, com o trabalho de filósofos, antropólogos e escritores como Murray Bookchin, Eric Wolf, Hans Magnus Enzensberger, André Gorz e Piers Blaikie. Segundo Leff, ela surgiu da interdisciplinaridade, “criada na intersecção entre geografia humana, ecologia cultural e etnobiologia para se referir às relações de poder envolvendo intervenção humana no meio ambiente”. Como disciplina, a ecologia política desenvolveu-se, principalmente, por uma perspectiva neomarxista diante de questões que, “associadas à irrupção da crise ambiental e da configuração de uma episteme ecológica, resultariam no esquecimento das condições estabelecidas pela natureza para o marxismo ortodoxo”. Em outras palavras, a ecologia política pode ser entendida como uma análise neomarxista das condições da natureza para a transcendência histórica, mas não a transcendência como definiu Heidegger em Ser e tempo, e sim no sentido da “história vivida e vital dos Povos da Terra – entre ter sido presente no passado e sua potencialidade presente para abrir futuros da vida (…), onde estão em jogo os destinos da vida”, como escreve Leff. Ela é fruto de uma crítica ao pensamento econômico e permite reconsiderar a essência dos problemas ecológicos hoje, voltando sua atenção aos efeitos colaterais da produção industrial, resultado de uma crise institucional da sociedade capitalista, segundo Leila da Costa Ferreira.

A ecologia política surge como esse novo campo de indagação teórica devido à complexidade de nossa condição histórica: as alterações ambientais resultantes da ação humana são tão impactantes que muitos especialistas referem-se ao período histórico em que vivemos como “Antropoceno”, ou seja, a Era dos Homens. “Os riscos das questões ambientais podem ser interpretados como contemporâneos, uma vez que são resultantes do processo de desenvolvimento da sociedade capitalista”, completa Ferreira em seu prefácio. Nesse sentido, a ecologia política torna-se também uma nova postura diante dos problemas que, inevitáveis, podem ser ao menos controlados por meio de um comportamento que evidencie as ações inconsequentes do capitalismo sobre um ambiente que não consegue mais renovar suas reservas diante do atual ritmo de exploração. E essa nova postura deve derivar de uma atitude de desconstrução política.

É o que Leff faz, por exemplo, com o termo “sustentabilidade”. A partir dos anos 1970, quando ecologistas passaram a alertar sobre os problemas que resultariam da exploração capitalista, essa palavra passou a ser utilizada com o objetivo de criar uma espécie de chamado para “salvar a Terra de uma catástrofe tanto não intencional quanto imprevisível”, como destaca o autor. Uma vez cunhado esse conceito, desenvolveu-se a ideia de que a humanidade havia sido convocada para participar de um processo de desenvolvimento que garantiria a permanência da vida no planeta. No entanto, algumas perguntas acerca do termo foram lançadas: como foi formado esse regime racional (no caso, o capitalismo), que age contra a sustentabilidade da vida na Terra? Como incorporar à economia as condições para esta, de forma que os interesses de todos não sejam feridos?

Para Enrique Leff, essas perguntas não foram respondidas, e o “sentido profundo” da sustentabilidade não está claro. Estando ligada aos poderes hegemônicos que governam a ordem mundial, como poderia subverter ou transgredir essa ordem? Como a desatrelar desse discurso conivente e, ainda, como fazer com que a sustentabilidade não seja apenas mais uma palavra cheia de significado, mas vazia de ação? “Há algo enigmático e suspeito no termo ‘sustentabilidade’”, escreve Leff no primeiro capítulo do livro, “uma falsa promessa, um perigo, um poder não revelado, que quer limitar seu significado, desviando seu sentido em direção à míope visão de um mundo ‘enverdecido’.” Diante dessa problematização, o autor busca remover do termo a ideia de que ele serve apenas para reajustar os processos econômicos e mostrar que aplicá-la de forma honesta vai muito além de aceitar mecanismos que fingem internalizar as externalidades ambientais criando novos instrumentos econômicos para uma suposta “gestão ambiental”.

A sustentabilidade real implicaria no desenvolvimento de novos e verdadeiros limites ao sistema econômico, mesmo que sua racionalidade não pareça disposta ou seja incapaz de reconstruir-se integrando a seus princípios as condições termodinâmicas e ecológicas necessárias à vida. Para deixar de ser um “sonho impossível”, a sustentabilidade precisa ser compreendida como uma contradição dentro da vontade de crescimento econômico.

A ecologia política visa, então, desconstruir a racionalidade insustentável do mercado, impulsionando, como destaca Ferreira, “ações sociais para a construção de um futuro sustentável” no sentido verdadeiro do termo. Essas ações reorientariam o desenvolvimento das forças produtivas e recriariam as formas de sociabilidade, resultando em novas relações de poder. Além disso, os impactos da crise ambiental sobre a parcela mais pobre da população –  vítimas mais frágeis das mudanças climáticas, dos desastres naturais resultantes da ação de governos e corporações e da escassez de recursos – diminuiriam consideravelmente, uma vez que suas condições sociais e modos de vida seriam levados em conta com a reestruturação dos sistemas econômico e político. Dessa forma, os direitos humanos, a diversidade cultural e os saberes tradicionais seriam realmente valorizados, emancipando uma parcela da população que, então, poderia agir para renovar o sentido da vida e defender a preservação da natureza. O ambientalismo radical resultante de uma posição ecologicamente política é, para Leff, a única maneira de bater de frente com a hegemonia do mercado e romper com ele.

A ideia central do livro é que, diante da complexa problemática ambiental, setores e movimentos sociais unam-se para enfrentá-la, com base em propostas políticas alternativas. Os capítulos de Ecologia política revelam, aos poucos, novos conceitos que permitem a transição de uma economia e de um materialismo histórico em direção ao que seria um marxismo ecológico, uma política de “distribuição ecológica”, uma evolução do pensamento e movimento ambientais, suscitada pelos conflitos ecológico-territoriais, e que pode servir como resposta à crise do meio ambiente.

Ecologia política: da desconstrução do capital à territorialização da vida estabelece um compromisso ético de desconstruir o sistema que, enquanto explora a natureza, também se esquece dela. Crítico e atual, apresenta diversas alternativas para aqueles que atuam na área ambiental, entre especialistas, técnicos, pesquisadores, docentes e alunos, que encontrarão no livro de Leff o estímulo e os argumentos para uma mudança verdadeira na forma de encarar os problemas relacionados ao meio ambiente.

Para saber mais sobre o livro e adquirir o seu exemplar, acesse o nosso site!

Ecologia política: da desconstrução do capital à territorialização da vida

Autor: Enrique Leff

ISBN: 9786586253627

Edição: 1

Ano: 2021

Páginas: 512 p.

Dimensões: 23,00 x 16,00 x 3,00 cm.

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