A lógica aristotélica explicada pelo escolástico Tomás de Aquino

Por Everaldo Rodrigues

Dentre os filósofos que tentaram conciliar razão e fé, Tomás de Aquino é um dos mais significativos: a vertente que criou, o Tomismo, buscava a harmonia entre o cristianismo e o aristotelismo. Sua influência na filosofia moderna é notável, seja pelas linhas de pensamento que foram desenvolvidas a partir de ideias do frade, seja por aquelas que resultaram de uma oposição a elas. Considerava Aristóteles um mestre, tanto que deu ao pensador de Estagira a alcunha de “o Filósofo”. Aquino escreveu muitos trabalhos sobre a obra aristotélica. Neste texto, vamos conhecer a nova edição de Comentário aos Segundos analíticos, livro publicado pela Editora da Unicamp em uma inédita versão latim–português.

O livro integra a coleção Fausto Castilho – Série Multilíngues, que traz textos consagrados da filosofia em edições bilíngues. A tradução foi feita por Anselmo Tadeu Ferreira, doutor em filosofia pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e professor efetivo de história da filosofia medieval no Instituto de Filosofia da Universidade Federal de Uberlândia (UFU). Ferreira contou com a colaboração de Carlos Arthur Ribeiro do Nascimento, professor titular aposentado da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP) e da Unicamp, para a transposição do texto aristotélico para o português.

Para entender o propósito do texto de Tomás de Aquino, é importante conhecer a obra que ele comenta: Analytica posteriora, de Aristóteles, que já foi traduzida como Analíticos posteriores e como Segundos analíticos. Ela faz parte do Organon, o conjunto de trabalhos do filósofo sobre a lógica, do qual também fazem parte os textos Categorias, Da interpretação, Primeiros analíticos, Tópicos e Refutações sofísticas. Esses trabalhos ocupam a primeira posição na leitura das obras de Aristóteles, ainda que não tenham sido reunidos dessa forma pelo pensador: a sequência foi estabelecida após sua morte e variou ao longo dos anos. Segundos analíticos foca em um ponto específico da lógica: a demonstração.

Tomás de Aquino escreveu seu Comentário entre 1272 e 1274, com um propósito principalmente didático. Ao expor o texto de Aristóteles, não criticou nem corrigiu as ideias do filósofo grego, “pelo menos não conscientemente”. Havia, sim, o propósito de torná-lo “mais legível para os leitores, seus contemporâneos”, conforme anota Ferreira em sua tese de doutorado, Tomás de Aquino e a ciência: uma leitura do Comentário aos segundos analíticos. Ou seja, o trabalho é uma explicação linha por linha do texto, baseada na tradução do grego para o latim feita por Tiago de Veneza e Guilherme de Moerbeke à época. Até 1272, Aquino foi professor de teologia na Universidade de Paris, e tudo indica que esse trabalho foi escrito por solicitação do reitor da universidade. Uma carta escrita pelos mestres da Faculdade de Artes e enviada para Lião, local do concílio para o qual Aquino se dirigia quando morreu, em 1274, registra a solicitação do envio dos textos nos quais Aquino estava trabalhando quando deixou Paris, entre eles o Comentário, publicado apenas postumamente.

O texto foi editado diversas vezes, até que, em 1879, o papa Leão XIII instituiu a Comissão Leonina, um comitê editorial que tinha o objetivo de publicar as edições definitivas da obra completa de Tomás de Aquino. A versão crítica dos Comentários, chamada “edição leonina”, foi montada a partir de 54 manuscritos diferentes (guardados em várias cidades da Europa, como Assis, Bolonha, Barcelona, Cambridge, Florença, Veneza e Londres) e finalizada em 1989. É essa versão a utilizada por Anselmo Tadeu Ferreira.

A obra é dividida em duas partes, acompanhando a divisão original do trabalho comentado. O “Livro primeiro” dedica-se ao silogismo demonstrativo, ou seja, aquele que produz conhecimento científico, examinando suas características e seus elementos constitutivos, isto é, as premissas, que devem ser verdadeiras e universais. Já no “Livro segundo”, o teólogo examina os elementos fundamentais da demonstração: o mediador, aquilo que deve ser buscado quando se quer investigar algo; e os princípios indemonstráveis, que são aqueles dos quais não se tem conhecimento absoluto ou nem podem ser provados cientificamente.

A exposição de Tomás de Aquino tem como objetivo esclarecer a visão aristotélica de ciência em seu sentido estrito, como percepção e entendimento das causas de algo, estabelecendo não apenas uma ideia de “ciência como conhecimento verdadeiro”, segundo a tese de doutorado de Ferreira, como também as condições para chegar a tal noção sobre as coisas. A leitura de Aquino sobre o texto aristotélico indica que o homem deve ter papel ativo no conhecimento: “munido do conhecimento sobre as regras do funcionamento de sua razão”, esclarece o tradutor em sua tese, “o homem estaria apto a discorrer nos diversos domínios do conhecimento, especialmente nas ciências, produzindo os argumentos, que seriam verdadeiros ‘produtos’ dessa arte”.

Comentário aos Segundos analíticos é um livro fundamental para estudantes de filosofia, especialmente aqueles que se interessam pela lógica e pela escolástica. Também é recomendado para estudantes de latim, graças à edição bilíngue, para pesquisadores e acadêmicos da história da filosofia e para todos que querem saber mais sobre a forma como os pensadores medievais liam os textos clássicos.

Para saber mais sobre o livro e adquirir o seu exemplar, acesse o nosso site!

Comentário aos Segundos analíticos

Tradutor: Anselmo Ferreira

ISBN: 9786586253672

Edição: 1

Ano: 2021

Páginas: 768 p.

Dimensões: 23,00 x 16,00 x 2,50 cm

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