O continente africano sob uma perspectiva global e comparativa

Por Everaldo Rodrigues

Durante muito tempo, os estudos sobre a África focaram na sua relação com a Europa. Mesmo no Brasil, até a década de 1960, as pesquisas sobre o continente africano baseavam-se no tráfico de escravos e sua relação com a formação da sociedade colonial brasileira, estando circunscritas às perspectivas historiográficas que privilegiam o contato com a Europa, nos âmbitos político, social e econômico. No entanto, o crescimento recente do campo de estudos africanistas no Brasil tem revelado uma mudança gradual de foco, com pesquisas feitas sob uma perspectiva cada vez mais global e comparativa. Sai a visão eurocêntrica e a ideia de uma África atrasada e dependente da intervenção europeia e entra a descoberta e valorização das relações comerciais, sociais e religiosas construídas pelos próprios africanos com outros povos, especialmente os do subcontinente indiano. E se a história de sua relação com o oceano Atlântico remete ao tráfico de negros escravizados, novos olhares revelam que, na outra costa, o oceano Índico serviu como arena de trocas comerciais e ponte de migrações muito antes da chegada dos europeus no século XV. É dessa África, cercada por mares e cheia de vínculos, que trata o livro África, margens e oceanos: perspectivas de história social.

O livro faz parte da Coleção Várias Histórias da Editora da Unicamp. O propósito da coleção é divulgar pesquisas recentes sobre a diversidade da formação cultural brasileira, pelo ponto de vista da história social. Os organizadores deste volume são Lucilene Reginaldo, doutora em história social e professora no Departamento de História da Unicamp, e Roquinaldo Ferreira, doutor pela Universidade da Califórnia e professor no Departamento de História da Universidade da Pensilvânia. Ambos escreveram livros sobre a África:  Lucilene Reginaldo é autora de Os rosários dos angolas: irmandades de africanos e crioulos na Bahia setecentista, e Roquinaldo Ferreira escreveu, entre outros, Dos sertões ao Atlântico: tráfico ilegal de escravos e comércio lícito em Angola (1830‑1860).

Na obra aqui abordada, os organizadores apresentam, por meio de 16 textos, a excelência e a diversidade da pesquisa atual sobre o passado africano. São trabalhos que, segundo eles, tratam da “experiência histórica do continente africano às margens ou em conexão com os oceanos Atlântico e Índico, especialmente entre os séculos XVII e XX”. O livro apoia-se no diálogo entre a produção africanista brasileira e a internacional, feitas em centros de pesquisa norte-americanos, europeus ou africanos; há ênfase nas confluências e distinções entre elas, que partilham  um grande interesse por trocas, conexões e contatos estabelecidos na África. O objetivo é situá-la nos circuitos globais de comércio, fluxos migratórios e difusão de conhecimento e de práticas religiosas anteriores à presença europeia, levando em conta o ponto de vista e o protagonismo dos africanos nos processos e nas relações estabelecidas com o oceano Índico, em vez de apenas considerar o contexto das relações da África mediadas pelo Atlântico.

O livro possui quatro eixos temáticos. O primeiro, intitulado “Histórias conectadas, trocas e contatos”, evidencia os processos de intercâmbio cultural e de formação de identidades múltiplas construídas por meio dos oceanos Atlântico e Índico em razão do comércio de longa distância. É o texto de Edward Alpers, “África e o Oceano Índico”, que apresenta o complexo cenário das margens do Índico, ainda pouco familiar à maioria dos leitores brasileiros, e todo o pano de fundo que permite a compreensão dos outros trabalhos apresentados no livro. Abordando cronologicamente as relações do continente africano mediadas por esse oceano, o autor escreve sobre o intercâmbio de plantas e animais, sobre o comércio, as migrações para o Oriente Médio e sul da Ásia, sejam elas espontâneas ou forçadas, e sobre as complexas relações da África com a Índia.

O segundo eixo, “Trânsito e deslocamentos”, reúne escritos sobre o surgimento de diferentes sujeitos, identidades coletivas e práticas econômicas e culturais nas duas margens do Atlântico. É o caso do texto de Carlos da Silva Jr., “Rotas, direções e etnicidade no tráfico de escravos entre o Brasil e a Costa da Mina no longo século XVIII”, que analisa a importância do ouro no comércio entre europeus e africanos. Há também o texto de Lisa Earl Castillo, “A ‘nação Ketu’ do candomblé em contexto histórico: subgrupos Iorubás na Bahia oitocentista”, que aborda um tema clássico no âmbito das conexões históricas entre a Bahia e a costa ocidental da África. Em seu trabalho, a autora apresenta novas descobertas sobre a influência dominante no terreiro Ilê Axé Iyá Nassô Oká, ou Casa Branca do Engenho Velho, desde sua fundação, na década de 1830, e ao longo dos anos 1800.

“Protagonismo africano” é o assunto do terceiro eixo, que expõe várias dimensões da “agência”  africana, considerando as hierarquias próprias dos contextos coloniais, bem como  questões de classe, gênero e etnia. Essa parte evidencia a relevância dos estudos sobre o tráfico negreiro e o interesse pelas experiências dos escravizados. Como exemplo, o texto de Juliana Farias, “O laptot e a signare: gênero, escravidão e liberdade (Senegal, século XIX)”, chama a atenção por analisar as diferentes visões de escravidão, trabalho e liberdade que circulavam em Saint‑Louis e Gorée nas primeiras décadas dos Oitocentos. Outros textos versam sobre o papel das mulheres na transição do tráfico de escravos para o comércio lícito na Angola do século XIX, o papel das chefias africanas no contexto do domínio colonial português nos séculos XVII e XVIII e as apropriações e ressignificações de práticas musicais e dançantes no sul da Moçambique do século XX.

O quarto e último eixo temático do livro, intitulado “A história da África no Brasil: horizontes da pesquisa e do ensino”, traz textos que contemplam o diálogo entre as pesquisas africanistas e a historiografia brasileira e refletem não apenas sobre a produção e ensino da história da África nas universidades e escolas, mas também sobre as políticas públicas de combate ao racismo que levaram à implementação da Lei nº10.639 em 2003; em relação a ela, discute-se o papel dos movimento negros. Um exemplo é o texto “Uma história única sobre o continente africano: o tráfico transatlântico nos livros didáticos”, de Ynaê Lopes, em que ela apresenta e sugere novas possibilidades para a abordagem didática do tráfico transatlântico de negros escravizados no ensino de história da África. A ideia é apresentar ao estudante um olhar não estereotipado sobre o continente africano.

África, margens e oceanos dá ênfase à história social e ao protagonismo dos africanos, destacando referências intelectuais e contornos sociais que demarcam a produção brasileira sobre história da África. É um livro que oferece um rico panorama da produção africanista recente, colocando em foco a África e suas relações com outros continentes, mediadas pelas águas que a banham.

Para saber mais sobre o livro e adquirir o seu exemplar, acesse o nosso site!

África, margens e oceanos

Organizadores: Lucilene Reginaldo e Roquinaldo Ferreira

Editora da Unicamp

ISBN: 9786586253665

Ano da Publicação: 2021

Edição: 1

Formato: 21,00 x 14,00 x 3,00 cm.

Nº Páginas: 560 pp

Peso: 670g

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