A ‘governamentalidade’ Ocidental: uma estrutura cristã-medieval

Por Gabrielle Teixeira, Jennifer Araújo, Luisa Ghidotti, Sophie Galeotti, Thaís Rodrigues, Victória Rodrigues, Vinícius Russi e Vitória Lisboa.

“[…] a despeito da contiguidade temporal e da coincidência espacial entre a Idade Média e modernidade, a memória histórica das duas épocas raramente lança mão dessa continuidade em proveito mútuo.” Néri de Barros Almeida

Parece a nós, que vivemos no inevitável liberalismo da era moderna, que o ideário imperialista e monárquico da Idade Média foi superado. Muitos intelectuais focaram em estudar os impactos da revolução iluminista para entender a formação política da modernidade, como se das estruturas medievais não restasse nada. Por outro lado, Foucault foi um dos primeiros a reconhecer que a imaginação histórica sobre a Idade Média ainda precisava ser revisitada e investigada para que entendêssemos o construto político contemporâneo. A obra Governar é servir situa-se nesse limiar, entre a governabilidade franciscana e a democracia ocidental, e “acrescenta mais um ponto à inquietante, longa, ainda mal conhecida e certamente ambígua história das potências medievais operantes em nosso tempo”, como afirma a historiadora Néri de Barros Almeida, autora do “Prefácio à edição brasileira” desta edição publicada em 2021 pela Editora da Unicamp.

Escrito por Jacques Dalarun, historiador francês especialista em estudos franciscanos, o livro estabelece um diálogo entre as descobertas e conclusões do autor e o pensamento foucaultiano. Dessa maneira, expressa as origens e os desdobramentos da mudança na imaginação política causada pelas revoluções do século XVIII.

Dividida em três partes,  a obra inicia discutindo o processo de canonização de Clara de Assis, a partir de depoimentos coletados. O autor trabalha, principalmente, a análise dos testemunhos que foram utilizados pelo hagiógrafo Tomás de Celano como base para redigir a Legenda de Santa Clara virgem. Esses capítulos iniciais mostram ao leitor que, além de características de ordem biográfica, como descrições sobre o nascimento, a família, o contato com Francisco de Assis e a entrada na religião, Tomás de Celano dedica parte de seu texto a um retrato moral de Clara, destacando o que considera sua principal virtude: a humildade. 

Com base em textos bíblicos e documentos históricos, o autor analisa o papel de Santa Clara e o rito do lava-pés. Se primeiramente o evento era dedicado à ação de Cristo que lavou os pés de seus discípulos na Última Ceia, como demonstração de humildade, foi Clara de Assis, já no cargo de abadessa, que levou esse exemplo adiante. 

A figura de Clara deixa evidente algumas inversões, que, segundo o autor, estavam presentes na liturgia, mas não encontravam sustentação na organização social medieval, a qual guiou a ordem beneditina. A primeira está relacionada ao seu papel de abadessa, uma vez que abba significa “pai”, Clara ocupou um lugar propriamente masculino. A segunda diz respeito a sua subserviência, seguindo os ensinamentos de Cristo ela cuidava dos pobres e beijava os pés das serventes, no entanto uma senhora ajoelhando-se diante dos servos não era aceito por muitos. Há ainda uma terceira inversão, pois, apesar de lavar os pés ser um ato bíblico, o contato físico entre mulheres era repudiado. Ao se posicionar como inferior às demais irmãs, ela era vista por todos como superior. Isso pode parecer paradoxal, mas é, na verdade, um exemplo que faz jus ao título da obra.

Essas inversões fazem emergir o que o autor chama de “paradoxo do cristianismo medieval como ideologia”. A religião hegemônica espalhava-se a partir de textos aos quais poucos tinham acesso e acabava por gerar relações que não eram propriamente defendidas por esses textos e condenar ações que seguiam à risca o amor de Cristo, como as de Clara, Inês, entre outras mulheres.

A Parte II deste livro trata, então, de organizações e igrejas que não seguiam as premissas beneditinas predominantes. A ordem de Fontevraud, criada por Roberto de Arbrissel em 1101, era uma delas. Uma comunidade mista que seria dirigida, após a morte de seu fundador, por uma mulher. Esta, porém, não deveria ser escolhida entre as virgens, mas sim entre as conversas, por sua experiência e sabedoria teria mais competência para a administração. Pedro Abelardo e sua esposa Heloísa também desenvolveram a ideia de uma comunidade mista, que não chegou a se concretizar, mas que estava toda registrada nas correspondências que trocaram.

Outra organização religiosa que o livro descreve é Grandmont, fundada por Estêvão Muret, que não deixou escritos. Seus ensinamentos foram compilados por Hugo Lacerta. Superficialmente beneditino, o pensamento de Muret contradiz boa parte da prática monástica de seu tempo. Sua essência é o Evangelho de Cristo como regra fundamental. Em Grandmont, também nasce o embrião da política representativa; as assembleias (conventus) elegiam representantes para cada célula da comunidade, os “grandes eleitores”, que ganhavam autonomia para eleger o governante do convento (prior ou ministro). Nestas eleições, a representatividade era igualmente dividida entre clérigos e conversos. 

Eram as Regras de Grandmont que regiam o funcionamento do governo (semelhantes às da Ordem dos Pregadores, de Domingos, e às da comunidade franciscana dos Frades Menores), e seu princípio era a obediência recíproca, que dita que “o maior seja como o mais jovem, e quem governa, como quem serve” (Lc 12:26). No último estatuto da Regra de Grandmont, há uma distinção entre os conversos, que devem dedicar-se a assuntos temporais e administrativos do mosteiro, e os clérigos, à pregação e aos estudos. Francisco de Assis era ainda mais radical no princípio de obediência recíproca: “a subordinação vale para cada irmão, que deve ser submisso não apenas a todas as criaturas humanas, mas também aos animais selvagens […]”.  Domingos também apoiava a obediência recíproca e a divisão não-hierárquica entre conversos e clérigos. Isso porque ele acreditava que a pregação é uma atividade essencial, que demanda total dedicação. No entanto, na assembleia de Bologna, em 1220, o desejo de Domingos por um governo voltado às vocações foi ignorado na elaboração da Constituição. Os cônegos não gostavam da ideia de relegar os assuntos administrativos apenas aos conversos, pois temiam que monopolizassem o poder. Houve bastante oposição à divisão de funções entre clérigos e leigos. 

O segundo sucessor de Francisco de Assis, frei Elias, é criticado em uma das crônicas estudadas no capítulo oito desta obra, finalizada em 1288 pelo frade menor Salimbene de Adam, rigoroso libelo contra Elias. Salimbene chama os conversos de membros inúteis da Ordem, e acusa Elias de ter priorizado os leigos e de instituir que, para cada clérigo, deveria haver um frade leigo. 

A Ordem havia mudado, assim como o mundo à sua volta. Por mais que Elias quisesse defender a mensagem de Francisco, já não era possível manter o status-quo dos tempos de seu antecessor. Após a deposição de Elias em 1239, novas medidas foram tomadas e novas regras foram criadas. As mudanças foram tais que talvez o próprio fundador da Ordem dos Frades Menores poderia ser proibido de entrar nela.

Os institutos religiosos os quais a obra discute são considerados por Dalarun como “experiências comunitárias”, “laboratórios pioneiros de pesquisa institucional”. Ao estudá-los, é possível compreender melhor tanto seu funcionamento quanto processos mais gerais. Ele, então, faz um levantamento das suas semelhanças e diferenças. Todas as organizações buscaram aplicar a obediência em um grau elevado, recusaram o termo “abade” para nomear o superior e abriram suas portas a pessoas de todos os estratos da sociedade. Apesar de essas experiências pré-institucionais parecerem utópicas e terminarem fracassadas, elas deixaram aprendizados: o indivíduo não é seu status ou suas funções, cargos são ocupados momentaneamente e governar é prestar serviço.

Para além das descrições e interessantíssimas investigações documentais, Dalarun, que acredita no diálogo interdisciplinar e no comparativismo cultural ou histórico, traz para uma conversa textos de Michel Foucault e Giorgio Agamben. Do primeiro, faz uso dos seus pensamentos sobre o poder pastoral, um poder do cuidado, que moldou o formato político ocidental. Os movimentos que buscavam outra condução levaram à crise do pastorado, o que Foucault chama de “contracondutas”. Giorgio Agamben leu com atenção o curso de Foucault e realizou um prolongamento crítico dele, buscando investigar como o poder no Ocidente foi assumindo a forma de um governo dos homens. Ele expõe a polaridade entre economia e teologia, com o poder político e o poder pastoral da Igreja ora se aproximando, ora se cruzando.

Assim, com descrições e interpretações cuidadosas de documentos e assuntos igualmente delicados e amplamente influentes, Governar é servir é uma obra que apresenta um novo ponto de vista sobre a governabilidade por meio de registros da Idade Média, iluminando temas que podem, não por coincidência, relacionar-se também com os modos de governar modernos. Interessados em História, Religião e Idade Média com essa leitura poderão, como afirma Dalarun, “repensar a ‘organização social’ dentro do ‘que chamamos de religioso’”, nas palavras do próprio autor.

Para saber mais sobre o livro e adquirir o seu exemplar, acesse o nosso site!

Governar é servir

Autor: Jacques Dalarun

Tradutor: Igor Teixeira

Editora da Unicamp

ISBN: 9786586253610

Ano da Publicação: 2021

Edição: 1

Formato: 23,00 x 16,00 x 1,50 cm.

Nº Páginas: 288 pp

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