Em busca do pedreiro-do-espinhaço

Por Everaldo Rodrigues

Imagine a história: uma nova espécie de ave é encontrada no Brasil. Em um primeiro olhar, a ave parece conhecida, muito semelhante ao joão-de-barro; mas estudos vão revelando que sua presença naquele canto do país contrariava o que se sabia até então. Como um enigma biológico, esse animal abre caminho para que teorias sejam reavaliadas e atualizadas. Essa descoberta provavelmente daria origem a artigos científicos que dificilmente atingiriam um público além do círculo acadêmico. Mas, em Um sabiá sujo: A aventura científica sobre a descoberta de uma ave e de um continente, Marcos Rodrigues conta a história do descobrimento de uma nova ave e o que isso representa para a biologia, de um jeito divertido e intenso. Nas próximas linhas você conhecerá um pouco dessa aventura e verá por que, muitas vezes, uma história é interessante não apenas pelo que, mas também pelo como.

Marcos Rodrigues é biólogo, mestre em Ecologia pela Unicamp e doutor em Zoologia pela Universidade de Oxford, Inglaterra. Autor de mais de cem artigos científicos, ele dá aulas na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), onde conduz pesquisas na área de comportamento e ecologia animal. É um apaixonado pelas aves: dedicou a elas os livros As aves da Ilha de Santa Catarina e O equinócio dos sabiás, pelo qual recebeu o Prêmio da Associação Brasileira de Editoras Universitárias (ABEU), em 2019, na categoria “Ciências da Vida”. Um sabiá sujo faz parte da Coleção Meio de Cultura, uma série de livros de divulgação científica, até o momento com 14 volumes publicados, que preza a clareza da linguagem e a transmissão do conhecimento. São livros pensados para o grande público, para aqueles que desejam entender como é o dia a dia dos pesquisadores, como as descobertas científicas são feitas e como elas afetam nossas vidas.

O livro começa com uma viagem em família pela Serra do Cipó, um conjunto de montanhas que faz parte da Cadeia do Espinhaço, cordilheira que cruza a porção centro-oriental do Brasil nos estados de Minas Gerais e Bahia. É lá que o narrador observa um misterioso pássaro e resolve contar para sua filha como ele o descobriu. O pássaro em questão é o Cinclodes espinhacensis, conhecido como pedreiro-do-espinhaço: uma ave com cerca de 22 centímetros de comprimento, plumas amarronzadas, parte inferior bege e faixa amarelada sobre os olhos, as pernas curtas e escuras, o bico preto e afilado. De fato, um pássaro aparentemente comum, cuja descoberta, no ano de 2007, levantou algumas questões. Como ninguém vira aquela ave até então, no meio de uma trilha turística por onde passam dezenas de pessoas todos os anos? Marcos Rodrigues questiona:

“Por essas serras passaram também observadores de aves, e, mais do que isso, ornitólogos (pessoas que estudam aves profissionalmente). Será que todos esses observadores e ornitólogos confundiram o pedreiro-do-espinhaço com um mero joão-de-barro? Ou será que ele nunca esteve aqui e, na verdade, se trata de um punhado de pássaros migrantes que resolveram parar para se abastecer, ou mesmo para permanecer em local tão belo e cheio de comida?”.

Além dessas perguntas, há a questão geográfica, uma vez que o pedreiro-do-espinhaço pertence a um grupo típico das altas montanhas da Cordilheira dos Andes e dos frios campos da Patagônia. Então, como teria surgido nas montanhas de Minas Gerais? Partindo dessas indagações, o narrador faz uma jornada fantástica pela biologia e pela história. 

A primeira parte do livro dedica-se aos bastidores da descoberta dessa espécie e à discussão sobre a história geológica da América do Sul por ela suscitada. Esse trajeto exige que o narrador apresente figuras históricas importantíssimas para a biologia, como Helmut Sick, ornitólogo alemão naturalizado brasileiro, Alexander von Humboldt, geógrafo e explorador prussiano, e o casal britânico Peter e Rosemary Grant, biólogos e professores na Universidade de Princeton. É uma jornada que transporta o leitor para a Alemanha da Segunda Guerra, passando pelo rio Amazonas e pelo arquipélago de Galápagos, fundamental para a história da biologia e para a teoria da evolução.

A segunda e terceira partes tratam da descoberta de duas pequenas aves que, assim como o pedreiro-do-espinhaço, vieram dos Andes. A primeira, pertencente ao grupo conhecido como rabos-de-cardo, foi encontrada no Pico das Agulhas Negras, no Rio de Janeiro; a segunda, conhecida como lenheiro, foi identificada nos anos 1980 nas serras mineiras. Essas descobertas levam o narrador para Londres, Cochabamba, Potosí, Namíbia e África do Sul, em uma busca pela solução desse mistério biogeográfico.

Na quarta parte, Marcos Rodrigues narra a procura pelos familiares do pedreiro-do-espinhaço nos extremos da América do Sul, do Deserto do Atacama ao Cabo Horn. Esse itinerário leva o narrador a encontrar figuras como James Cook, explorador, navegador e cartógrafo inglês que viveu no século XVIII, o poeta chileno Pablo Neruda, ganhador do Prêmio Nobel de Literatura em 1971, e o naturalista mais importante para a história que Marcos Rodrigues está contando: Charles Darwin.

O livro encerra-se com as conclusões resultantes da descoberta do pedreiro-do-espinhaço, feita por meio de uma busca extenuante pelos campos da Cadeia do Espinhaço. O narrador liga os pontos de sua investigação, desvendando o suposto paradoxo de encontrar espécies de aves andinas em pleno Sudeste brasileiro. Ele destaca todos os responsáveis pela descoberta e estudos subsequentes que permitiram a catalogação do pedreiro-do-espinhaço, demonstrando o quanto a ciência e suas conquistas são ações coletivas, o quanto a colaboração, a persistência e os questionamentos são fundamentais para o avanço do conhecimento.

Em Um sabiá sujo, Marcos Rodrigues transforma uma descoberta científica em uma narrativa fictícia repleta de famosos ilustres e muito conhecimento. É uma jornada apaixonante pela beleza da ciência. Um livro para vários públicos: estudantes encontrarão uma história narrada com a paixão que pode inspirá-los a decidir que rumo seguir em suas futuras carreiras; ornitólogos profissionais e amadores vão se enxergar na busca fascinante por registros de uma ave em seu habitat; alunos de graduação conhecerão mais sobre as pesquisas de campo e os estudos da área; e cientistas verão um pouco de si refletido na história de pessoas que, fascinadas pelos mistérios da natureza, guiaram-se pela ciência e pelo amor à vida para descobrir cada vez mais.

Para saber mais sobre o livro e adquirir o seu exemplar, acesse o nosso site!

Um sabiá sujo: A aventura científica sobre a descoberta de uma ave e de um continente

Autor: Marcos Rodrigues

ISBN: 9786586253566

Edição: 1

Ano: 2020

Páginas: 368 p.

Dimensões: 21,00 x 14,00 x 2,00 cm.

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