O Rio de Janeiro e suas origens: um triângulo constituído por povos tupis, franceses e portugueses

Por Luisa Ghidotti

O processo de formação da cidade do Rio de Janeiro foi bastante conturbado. A região foi palco de grandes conflitos, sendo disputada pelos governos francês e português em meados do século XVI. Mesmo antes disso, a conquista do território já era motivo de embates entre os povos indígenas. A historiografia produzida sobre o assunto até aqui tende a privilegiar um dos lados, examinando ora a vertente francesa ora a portuguesa, com predomínio desta.

A obra França Antártica: Ensaios Interdisciplinares pretende superar esse problema e analisar a presença francesa na Baía de Guanabara sob uma abordagem pós-colonial. O livro foi organizado por Maria Berbara, doutora em História da Arte e especialista nos intercâmbios culturais no mundo atlântico, Sheila Hue, doutora em Letras, com trabalhos voltados para a produção letrada quinhentista, e Renato Menezes, mestre em História, com pesquisa dedicada às culturas visual e literária europeia em suas relações com a América Latina. O grupo reunido na publicação conta com outros nomes de peso como Ronaldo Vainfas, Marcello Moreira e Paulo Knauss.

No centro do livro, estão duas obras produzidas por testemunhas oculares do processo de colonização francesa: Singularitez de la France Antarctique, escrito por André Thevet e publicado em 1557, e Histoire d’un voyage fait en la terre du Brésil, de Jean de Léry, publicado em 1578. Eles reportam as tentativas de expansão colonial da França e apresentam registros da fauna e da flora, das populações nativas e dos conflitos no Brasil quinhentista. Tudo isso a partir da instalação de uma colônia francesa na região da Guanabara, guiada por Nicolas Durand de Villegagnon, entre 1555 e 1565, que ficou conhecida como França Antártica.

Esse empreendimento e seus desdobramentos refletiram os ânimos políticos da monarquia francesa, que vivia um cenário de conflito entre católicos e protestantes em um momento em que a Coroa e a Igreja exerciam influência política entre si. O assunto é amplamente discutido na “Introdução”, escrita por Ronaldo Vainfas, a partir da qual o leitor passa a conhecer as principais divergências entre as narrativas que contextualizam a presença francesa na colonização. Por um lado, o ponto de vista dos portugueses, que afirmavam que a França Antártica foi construída por razões religiosas, por protestantes franceses que fugiam da Europa por conta da perseguição dos católicos. Por outro, o ponto de vista francês, que dá indícios das investidas colonizadoras da França, na contramão do Tratado de Tordesilhas.

Os autores de cada capítulo da obra trazem uma terceira linha narrativa ao investigar os três planos de diálogo entre Thevet e Léry: a descrição da fauna, da flora e dos povos nativos; a representação ilustrada do Novo Mundo; e os contrapontos entre os dois autores. Dividida em duas partes, França Antártica destaca as convergências e divergências desses registros no que tange aos aspectos culturais do encontro entre povos nativos, portugueses e franceses.

A primeira parte, na palavra dos organizadores, “destaca estudos no âmbito das letras, da linguística e da história da música, abrangendo desde análises sobre o século XVI até suas leituras e releituras em outros períodos”. Trata da formação de gêneros literários no Brasil colônia, a partir da cosmografia de Thevet, trazendo os relatos de viagem como a primeira expressão literária de representação do Novo Mundo. Discute as releituras da imagem do índio canibal, construída por Thevet, que o literato Alberto Mussa fez em seus romances, com uma abordagem intertextual das sociedades tupis. Conta sobre as influências literárias no registro de Léry, que apresenta características do locus amoenus, proveniente dos clássicos de Virgílio, e do locus horrendus, com origem na tradição homérica, como bases para a descrição da natureza e das populações no Brasil colônia. Traz também descrições das músicas indígenas e de seus instrumentos, por Thevet e Léry, que contribuíram para a criação do imaginário indígena através dos séculos, observável em composições de autores como Heitor Villa-Lobos. Por último, analisa a tradição religiosa dos tupis, com base nas considerações que Thevet faz em seu livro sobre as orações desse povo e a influência dos jesuítas.

A segunda parte inclui textos que “analisam a concepção e o uso das imagens – aí compreendidas não apenas em seu sentido literal, mas também como representação mental – da França Antártica entre os séculos XVI e XX”. Mostra, assim, como a presença francesa impactou a formação cultural do Rio de Janeiro por meio do estudo de diversas expressões artísticas. A começar pelo interesse mercantil nas negociações do valioso pau-brasil registrado em painéis esculpidos em madeira com finalidade propagandística, os quais expressavam a relação comercial entre tupinambás, que cortavam as árvores e levavam os troncos para o litoral, e os franceses, que transportavam a matéria-prima para a Europa, oferecendo aos indígenas, em troca, objetos de pouco valor. Os dois capítulos seguintes examinam a imagem do selvagem construída em torno dos povos ameríndios; um, em torno da moral e da ética europeia que criava a desumanização dos nativos, de uma maneira tão efetiva que a imagem do indígena canibal perdurou por séculos, e o outro “analisa os modos como a imagem do canibal incide sobre os próprios europeus”, com base na alusão feita pelo ministro protestante Pierre Richer de que Villegagnon poderia ser equiparado a Polifemo, a representação da barbárie na tradição literária europeia. 

Adiante, a discussão é propriamente sobre a relação entre a colônia dos franceses na Guanabara e a formação da cidade do Rio de Janeiro, por meio dos escritos do padre Anchieta e de pinturas de Rodolfo Amoedo. Por fim, o último capítulo relaciona os relatos de Léry com o balé O homem e seu desejo, com libreto de Paul Claudel e música de Darius Milhaud, composto entre 1917 e 1918, a fim de analisar “a dificuldade de tradução da experiência do homem em contato com a natureza tropical”. Tais relatos, encontrados nos registros da época, ainda  reverberam no balé moderno.

Com um olhar panorâmico sobre esse livro, é possível perceber que, apesar do rigor historiográfico, com investigações de fatos a partir dos produtos culturais sobre a França do século XVI e sua relação com as terras e os povos nativos, a obra não pretende fazer uma leitura cronológica aos moldes dos livros de história. O que o leitor encontra em França Antártica é uma série de considerações pontuais e interdisciplinares sobre a cultura e a arte no Rio de Janeiro, desde o período colonial até o século XX.

O livro traz uma abordagem que contribui para desmistificar o imaginário das origens da cultura carioca, que repercute também em repensar os mitos de todo o processo colonizador, ao colocar cada peça que compõe a História em seu devido lugar, sem pender para um lado ou para outro por motivos políticos, religiosos ou estilísticos. Os autores dessa obra preocupam-se em entender as bases identitárias do que é próprio do Brasil por meio de uma narrativa historiográfica interdisciplinar e inovadora. 

Para saber mais sobre o livro e adquirir o seu exemplar, acesse o nosso site!

França Antártica – Ensaios Interdisciplinares

Organizadores: Maria Berbara, Renato Menezes, Sheila Hue.

ISBN: 9786586253573

Ano da Publicação: 2020

Edição: 1

Formato: 23,00 x 16,00 x 1,50 cm.

Nº Páginas: 296 pp.

Peso: 300g.

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