Emily Dickinson para o leitor brasileiro: uma proposta revigorante para a tradução e a leitura de poesia

Por Luisa Ghidotti

“Elas têm um Pouco Olor – isso para mim 

É metro – não – é melodia –

E ao fanar com fragrância – indicada –

Notam-se Hábitos – de Laureada –”

Emily Dickinson.

Emily Dickinson é um dos grandes exemplos da importância da publicação póstuma. Apenas 10 dos mais de 1800 poemas que escreveu saíram do manuscrito enquanto ainda estava viva. A fama, que ela tanto rejeitava, hoje é incontornável. A obra de Dickinson já foi amplamente estudada, editada, reeditada e traduzida. Seus escritos fazem parte da formação cultural estadunidense e chegaram a tornar-se leitura obrigatória nas escolas. Sua relevância para a pesquisa, o ensino e a criação poética ganhou também alcance internacional. Hoje, os leitores brasileiros têm a oportunidade de apreciar, pela primeira vez, a obra completa da autora por meio de uma tradução que respeita tanto as formas presentes nos manuscritos originais quanto os limites sintáticos e rítmicos da língua portuguesa.

O livro Poesia completa é publicado no Brasil a partir de uma parceria entre a Editora da Unicamp e a Editora UnB. O trabalho de tradução foi feito por Adalberto Müller. Ele atua na área de Letras, com ênfase em Tradução e Criação Literária, já traduziu obras de diversos poetas para o português, contribuindo para o acesso e para a divulgação de poesia estrangeira. Seu projeto mais recente é essa edição dos poemas de Dickinson que chega ao público em dois volumes. O primeiro traz os fascículos, o segundo — com previsão de publicação para 2021 —, as folhas soltas, os poemas soltos, os transcritos por terceiros e os não retidos, com a tradução sempre exibida diante do texto original.

Para apresentar essa obra é importante entender o processo de criação da autora. Seus poemas foram encontrados em sua casa, após sua morte, em 1886. Alguns em folhas soltas, outros organizados no que ela chamou de fascículos. Dickinson selecionou, copiou e reuniu mais de um milhar de poemas em 40 fascículos costurados por ela à mão. Alguns estudiosos consideram que essa iniciativa da autora significava uma predisposição para a publicação e que seus fascículos constituíam uma pré-edição. Assim, apesar de ser avessa à fama, ela acreditaria na publicação editorial como um meio para eternizar sua existência. Há muita divergência em relação a essa questão, que tem espaço no prefácio à edição brasileira, escrito por Cristanne Miller, organizadora das obras completas publicadas pela Harvard University Press na língua original, edição à qual Adalberto Müller recorreu para sua tradução.

Independente das controversas aspirações de Dickinson, a publicação póstuma de suas obras sem dúvida a eternizou no mundo literário.

Outro aspecto relevante é o fato de a autora ter compartilhado alguns de seus poemas por correspondências, que trocava com colegas intelectuais da época. Isso mostra que ela, de alguma forma, preocupava-se em garantir que seus escritos não desaparecessem nas gavetas. Esses poemas já apresentavam a forma que ela queria que tivessem ao chegar ao público leitor, já que, ao contrário das folhas soltas e dos fascículos, não havia rasuras e tinham os limites dos versos e do fim dos poemas estabelecidos.

Miller discute todos esses assuntos, da trajetória pessoal de Dickinson a seu processo de criação, recorrendo a trechos de poemas para exemplificar as relações que identifica entre a vida e a obra da autora. Assim, o leitor, antes de se debruçar sobre os poemas traduzidos, tem acesso ao universo de Emily Dickinson, dos manuscritos à versão brasileira. 

O tradutor Adalberto Müller mostra ao público, no posfácio, todo o trabalho que foi necessário para estabelecer critérios de tradução e um modelo de edição. Discute, assim, quais publicações de Dickinson existem, como elas foram organizadas e por que seguir o modelo de Miller em detrimento dos outros. Vale destacar aqui sua opção por manter, “as alternativas: palavras ou expressões que Dickinson ia anotando (ou anotava posteriormente) como possíveis substituições”, assim como “em alguns casos, há uma nota que faz referência às variantes (ou seja, outras versões do mesmo poema) e aos destinatários dos poemas”. Diante disso, além da leitura por fruição, esses volumes oferecem também material para que o pesquisador e o crítico possam analisar elementos diversos dos poemas, internos e externos ao texto, como unidades ou em conjuntos, pois preservam os processos de criação da autora. 

Müller recorre a importantes traduções brasileiras como as de Manuel Bandeira, mas estabelece seus próprios critérios para a elaboração de sua versão. Ele descreve sua tradução como um processo de “costura e sutura”:

Por um lado, ele [o tradutor] deve participar do processo de estabelecimento de um texto original, tornando-se também um editor, além de um crítico e de um intérprete (um leitor, em sentido lato). A esse processo damos o nome de costura […]. No processo de costura, a tradução opera sobre o conteúdo manifesto do texto, sem pensar nas lacunas, nas alternativas, nas variantes, nas rasuras e nos recalques. A costura visa manter estável a coerência da obra, permitindo que ela não se desfaça em meio à multiplicidade de leituras […]. Por outro lado, o tradutor deve estar atento para aquilo que não se fecha no próprio texto (elipses, variantes, alternativas, rasuras) e para a relação interna dos poemas dentro dos seus “conjuntos” […]. Ou seja, deve ler (e traduzir) aquilo que permanece latente no texto, como potência. A isso damos o nome de sutura. 

Assim, por meio de exemplos que comparam o original e a tradução, ele justifica suas escolhas quanto à métrica, à rima e às palavras utilizadas ao transpor o texto para o português, que, “como quer [Paul] Valéry, oscila entre o som e o sentido”. 

O tradutor cooperou também no processo de produção gráfica do livro. Segundo ele, as flores que aparecem na capa fazem parte do Herbarium que Emily Dickinson fez dos 9 aos 12 anos. Ela estudou botânica e fez “um trabalho delicado de coleta e classificação de todas as plantas e flores de Amherst, MA”. Ele trabalhou junto com a equipe editorial da UnB na elaboração da capa, das guardas e das ilustrações utilizando as próprias flores do Herbarium. Müller adverte que “há um trabalho semântico também”. A flor que aparece na capa à esquerda abaixo é uma Chrysanthemum, leucanthemum, ou seja, uma margarida (Daisy, em inglês). E “Daisy era um dos nomes que Emily dava a sua amiga Susan “Sue” Gilbert, a quem ela enviou quase 1/3 dos 1800 poemas”, explica o tradutor.⁣ 

Poesia completa é um belo volume, que dá um passo à frente na difusão da poesia dickinsoniana, na reflexão sobre e na prática da tradução no Brasil.

Para saber mais sobre o livro e adquirir o seu exemplar, acesse o nosso site!

Poesia Completa

Autor: Emily Dickinson

ISBN: 9786586253450

Ano da publicação: 2020

Edição: 1

Volume: 1: Os fascículos

Formato: 23,00 x 16,00 x 3,00 cm.

Nº de páginas: 888

Peso: 600g

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