Revista ECO-Pós da UFRJ publica entrevista com Luiz Marques, autor do livro “Capitalismo e colapso ambiental”

REVISTA ECO-PÓS: Sua publicação “Capitalismo e Colapso Ambiental” (Editora
Unicamp) foi lançado originalmente em 2015. Quais mudanças significativas se deram
nesse relativo curto intervalo de tempo?
Luiz Marques: O que acima de tudo define nossos dias é a aceleração da degradação
socioambiental do planeta. Essa degradação é multiforme e sistêmica. Seus aspectos
mais salientes são a crescente desestabilização do sistema climático, a aniquilação da
biodiversidade, o aumento asfixiante da poluição e da intoxicação química dos
organismos, a piora das condições sanitárias, o abismo crescente da desigualdade
socioeconômica, surtos imprevistos de negacionismo, de irracionalismo e de
obscurantismo de extrema-direita. Esses aspectos estão interligados e configuram o que
se poderia chamar a Grande Regressão. Sua velocidade é vertiginosa. O mundo tal como se afigura neste final de 2020 é já muito diverso daquele longínquo mundo de setembro
de 2015, quando se lançou a primeira edição do livro. Em 2016 e 2018, a segunda e a
terceira edições do livro já tentavam mostrar essa distância crescente, e a edição inglesa
de 2020 (Springer) nos projeta em um mundo ainda mais distante e sempre muito pior.
É claro que há alguns pontos positivos a ressaltar no balanço desses cinco anos, sendo
os mais importantes a muito maior consciência da gravidade extrema da situação em
que se encontram as sociedades contemporâneas, o fortalecimento dos movimentos
socioambientais e as diversas iniciativas de líderes globais de grande lucidez, como
Antônio Guterres, secretário-geral da ONU, e o papa Francisco, a começar por sua
encíclica Laudato si’, publicada em junho de 2015, quando o livro já estava em gráfica. É
de agosto de 2018 o início das greves de Greta Thunberg em frente do Parlamento
sueco, estopim das greves globais dos jovens pelo clima. Entre maio e outubro de 2018
teve início o movimento Extinction Rebellion no Reino Unido. No hemisfério sul, e em
especial na América Latina, as coisas começam também a se mover e um bom exemplo
disso é a mobilização de vários setores sociais em torno da Assembleia Mundial da
Amazônia. No Brasil, movimentos sociais como o MST e o Fórum Popular da Natureza,
entre muitos outros, são sinais vitais que tendem doravante a acelerar em sentido
socioambiental a agenda ainda anacronicamente “desenvolvimentista” dos partidos
progressistas. No âmbito da ciência, fortaleceu-se muito a pesquisa interdisciplinar
sobre as crises socioambientais e importantíssimos manifestos assinados por milhares
de cientistas vieram à luz desde então. Lembro aqui apenas um: a Advertência dos
Cientistas Mundiais à Humanidade: Um Segundo Aviso, de 2017, iniciativa coordenada
por William Ripple, da Universidade de Oregon. O manifesto, nascido 25 anos após a
Eco-92, foi assinado por 15.364 cientistas de 184 países.

Evidentemente, posto que nosso tempo é, como dito, o da Grande Regressão, os
retrocessos suplantam de longe os pontos positivos acima elencados. O Acordo de Paris,
de dezembro de 2015, o mais importante acordo diplomático da história da Convenção-
Quadro das Nações Unidas sobre as Mudanças Climáticas (UNFCCC, adotada em 1992),
está repetindo o mesmo fracasso, de resto previsível, do Protocolo de Kyoto. O Acordo
entrou em vigor em Novembro de 2016, mas o Irã, o Iraque e a Líbia ainda não o ratificaram e a Rússia o ratificou apenas em outubro de 2019. Acrescente-se que os EUA
desde logo abandonaram na prática o Acordo, e o que se tem é que ao longo de seus
primeiros três anos de vigência (XI/2016 – XI/2019), alguns dos principais países
produtores de petróleo e gás natural simplesmente não o reconheceram. As emissões
globais de gases de efeito estufa (GEE) aumentaram 0,6% em 2019 em relação a 2018. O
G20 é responsável por 78% das emissões globais de CO2 e 15 desses países mais ricos
do planeta não estão cumprindo nem suas timidíssimas promessas negociadas em 2015.
Em 2019, a China e a Índia aumentaram suas emissões de GEE em 2,6% e em 1,8%,
respectivamente, em relação a 2018. Nesse mesmo período, segundo dados recentes do
Sistema de Estimativa de Emissões de Gases de Efeito Estufa (SEEG), as emissões de
GEE no Brasil aumentaram 9,6%, um aumento assombroso, sendo a sanha piromaníaca
e ecocida do agronegócio brasileiro responsável, direta ou indiretamente, por 72% dos
2,17 bilhões de toneladas de CO2-eq emitidos pelo país no ano passado. Sobretudo após
a eleição de Bolsonaro, o Brasil tornou-se um país pária e um dos mais afrontosos
exemplos de descumprimento de seus compromissos de Estado. Tenhamos a coragem e
a honestidade de dizer alto e bom som que o rei está nu: o Acordo de Paris está hoje na
UTI, para não dizer no necrotério. Parece cada vez mais improvável que as próximas
COPs o tragam de volta à vida. Situação semelhante é a da Agenda 2030, adotada pela
ONU em setembro de 2015, contendo os famosos 17 Objetivos do Desenvolvimento
Sustentável. Em 2020, estamos mais distantes de atingir a grande maioria de seus 169
alvos do que estávamos em 2015 e em 2030 estaremos ainda mais distantes do que
estamos hoje. Após decênios de progresso em seu combate, a fome mundial, por
exemplo, vem aumentando incessantemente. Aumento semelhante se verifica no âmbito
das ameaças existenciais a inúmeras espécies de vertebrados e invertebrados. No que se
refere ao clima, há uma aceleração vertiginosa das concentrações atmosféricas de GEE e,
consequentemente, do aquecimento global. Basta dizer que o aquecimento vinha
ocorrendo a uma média de 0,17oC por década entre 1970 e 2014, mas seu ritmo saltou
para 0,43oC por década entre 2008 e 2017. Em 2015, atingimos 1oC no aquecimento
médio global superficial, terrestre e marítimo combinados, em relação ao período1880-
1920, período de referência adotado pela NASA. Em 2019, sempre segundo a NASA, saltamos para 1,23ºC!! E 2020 pode apresentar um quadro ainda mais grave, mesmo
com o recente La Niña a desacelerar momentaneamente o aquecimento do planeta.
Pioras equivalentes acusam-se também nos indicadores de poluição e intoxicação dos
organismos. Como afirmava em 2017, a acima mencionada Advertência dos Cientistas
Mundiais à Humanidade: “Em breve será tarde demais para mudar o curso de nossa
trajetória fracassada e o tempo está se esgotando”. Em 2019, outro manifesto
coordenado também por William Ripple, afirmava: “Declaramos, com mais de 11.000
signatários cientistas de todo o mundo, de forma clara e inequívoca que o planeta Terra
está enfrentando uma emergência climática. (…) A crise climática chegou e está se
acelerando mais rápido do que a maioria dos cientistas esperava. É mais grave do que o
previsto, ameaçando os ecossistemas naturais e o destino da humanidade”. Em 2020,
em suma, o futuro que já se insinuava em 2015 escancarou-se definitivamente. Um
manifesto publicado em 9 de setembro de 2018 pelo jornal francês Libération (“SOS de
700 Cientistas”) começa com este veredito: “Já entramos totalmente no ‘futuro climático
‘”(Nous sommes d’ores et déjà pleinement entrés dans le ‘futur climatique’).


REVISTA ECO-PÓS: De que forma a Covid-19 se relaciona com os termos chaves
presentes no título deste seu livro?
Luiz Marques: A pandemia da covid-19, que em menos de um ano já causou mais de 1,3
milhão de mortes reportadas (o número real é por certo maior), está entrando em sua
segunda ou terceira onda e, segundo os gráficos fornecidos diariamente pelo site
Worldometers (https://www.worldometers.info/coronavirus/), está agora matando
mais que nunca, vale dizer, em torno de 10 mil pessoas por dia. Ela é, contudo, apenas a
ponta do iceberg dos impactos crescentes e já inevitáveis que nos confrontarão nos
próximos anos. O Brasil oferece aqui um caso extremo. Em 8 meses, desde 17 de março
deste ano, o país já perdeu cerca de 165 mil vidas, mais de 20 mil mortes por mês, algo
como 28 mortes por hora, quase uma morte a cada dois minutos! As perdas brasileiras
representam quase 13% das mortes globais, mas a população do país não chega a 2,8%
da população mundial. A parcela maior de responsabilidade por esse massacre cabe a Bolsonaro, que vem assumindo posições até mais extremadamente execráveis que as de
Trump em relação à pandemia nos EUA. É imperativo depô-lo da presidência do país,
que ele tanto desonra, e julgá-lo ato contínuo por crime contra a humanidade. Que as
instituições e os setores mais organizados e mais informados da sociedade brasileira
não estejam reagindo à altura dessa monstruosidade, eis algo que mostra o nível de
prostração moral ou, se quisermos, de cinismo em que se encontram, sobretudo, os
deputados, senadores e os setores econômicos que apoiaram Bolsonaro e continuam a
apoiá-lo ou a tolerá-lo, em nome de seu horror quase atávico a tudo o que signifique
emancipação popular no Brasil.

Em termos mais gerais, a pandemia nada tem de adventícia. Longe de cair sobre
nós como um raio em céu azul, ela foi prevista por um número considerável de
cientistas. Em The Coming Plague. Newly Emerging Diseases in a World Out of Balance,
Laurie Garrett previu-a claramente e estávamos em 1994! Em 2012, Serge Morand, um
ecólogo e biólogo do CNRS, na França, escreveu um livro com título igualmente
profético: La prochaine peste. Nesse mesmo ano, David Quammen publicou Spillover.
Animal Infections and the Next Human Pandemic. E em 28 de janeiro de 2020, Quammen
publicou um artigo do The New York Time, cujo título não poderia ser mais contundente:
“We Made the Coronavirus Epidemic”. Haveria que lembrar ainda os trabalhos de Rob
Wallace, mas decerto o mais fulminante veredito a respeito do caráter antropogênico –
diretamente derivado de nosso sistema alimentar carnívoro globalizado e de nosso
sistema socioeconômico crescentemente disfuncional e destrutivo –, encontra-se no
artigo de Josef Settele, Sandra Díaz, Eduardo Brondizio e Peter Daszak, escrito a convite
do IPBES. O artigo inicia-se com o seguinte diagnóstico:

“Há uma única espécie responsável pela pandemia Covid-19: nós. Assim como com as
crises climáticas e o declínio da biodiversidade, as pandemias recentes são uma
consequência direta da atividade humana – particularmente de nosso sistema financeiro
e econômico global baseado num paradigma limitado, que preza o crescimento
econômico a qualquer custo. Temos uma pequena janela de oportunidade para superar
os desafios da crise atual, de modo a evitar semear as sementes das crises futuras”.

Cada frase dessa citação encerra uma lição de ciência e de lucidez política. A pandemia
em curso é, ao mesmo tempo, mais um elemento revelador, mais um alerta e mais um
acelerador do processo em curso de colapso socioambiental.

REVISTA ECO-PÓS: Uma das questões que você pesquisa está ligada ao período
geológico cunhado pelos biólogos Eugene F. Stoermer e Andrew C. Revkin como
Antropoceno. Gostaríamos de ouvi-lo sobre alguns termos correlatos, como
Capitaloceno (Jason Moore), Chthuluceno (Donna Haraway) e Plantationoceno (Tobias
Menley).
Luiz Marques: O termo Capitaloceno apresenta a vantagem de ser mais explícito no que
se refere ao motor a nos impelir para fora do Holoceno. De fato, não é o ser humano em
geral, mas sua particular forma capitalista de organização social que nos levou ao
Antropoceno e às crises que nos assediam. Mas essa e outras propostas não devem
vingar. Antropoceno é o termo já consagrado, proposto há vinte anos para designar uma
nova época geológica. Deve ainda ser ratificado pelas instâncias científicas com poder
decisório sobre a nomenclatura estratigráfica, mas seu uso caiu de há muito na
circulação sanguínea da sociedade, dentro e fora dos círculos científicos. Não se cogita
seriamente substituí-lo por outro qualquer dentre os acima citados. O sufixo –ceno,
comum a todas essas propostas, vem do adjetivo grego kainos, que significa novo ou
recente, mas também, estranho, imprevisto, diverso do que se manifestara
anteriormente etc. Aplicado a uma pessoa, ele designa um “alpinista social”, um parvenu,
um Homo novus, na expressão latina. Podemos brincar com essa ambiguidade semântica
e imaginar que o termo Antropoceno contenha também o significado, ou ao menos a
conotação, de uma espécie nova e estranha aos velhos equilíbrios planetários, um
parvenu com ridículas pretensões a ocupar uma posição que não lhe pertence no
concerto da biosfera. Tornamo-nos muito rapidamente, de fato, uma espécie tão
“estranha” aos equilíbrios biofísicos do sistema Terra, que há agora um risco real,
crescente e mesmo iminente, de que esse sistema se torne terrivelmente inóspito à nossa espécie. Estamos tornando o planeta inabitável para nós próprios e nosso
desparecimento é agora uma eventualidade crescentemente plausível. A extinção dos
humanos seria, de um lado, um alívio para as outras espécies, mas, de outro, um
empobrecimento enorme para o potencial cognitivo e espiritual da vida na Terra,
porque o Homo sapiens não deve ser entendido apenas como um fracasso, como uma
espécie singularmente agressiva, arrogante e estupidamente antropocêntrica. Nossa
espécie é também dotada de faculdades incrivelmente positivas, a começar por sua
enorme capacidade de abstração simbólica. Somos capazes de aprender a viver em paz
com nós próprios e em relativo equilíbrio com a biosfera. Somos também dotados de
senso moral, empatia, generosidade, altruísmo e senso estético. As outras espécies
também são dotadas de tais faculdades, inclusive de senso estético. Mas a nossa é a
única capaz de compor uma sinfonia, a única capaz de gerar um Michelangelo, um
Beethoven, um Tolstói… Há uma proposta recente de conjugar o termo Antropoceno
com o termo Piroceno, alusivo obviamente aos incêndios que se propagam por toda a
parte. Conjugar, não substituir, porque enquanto o Antropoceno significa uma nova
época geológica, o Piroceno designaria um novo período geológico, além do Quaternário
(os últimos 2,58 milhões de anos), com seus típicos ciclos glacial-interglacial.

REVISTA ECO-PÓS: Nos últimos anos temos acompanhado o crescimento de certo
discurso negacionista, que extrapola o aquecimento global e as mudanças climáticas. O
que explica essa tendência? De onde é que vem isso?
Luiz Marques: Num artigo que publiquei1 na Folha de São Paulo no ano passado, tento
discutir a questão do negacionismo. Claro que sua causa maior é a desinformação
fomentada pelas corporações, como bem demonstrado no livro de Naomi Oreskes e Erik
M. Conway, Merchants of Doubt: How a Handful of Scientists Obscured the Truth on Issues
from Tobacco Smoke to Global Warming, de 2010. Mas ninguém engana reiteradamente e por muito tempo quem não quer, de algum modo, ser enganado. É preciso entender
que as mentiras dos mercenários da desinformação caem em ouvidos receptivos,
porque as tristes verdades que a ciência está hoje gritando a plenos pulmões pelos
telhados são, a cada dia que passa, mais e mais emocionalmente difíceis de ouvir.
Segundo o The Crédit Suisse Global Wealth Report 2019, 89,2% da população adulta do
planeta divide apenas 17,3% da riqueza planetária. No outro extremo da pirâmide,
10,7% dos adultos da humanidade detêm 82,7% da riqueza planetária. A ciência insta
esse décimo da população adulta a sair de suas zonas de conforto, a rever suas
premissas e seus paradigmas. Para muitos deles é preferível simplesmente negar frontal
e puerilmente a ciência. Os negacionistas da emergência climática e da aniquilação da
biodiversidade engrossam as fileiras dos terraplanistas, dos criacionistas, dos antivacinas,
dos que negam a pandemia e as viagens de astronautas à lua, dos consumidores
ávidos de fake & hate news, dos conspiracionistas de todos os matizes, dos Q-Anon, por
exemplo, que acabam de eleger dois deputados nos EUA. Há também os que não negam
frontalmente a ciência, mas se agarram à crença de um “capitalismo verde”. Para esses,
os mercados e as corporações estariam se movendo no sentido de conformar suas
atividades aos parâmetros biofísicos exigidos para conter o aquecimento global em
níveis não catastróficos. Os fatos demonstram abundantemente o contrário, mas o que
caracteriza o negacionismo é justamente sua impermeabilidade aos fatos ou sua notável
capacidade de “adaptá-los” às suas convicções.


REVISTA ECO-PÓS: Em entrevista recente para o Instituto Humanitas (Unisinos) você
afirma que “a palavra socialismo tem ainda sentido no século XXI se, e somente se, for
entendida como ecossocialismo”. O campo progressista ou a esquerda polı́tica tem
incorporado a prática e o discurso ecológico? Nesse sentido, existem experiências a
serem destacadas?
Luiz Marques: É claro que há progressos, mas são ainda demasiado lentos e
insuficientes. É obviamente impossível atenuar o colapso socioambiental em curso se as
decisões sobre os investimentos estratégicos, notadamente em energia, alimentação e mobilidade, permanecerem nas mãos das corporações. Mas isso não significa
meramente transferir para o Estado o controle do capital privado. De resto essa
transferência já está parcialmente consumada, por exemplo, no caso crucial da energia,
pois as maiores corporações de petróleo e gás natural do mundo, por reservas e por
renda, são estatais ou controladas por Estados. E estes agem e se pensam como
corporações, subsidiam os fósseis, lucram e se financiam com eles, de modo que
resistem tanto quanto o Big Oil privado à descarbonização da economia. Sim, a palavra
socialismo tem ainda sentido no século XXI se, e somente se, for entendida como
ecossocialismo. Resumo o que entendo por ecossocialismo em dois pontos e meu
entendimento jamais perde de vista a nova, brutal e incontornável realidade de que o
que hoje está em jogo não são mais as diversas agendas de progresso típicas dos séculos
XIX e XX, mas a viabilidade do projeto humano num mundo 2oC a 3oC em média mais
quente que o período pré-industrial. Segundo as projeções mais conservadoras, esse
nível de aquecimento será atingido no segundo ou terceiro quarto deste século, mantida
a atual trajetória. O ecossocialismo significa, em primeiro lugar, redefinir o sentido
mesmo da atividade econômica, que deve visar acima de tudo uma drástica redução do
impacto antrópico sobre os equilíbrios do sistema Terra. Isso pressupõe, é claro, uma
ordem jurídica diversa do capitalismo e uma democracia radical, que garanta à
sociedade poder de veto a toda e qualquer tomada de decisão econômica incompatível
com essa redefinição primeira. Em segundo lugar, é preciso entender o ecossocialismo
como uma sociedade politicamente globalizada, isto é, livre da noção anacrônica e
tipicamente militarista de soberania nacional absoluta. A governança global deve estar
investida de poder mandatório no que se refere à descontinuação dos combustíveis
fósseis, desmatamento zero e restauração florestal, poder este de natureza democrática,
i.e., eleito por sufrágio universal e emancipado do poder de veto de instâncias como o
Conselho de Segurança da ONU. Globalização política não significa fazer tabula rasa das
peculiaridades culturais que fazem a riqueza da civilização humana. Significa, ao
contrário, garantir-lhes o direito de permanecer à margem dos mercados
homogeneizantes. Não é difícil entender que as crises trazidas pela globalização
extrema do capitalismo são globais e só podem ser atacadas efetivamente pela globalização igualmente extrema da política. Nossa sobrevivência como sociedade
organizada, talvez como espécie, depende de nossa capacidade de superar o horizonte
mental da nação. Tudo isso é estranho ao horizonte ideológico e às práticas do
socialismo do século XX e não teremos avançado nada se os partidos de esquerda
acrescentarem o prefixo eco- ao socialismo apenas para parecerem mais
“moderninhos”. Esse prefixo não é um simples adjetivo do socialismo. Na realidade, o
termo mais adequado para caracterizar uma sociedade mais apta à adaptação, frente ao
sofrimento imenso que nos aguarda, seria socialecologismo, isto é, uma sociedade global
fundada em seu comprometimento existencial com o que resta dos equilíbrios
ecológicos do planeta, consciente de que esse comprometimento passa necessariamente
pela superação do capitalismo e pela radical democratização da economia e da política.

REVISTA ECO-PÓS: A economia na América Latina tem uma ligação histórica com o
extrativismo vegetal, mineral e animal. A partir do final da década de 1990 e inı́cio do
século XXI, houve um crescimento exponencial dessas atividades, marcado pelo
consenso de commodities, e que de certa forma perdura fortemente até os dias de hoje.
Na sua opinião, o Brasil está cada vez mais dependente dessa condição de paı́s
exportador de bens primários (como é o caso da mineração, do petróleo, da soja e da
carne)?
Luiz Marques: Não é uma questão de opinião. É um fato confortado pela totalidade dos
indicadores históricos e econômicos. O Brasil é o exemplo extremo de uma economia
agro-mínero-exportadora, insustentável não apenas em termos ecológicos, mas também
em termos estritamente econômicos. Quem pode crer que uma economia sobreviva
graças à exportação de minérios, carne e ração animal para porcos, frangos e peixes
situados a muitos milhares de quilômetros de distância? O Brasil é uma costela do
sistema alimentar mundial e este é o aspecto mais vulnerável do capitalismo
globalizado, pois diretamente dependente de condições climáticas favoráveis e de oferta
de petróleo barato para o transporte e para a fabricação de fertilizantes industriais. Há
incerteza quanto ao futuro do petróleo barato, mas absoluta certeza de que os riscos climáticos diminuirão a produtividade agrícola até o ponto de inviabilizar o
agronegócio. Mesmo que isso não ocorra de imediato, quem pode acreditar que o
próprio país sobreviva, quando sua arquitetura econômica supõe dizimar seus povos
originários, derrubar e incendiar suas florestas, destruir suas paisagens naturais, sua
fauna, sua flora e seus solos, intoxicar a população humana e a de outros animais com
quantidades crescentes de agrotóxicos, jogar mercúrio em seus rios e esgotar seus
recursos hídricos? Os trágicos 21 anos da ditadura militar colocaram o Brasil em
situação ecológica de alto risco. Esse risco só aumentou com os governos do PSDB e do
PT, malgrado o breve interregno de notável diminuição do desmatamento amazônico
entre os anos 2005 e 2012. Com Dilma e Temer, a curva tornou-se novamente
ascendente. Com apenas dois anos de Bolsonaro, a devastação do país, e não apenas de
suas florestas, atingiu tais proporções que, admitamos sem mais rodeios, é altíssima a
probabilidade de que a economia brasileira já tenha se tornado francamente inviável.
Sem florestas, sem chuvas, com seus polinizadores dizimados por agrotóxicos, sujeito a
secas, inundações e picos de calor cada vez frequentes e maiores, o Brasil pode começar
a ter a qualquer momento quebras recorrentes de safra, e/ou uma gripe aviária, com
ondas de impacto em toda a sua economia. Isso não é uma conjectura. É uma
probabilidade que aumenta ano a ano, decorrente da destruição pelo desmatamento e
pelas chamas da Amazônia, do Cerrado, da Caatinga, do Pantanal e dos resquícios da
Mata Atlântica, com desdobramentos fatais inclusive para o Sul e o Sudeste do país. Em
plena terceira semana de novembro, o nível do sistema Cantareira continua baixando e
está agora reduzido a cerca de 32% de sua capacidade acima do volume morto. Estamos
novamente sujeitos a recair, de uma hora para outra, numa crise hídrica igual ou pior
que a de 2014. Os meses em que as chuvas são menores ou muito menores que as
médias históricas são mais numerosos do que os meses em que elas atingem ou
superam essas médias. Dado que o desmatamento continua por toda a parte, inclusive
na Mata Atlântica, e dado que sem florestas não há chuva, é apenas questão de tempo
até atingirmos níveis críticos dos sistemas de abastecimento hídrico em nossa região,
isso para não falar nos impactos sobre a oferta de energia hidrelétrica.

REVISTA ECO-PÓS: É possível falar em Decrescimento no contexto nacional ou mesmo
continental?
Luiz Marques: Depende do significado atribuído à palavra decrescimento. Como dito
acima, o decrescimento, entendido como crescimento negativo do PIB, não é uma
escolha, não é apenas uma possibilidade, é uma tendência inexorável ao longo da década
que se abre em 2021, e talvez mesmo já a partir de 2021, mesmo sem a pandemia. Se,
por outro lado, decrescer significa algo que nada tem a ver com métricas como o PIB e
outros dogmas religiosos, se decrescer significa diminuir o impacto da atividade
econômica sobre a biosfera e sobre o sistema Terra em geral, então decrescer não é
apenas possível, mas é algo absolutamente imprescindível para nossa sobrevivência.

REVISTA ECO-PÓS: Você foi curador-chefe do MASP (Museu de Arte de São Paulo) na
década de 1990. E também já publicou livros e artigos sobre história da arte. O interesse
aqui é saber como as duas facetas das suas pesquisas podem se conectar. De que forma
os artistas e suas obras abordam o colapso ambiental?
Luiz Marques: Até onde alcança minha imaginação, não vislumbro qualquer conexão
entre a história da arte italiana dos séculos XIII a XVI, que estudei durante a maior parte
da minha vida estudantil e docente, e a observação de processos de colapso
socioambiental. O Renascimento se interessou apaixonadamente, como é de todos
sabido, pelo legado da civilização greco-romana, pela questão, portanto, da
descontinuidade histórica, o que inclui uma intensa reflexão sobre a questão geral do
colapso civilizacional. Essa reflexão está presente em Maquiavel e Guicciardini, leitores
atentos, por exemplo, de Políbio e Plutarco. Está presente também em artistas como
Rafael e Vasari, autores de reflexões pioneiras sobre a historicidade da arte antiga. Mas
em todos esses casos a reflexão se ocupa de declínios e colapsos históricos, não
socioambientais. É apenas desde a Revolução Industrial que a questão dos impactos
humanos sobre a natureza, sobre catástrofes ocorrendo no nível da biosfera, começou a
sensibilizar os artistas. Um pintor fascinante nesse contexto é John Martin (1789-1854),
autor de obras de grandes dimensões, nas quais imaginações fulgurantes do Apocalipse e do Juízo Final são quase pretextos para a figuração delirante de cataclismos naturais,
para não dizer cósmicos. Como não poderia deixar de ser, o colapso socioambiental em
curso é um tema que tem atraído cada vez mais a atenção, a preocupação e a
sensibilidade dos artistas contemporâneos. Mas não saberia avaliar, a não ser como um
observador casual, as abordagens desses artistas

Para ler mais matérias da Revista ECO-Pós, clique aqui.

SOBRE O LIVRO

Capitalismo e colapso ambiental

Autor: Luiz Marques

ISBN: 9788526814684

Ano da Publicação: 2019

Edição: 3

Formato: 23,00 x 16,00 x 4,00 cm.

Nº Páginas: 736 pp

Peso: 1.110 g.

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