Navegar é preciso, viver…

Trabalhadores marítimos

Por Laís Souza Toledo Pereira

 

 

Imagine que você é um marinheiro contemplando a grandeza do oceano, percebe que pode superar mais desafios do que se imaginava capaz, conhecer o que ninguém tinha visto e voltar cheio de histórias para contar. Agora imagine que você é um marinheiro e o seu capitão acha que um pedaço de carne repleto de vermes é bom o bastante para matar a sua fome. Essa pode ser a gota d’água para você e seus companheiros se revoltarem contra o tratamento desumano que recebem. Um motim se inicia e muitos morrem. Na literatura e no cinema, a vida daqueles que trabalham no mar já foi representada de diversas formas: há desde idealizações fantásticas ou inspiradoras até duras críticas a abusos praticados. Mas como será que realmente vivem esses trabalhadores? A socióloga Helen Sampson queria compreender essa questão e embarcou (literalmente) em uma investigação à procura de respostas. O resultado dessa pesquisa deu origem ao livro Trabalhadores marítimos internacionais e transnacionalismo no século XXI, cuja tradução, realizada por Fernando Ramalho Martins, acaba de ser publicada pela Editora da Unicamp.

“Eu não tinha ideia do que esperar no mar, mas sabia o que estava procurando. Eu queria compreender como esses trabalhadores viviam: como sobreviviam no mar e como lidavam com as longas ausências (associadas ao trabalho) de seus lares, amigos e familiares.” Isso é o que, a certa altura, a pesquisadora nos revela. E é também um trecho representativo do que José Ricardo Ramalho, estudioso na área de Sociologia do Trabalho, ressalta em seu instigante prefácio à edição brasileira: “Os destaques do livro, a meu ver, são a demonstração de desprendimento pessoal na imersão do trabalho de campo e o uso preciso – e ao mesmo tempo apaixonado – da descrição de como esse processo ocorreu”. Para ele, o que surpreende o leitor não é apenas a riqueza de detalhes, mas também “a curiosidade sociológica explicitada de forma franca, revelando as iniciativas, mas também as dúvidas, os medos…”. Esses medos, porém, não impedem que a socióloga se posicione criticamente no debate intelectual, questione conceitos estabelecidos e defenda hipóteses que contribuem para as discussões sobre as relações espaciais, sociais e de trabalho, bem como para as questões de migração, globalização e transnacionalismo.

O que pode ainda impressionar, para além da escrita cativante e do trabalho de campo exaustivo, são as próprias considerações que Sampson apresenta sobre a realidade precária das pessoas que trabalham hoje em navios internacionais. A autora destaca que “a vida a bordo de cargueiro mercante é barulhenta, solitária e perigosa”. Além disso, o processo de globalização do mercado afetou, talvez de modo mais impactante que em outros setores, o trabalho marítimo: hoje é possível aos donos de navios registrarem suas embarcações onde lhes for mais conveniente, geralmente em países carentes de emprego, que oferecem mão de obra barata e legislações mais flexíveis (leia-se: com menos direitos garantidos aos trabalhadores). Nesse contexto, os contratos costumam ser temporários, os funcionários podem ser demitidos arbitrariamente e o ativismo sindical é fortemente desestimulado.

Se, por um lado, a globalização pode trazer ideias emancipatórias, como a ampliação de mobilidade e a internacionalização do trabalho, por outro, carrega um potencial de degradação da vida para muitos trabalhadores migrantes. Eles, diz a socióloga, “podem descobrir que, depois de um período de migração recorrente, talvez não se sintam em casa na terra de seus antepassados, ao mesmo tempo em que são marginalizados nos países onde trabalham”. Tendo isso em vista, Helen Sampson percebeu que o conceito de transnacionalidade deveria ser reduzido a seus fundamentos mais básicos para que pudesse ser aplicado de modo útil na análise dos dados que ela coletou em seus trabalhos de campo: “Para que a transnacionalidade tenha sentido, os migrantes transnacionais precisam estar incorporados não apenas a uma, mas a duas comunidades”. Logo, a autora considera que tal conceito não se aplicaria à existência da maioria dos trabalhadores marítimos, uma existência muitas vezes marginal, com pouco acesso à participação efetiva nos diferentes espaços sociais por onde transitam.

A questão dessa presença marginal foi se ampliando no curso da pesquisa: à medida que a socióloga passou a compreender melhor o setor do trabalho marítimo, ela quis saber mais sobre a vida desses trabalhadores não apenas quando eles estavam embarcados, mas também quando estavam em terras estrangeiras aguardando – sem muitas possibilidades de ação e às vezes por longos períodos – uma nova oportunidade de emprego ou a aposentadoria. Por fim, a vida das famílias desses trabalhadores, sobretudo a de suas esposas, foi mais um ponto de interesse da pesquisadora (ponto esse, inclusive, ainda pouco explorado na literatura da sociologia). Muitos marítimos se sentiam como “bancos” de suas famílias; por outro lado, ainda que pudessem voltar para casa com a “mente mais aberta” pelo contato com diferentes culturas, suas esposas se sentiam muitas vezes limitadas nos raros momentos de presença deles no lar. Quase sempre, o sentimento predominante era de estranhamento, tanto por parte dos familiares quanto dos trabalhadores marítimos (seja no navio, em terras estrangeiras ou em casa).

Assim, Helen Sampson concluiu que “em geral os marítimos reconhecem que se resignar com o ‘seu destino’ faz parte da vida. Eles consideram que o trabalho e a vida são coisas a serem ‘suportadas’”. Ela também ponderou que muitos deles “podem justificar sua busca por uma carreira marítima como um ato de grande sacrifício pessoal”. Talvez a experiência desses trabalhadores represente bem a frase do general romano Pompeu que ficou conhecida nos versos de Fernando Pessoa: “Navegar é preciso, viver não é preciso”.

 

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Trabalhadores marítimos internacionais e transnacionalismo no século XXI

Autor: Helen Sampson
Tradutor: Fernando Ramalho Martins

ISBN: 978-85-268-1476-9

Edição: 1ª

Ano: 2018

Páginas: 336

Dimensões: 14×21

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