Leitura, recepção e movimentação de romances no século XIX

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Por Luísa Rosa

Imagine que você é um comerciante ou uma estudante do século XIX que vive no Rio de Janeiro e deseja muito ler um romance, mas não tem dinheiro suficiente para comprar o livro na livraria. Quais são suas opções? Além de acompanhar a história em folhetins ou fascículos, você também pode ir a uma biblioteca ou, ainda, se tornar sócio de um gabinete de leitura por um preço módico e, assim, pegar alguns livros emprestados. Esses gabinetes, as traduções de romances e a circulação de impressos são temas de vários textos presentes no livro Romances em movimento, organizado por Márcia Abreu.

Ela também é coordenadora, ao lado de Jean-Yves Mollier, do projeto “Circulação transatlântica do impresso: A globalização da cultura no século XIX”, que resultou em outros dois volumes: Suportes e mediadores e Descolamentos e mediações. Os três livros trazem artigos desenvolvidos por uma equipe internacional de pesquisadores que mostram como o mundo livreiro atravessou fronteiras nacionais, culturais e linguísticas.

Romances em movimento, publicado inicialmente em inglês, conta com 14 textos, divididos em quatro partes: “Trajetórias”, “Traduções”, “Romances de sucesso” e “Leituras”. A obra traça uma nova história da ficção oitocentista, ao considerar a circulação dos romances sem se limitar à oposição entre periferia e centro. Esse gênero agradava particularmente ao público leitor, mas era malvisto pelos homens letrados. Julgados inúteis e perniciosos na maior parte das vezes, os critérios para a análise dos romances englobavam a aferição da moralidade, a manutenção do interesse do leitor no desenrolar da intriga e uma linguagem fácil, correta e elegante.

Entre os romances mais lidos, estavam os de Alexandre Dumas. Os capítulos também mostram a presença da ficção britânica no sul do Brasil oitocentista, a qual não era constituída apenas por autores canônicos como Walter Scott e Charles Dickens, mas também por romances policiais, de sensação e vitorianos. Ao abordar estes últimos, é quase impossível não mencionar Jane Austen. Há um capítulo dedicado à tradução de uma obra da autora mostrando que, ao ser vertida para o francês, foi submetida a uma adaptação cultural e teve seu teor crítico e irônico atenuado. Essa tradução francesa serviu de base para a tradução portuguesa que, surpreendentemente, não continha nem o nome da autora.

Obras brasileiras também foram modificadas ao serem traduzidas para francês e alemão – foram feitas adaptações para adequar os textos às expectativas sociais e culturais do público-alvo. Um exemplo foi O Guarany, de José de Alencar, que se tornou muito popular na Alemanha. Longos trechos descritivos foram eliminados e a tradução de termos indígenas mostrou-se uma grande dificuldade. Innocencia, de Visconde de Taunay, também passou por situações semelhantes na tradução e deixou de ser visto como sertanejo para transformar-se em “romance brasileiro”.

Alguns livros tinham um conteúdo que se sobrepunha às noções de nacionalidade e escola literária: os romances pornográficos. Embora velada, houve ampla circulação desse tipo de texto e, entre eles, também era possível encontrar livros pertencentes ao naturalismo, entendidos como eróticos, deixando de lado a vertente cientificista na recepção popular.

A recepção crítica da literatura naturalista é outro tema analisado no livro. O apelo ao critério da moralidade é um ponto comum em vários países, como França, Brasil e Argentina, embora os portenhos tenham recebido o naturalismo de forma mais positiva – como a pintura de uma realidade que reconhece seus vícios, o que tornaria possível remediá-los.

Ao longo da leitura de Romances em movimento, percebe-se que a história literária vai muito além do estudo de livros canônicos: editores e livreiros, leitores e críticos, bibliotecas e gabinetes de leitura espalhados pelo país, assim como escritores de sucesso que não foram canonizados, também têm sua importância. Conforme Roger Chartier comenta na orelha do livro: “A simultaneidade da publicação e da leitura dos mesmos romances no Brasil e na França destruiu a ideia de um atraso cultural do Brasil”. Observar a circulação transatlântica dos romances rompe com a noção de dependência cultural e abre novas perspectivas.

Para saber mais sobre o projeto “Circulação transatlântica do impresso: A globalização da cultura no século XIX”, clique aqui.

Romances em movimento

Romances em movimento: A circulação transatlântica dos impressos (1789-1914)

Organização: Márcia Abreu

ISBN: 978-85-268-1355-7

Edição: 1a

Ano: 2016

Páginas: 440

Dimensões: 16 x 23

Um comentário sobre “Leitura, recepção e movimentação de romances no século XIX

  1. Que interessante como os gabinetes de leitura já ofereciam uma solução de baixo custo para o acesso aos romances, algo tão parecido com as assinaturas de livros digitais hoje. Sempre pensei que pegar livros emprestados fosse uma prática moderna, mas ver que já existia no Rio de Janeiro oitocentista mostra como a vontade de ler sempre encontrou caminhos criativos.

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